Televisão

“Quando o David Attenborough disse o meu nome no documentário… Uau!”

A NiT entrevistou a luso-descendente Daniella Teixeira, que vive na Austrália e participa no novo documentário da Netflix do naturalista britânico.
David Attenborough narra este documentário.

O mais recente documentário da Netflix narrado por David Attenborough, “A Terra no Limite: A Ciência do Nosso Planeta”, estreou na plataforma de streaming a 4 de junho. Centra-se nos limites ultrapassados pela humanidade em relação ao seu planeta: nos indicadores em que fomos longe demais, e no que podemos fazer para inverter a tendência.

Uma das especialistas entrevistadas é a luso-descendente Daniella Teixeira, de 33 anos, que vive e trabalha na Austrália. Natural da África do Sul, é filha de mãe alemã e de pai português, de uma família madeirense que emigrou para o país africano.

Daniella Teixeira vive desde os dez anos na Austrália e é uma cientista especializada em conservação da biodiversidade. A espécie à qual tem dedicado muito do seu trabalho e investigação são as catatuas pretas brilhantes.

Mesmo antes da pandemia da Covid-19, a Austrália foi assolada por alguns dos piores incêndios florestais de sempre — que destruíram grande parte da sua fauna e flora, em enormes áreas de território. As catatuas pretas brilhantes, e milhares de outras espécies, foram profundamente afetadas — e os incêndios têm-se tornado cada vez mais fortes ao longo dos anos, tendo em conta as alterações climáticas.

Por isso mesmo, a equipa que produziu o documentário da Netflix, a Silverback Films — a equipa também por trás da minissérie documental “O Nosso Planeta” e do documentário “David Attenborough: Uma Vida no Nosso Planeta” — viajou até à Austrália para abordar o tema com Daniella Teixeira.

As gravações aconteceram em fevereiro de 2020. “Foi literalmente naquele mês entre os incêndios florestais e a pandemia. Foi um período em que era finalmente seguro voltar ao terreno, depois de os fogos serem apagados, e lembro-me, de quando estávamos a filmar, de toda a gente a falar ‘ah, esta coisa da Covid’. E eu: ‘mas o que é isso? Whatever [risos]’. E provavelmente duas semanas depois estávamos fechados em casa. Sim, foram tempos estranhos”, conta Daniella Teixeira à NiT, numa conversa feita a partir do outro lado do mundo.

As filmagens com a especialista luso-descendente aconteceram na ilha Kangaroo — a terceira maior da Austrália — que tinha sido quase completamente devastada pelos incêndios. No documentário vemos a cientista a visitar pela primeira vez o local após os fogos.

“Passei vários anos a trabalhar naquela ilha Kangaroo, a fazer a investigação para o meu PhD, por isso conhecia o local muito bem. E quando os fogos estavam a acontecer, eu estava no final da minha pesquisa e a terminar a minha dissertação e a deparar-me com o facto de que os sítios nos quais estava a basear a minha tese agora… tinham desaparecido. O que é insano.”

Daniella Teixeira vive na cidade de Brisbane e estudou na Universidade de Queensland e estava lá — longe da ilha Kangaroo — enquanto os incêndios aconteciam um pouco por todo o País.

Daniella Teixeira com uma catatua preta brilhante.

“Comecei a fazer campanhas nas redes sociais, angariação de fundos e a falar com jornalistas quase todos os dias, enquanto os meus colegas que estavam na ilha estavam literalmente a enfrentar as chamas. Quando os produtores [deste documentário] me chamaram, fiquei um bocado ‘sim, ok, whatever’, nem sequer pensei muito nisso porque estava tão focada no problema. Mas no primeiro dia, quando começámos a filmar, comecei a perguntar que documentário era… E disseram-me que queriam discutir o impacto das alterações climáticas e os problemas ambientais mas não me disseram muito mais. E depois disseram que ia estar na Netflix e eu ‘ah, ok, isto é a sério’.”

No documentário podemos ver Daniella Teixeira visivelmente emocionada e triste com a devastação da ilha. “Foi um pouco surreal. Foi quase uma experiência como se eu não estivesse no meu corpo. Estava num sítio que conhecia tão bem mas que estava tão diferente. Nem conseguia fazer sentido daquilo que estava a acontecer. A equipa de filmagens encontrou-se comigo no aeroporto ou logo a seguir e captaram tudo. Quando vi o documentário há umas quatro ou cinco ou seis semanas, foi estranho ver o que tinham apanhado, porque foi reviver tudo aquilo outra vez. Porque quando lá estás nem absorves bem, agora parece-me mais real, porque vi as imagens, já consegui processar mentalmente.”

