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“Prisão Domiciliária” é uma série divertida e bem construída que chegou no momento certo

A NiT já viu o primeiro episódio da produção da Opto. Há semelhanças com o caso de Sócrates, mas a história é mais do que isso.
Marco Delgado faz o papel de uma carreira.

De charuto na boca, roupão colorido de seda ou cetim, cabelo penteado para trás e uma postura que o faz ser o rei do palacete onde vive, Álvaro Vieira Branco é uma espécie de Pablo Escobar romanceado adaptado à política portuguesa. É ele a grande força motriz de “Prisão Domiciliária”, a nova série da plataforma de streaming Opto, da SIC, cujo primeiro episódio estreou esta sexta-feira, 16 de abril.

Idealizada e realizada por Patrícia Sequeira (“Terapia”, “O Clube”, “Snu”, o futuro “Bem Bom”), foi escrita por João Miguel Tavares, Catarina Moura, Rodrigo Nogueira e Tiago Pais. Ao todo são oito episódios — todas as semanas chega um novo capítulo da história.

Álvaro Vieira Branco (Marco Delgado) foi ministro das Obras Públicas, desempenhou um papel importante no partido do governo e, de alguma forma — que ainda não percebemos bem depois de apenas termos assistido ao primeiro episódio —, envolveu-se claramente em negociatas ilegais para o beneficiar a ele próprio.

Encontramo-lo no dia em que regressa da prisão, três meses depois, e fica, lá está, em “Prisão Domiciliária”, com uma pulseira eletrónica agarrada ao tornozelo. É uma prisão domiciliária de luxo: um enorme palacete com jardins, piscina e até um banho turco onde tem conversas com o advogado porque é o único sítio onde certamente não há ninguém a ouvir. O cenário do Hotel da Lapa, onde a série foi gravada em fevereiro deste ano, é quase uma personagem por si só. E consegue ser tão diverso que dificilmente se tornará claustrofóbico, mesmo que a ação se passe toda no seu interior.

Neste primeiro episódio, Álvaro Vieira Branco é um homem a tentar aproveitar a sua reconquistada semi-liberdade. Dorme com uma prostituta, promove um churrasco de família, tenta aproveitar os pequenos prazeres que lhe estiveram privados durante três meses. Só que está em negação, alheio à forma como tudo à sua volta se está a desmoronar.

A mulher, Raquel (Sandra Faleiro), está naturalmente cheia de dúvidas. Diz que os amigos e contactos profissionais deixaram de lhe atender o telefone e gere uma fundação com o nome da família que pode estar em risco de colapsar, agora que o nome de Álvaro Vieira Branco se tornou tóxico. A filha que anda na faculdade lê os jornais e aponta o dedo àquilo que o pai terá feito. O filho adolescente quase não diz uma única palavra durante o primeiro episódio e vive escudado dentro do telemóvel ou das consolas.

Não há dinheiro para pagar as propinas da universidade, a mensalidade do colégio ou uma empregada que limpe o palacete — porque a fortuna do político está congelada — mas Álvaro esbanja nos primeiros cinco minutos do episódio umas quantas centenas de euros por alguns minutos com uma prostituta de quem é cliente habitual. É um homem a viver acima das suas possibilidades, que recebe envelopes com dinheiro transportados pelo seu motorista, Arnaldo.

Obviamente, há aqui algumas alusões e semelhanças com o caso de José Sócrates — como o próprio João Miguel Tavares assumiu numa entrevista à NiT, ainda que a personagem de Álvaro Vieira Branco tenha muitas diferenças e esteja noutras circunstâncias. O timing da estreia também é oportuno, apenas uma semana desde que foi conhecido por que crimes o ex-primeiro-ministro português vai ter de responder em julgamento. Sabemos também que o protagonista deste enredo vai tentar manter algum tipo de status quo na política — quer assegurar a influência que tinha no partido.

À partida, parece-nos uma série muito bem construída. As personagens são ricas e complexas o suficiente para serem entusiasmantes. Além do núcleo central da família, existe a mãe de Álvaro (Valerie Braddell), que vendeu a casa para ajudar o filho e que agora vai viver durante uns tempos para o palacete. Há ainda Zé Mário, uma espécie de fixer para Álvaro, incrivelmente bem interpretado por Fernando Rodrigues. Afonso Pimentel tem o papel do advogado asmático David e Filipe Vargas faz do assessor do atual primeiro-ministro, que aproveitou a queda de Álvaro para ascender na máquina partidária. 

A narrativa oscila muito bem entre a sátira e o drama. Por exemplo, o episódio começa com uma conversa peculiar sobre Armando Gama no Festival da Canção, que mostra a personalidade implacável e impulsiva de Álvaro Vieira Branco, e termina com um momento mais solene em que Álvaro e a mulher dançam no quarto, na primeira noite em que estão juntos desde o regresso da prisão. O tom consegue ser divertido, sem cair no exagero, e sem chegar também ao melodrama.

Marco Delgado tem aqui aquele que pode ser o papel de uma carreira. E já percebemos que não desperdiçou de todo a oportunidade de interpretar esta personagem, como se diz lá fora, “larger than life”. É calculista, impiedoso, terrível, mas também tem um lado sedutor, ternurento quando calha. É um anti-herói como aqueles que nos habituámos a adorar nas séries de televisão, desde o já referido Pablo Escobar, em “Narcos”, ao Tony de “Os Sopranos”, passando ainda pelo Heisenberg de “Breaking Bad”.

“Prisão Domiciliária” tem todos os ingredientes para ser uma ótima série — e a porta parece estar aberta para uma possível segunda temporada. Contas feitas, a Opto, plataforma de streaming que a SIC nos deu no ano passado, é já a casa para várias produções nacionais de qualidade, e Patrícia Sequeira volta a demonstrar todo o seu talento e elegância como realizadora. São séries como esta que nos dão alento quando pensamos no futuro daquilo que pode ser a ficção em Portugal. Ah, e também vale a pena realçar a bela música de Samuel Úria para este projeto (ele que também faz uma pequena participação como ator).

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