A cientista já tinha participado em programas na televisão australiana, mas diz que nunca num documentário “a sério”. “Acho que eles fizeram um ótimo trabalho. Eu tenho uma relação divertida de amor-ódio com os documentários. Acho que muitos deles não aprofundam a ciência e os problemas, nem as soluções, são só documentários que dizem ‘olha aqui este animal bonito’. E este é muito focado nos problemas, embora esteja embrulhado em soluções no final. Fiquei contente que não fosse apenas algo fofinho, é sobre problemas reais e toda a gente naquele documentário é cientista. Não há atores, é ciência verdadeira. E gostei que o documentário se focasse não só nas alterações climáticas, mas também na biodiversidade. Mostrar que há outros problemas ambientais, como a perda de insetos ou de predadores. Fiquei contente com o resultado final.”

Apesar de David Attenborough ter feito durante décadas documentários que apenas realçavam a beleza da natureza e da biodiversidade — sem se focar muito nos problemas — Daniella Teixeira diz que sempre foi uma fã do naturalista britânico que hoje tem 95 anos. Viu muitos dos seus programas durante a infância e adolescência. “Quando ele disse o meu nome no documentário… uau! O David Attenborough disse o meu nome [risos].”

E acrescenta: “Ele é uma parte tão formativa do meu amor pela natureza, enquanto estava a crescer. Nunca pensei nisto desta forma, mas é quase como se as alterações dos documentários do David Attenborough acompanhassem a minha evolução enquanto ambientalista. Quando estava a crescer adorava a natureza, era tão bonita e foi por isso que a fui estudar. Mas quando fiquei mais velha, foquei-me mais na conservação, o meu trabalho centrou-se nos problemas e nas soluções. E acho que os documentários dele também evoluíram nesse sentido, estão a acompanhar a sociedade. Já não queremos apenas documentários fofinhos, queremos soluções.”

Passou quase um ano e meio desde as gravações do documentário, mas Daniella Teixeira diz que os danos causados pelos incêndios ainda estão a ser processados na Austrália. 

“Na altura não sabíamos qual seria realmente o impacto e é interessante porque foi pior e também melhor do que esperávamos. Ou seja, as aves específicas com quem trabalho — as catatuas pretas brilhantes — passaram melhor do que pensávamos. A maioria fugiu dos incêndios para a outra parte da ilha e sobreviveram. Mas já não há muita comida para elas, pode ser um daqueles casos em que há um declínio da população. E no documentário, naquela parte em que estou a dizer os números de animais que morreram, isso foi filmado uns meses depois — e os números são muito piores do que eu achei que seriam. São tão enormes que quase nem consegues compreendê-los. E nem consegues saber números de insetos ou de invertebrados. É difícil dizer, ainda estamos a lidar com o que aconteceu.”

Neste momento, como ainda não podem viajar muito dentro do país devido à pandemia, a cientista diz que tem feito algum trabalho perto da cidade onde vive, em locais que também sofreram com os incêndios.

“Tenho feito algum trabalho aqui perto de onde vivo, onde também houve grandes incêndios, e a paisagem… não há lá nada, ainda nada voltou, o impacto é tão grande e os fogos foram tão severos que ainda estamos a processar. Vai demorar muito tempo para a recuperação.”

Em Brisbane, Daniella Teixeira vive com o marido e têm imensos animais em casa, todos adotados. “Pássaros que precisam de ser cuidados, papagaios, galinhas, peixes, gatos… Definitivamente sou uma amante de animais [risos].” Faz também visitas a escolas com uma catatua preta brilhante, para mostrar aos miúdos.

Há ainda outra ave que costuma ter consigo: o galo de Barcelos, para dar boa sorte. Apesar de não falar português, Daniella Teixeira já foi “duas ou três vezes” à Madeira, a terra do pai, que é um chef na Austrália e costuma cozinhar comida portuguesa — além de falar a nossa língua com outros imigrantes, portugueses ou brasileiros. “Sinto uma ligação com Portugal e, depois disto, adorava voltar.”

Leia ainda o artigo da NiT que resume os melhores momentos da incrível carreira de David Attenborough.

Se quiser descobrir outras das principais novidades na televisão e nas plataformas de streaming para este mês de junho, carregue na galeria.

ÚLTIMOS ARTIGOS DA NiT

AGENDA NiT