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Quem é Piers Morgan, o controverso jornalista que entrevistou o amigo Cristiano Ronaldo

Desbocado e polémico, descreve-se como um "egomaníaco arrogante". A amizade começou com uma mensagem do craque no Instagram.
A amizade remonta a 2018

Cristiano Ronaldo tem vivido meses atribulados. Manteve-se em silêncio até esta semana, altura em que decidiu finalmente falar. A vontade de contar a sua versão da história sobre os dias tumultuosos no Manchester United levou a que, no momento certo, pegasse no telemóvel e ligasse a um homem: Piers Morgan.

A relação de amizade entre o polémico apresentador e o jogador de futebol não é recente. Remonta a 2018, altura em que Ronaldo terá enviado uma mensagem a Morgan através do Instagram. “A nossa relação começou de uma forma o mais aleatória possível, quando ele me enviou um mensagem pelo Instagram, aqui há três anos”, revelou Morgan na sua coluna no “The Daily Mail”, publicada em 2021. “Disse-me: ‘Olá senhor, como está? Vi o seu documentário na Netflix e achei fascinante o facto de ter entrevistado todos estes assassinos.’”

Morgan respondeu que o que seria “mesmo fascinante” seria poder entrevistar Cristiano. “Fiz a sugestão e lancei o isco, ao que ele respondeu: ‘Mas eu não matei ninguém’.” Ronaldo acabaria por aceitar a ideia e, um ano depois, sentavam-se pela primeira vez em frente às câmaras.

A proximidade aumentou e hoje mantêm uma relação chegada. “Desde o nosso encontro em 2019, que nos tornámos amigos improváveis. Falámos ao telefone de tempos a tempos, conversamos frequentemente no WhatsApp sobre tudo, de futebol, a carros e iates, sobre o coronavírus e a paternidade”, revelou Morgan. “Conheci e entrevistei muitas lendas do desporto ao longos dos meus 30 anos como jornalista e nenhuma me impressionou tanto como ele, tanto dentro como fora de campo.”

Se o jogador do United pretendia agitar as águas — e o jornalista confirmou que Ronaldo “sabia que ia ser uma entrevista incendiária” —, Piers Morgan era o homem certo para conduzir o processo. A sua turbulenta carreira fala por si.

Em 2021, no mais recente episódio controverso da sua carreira, o apresentador foi afastado do programa “Good Morning Britain”, na sequência dos comentários que fez sobre a entrevista de Meghan Markle, onde a ex-atriz revelava ter sofrido de problemas de saúde mental. “Não acredito numa palavra que ela diz. Não acreditava nela nem que me estivesse a ler o boletim meteorológico”, atirou. A resposta começou com uma queixa enviada pela Duquesa de Sussex enviada à ITV. Seguiram-se milhares de queixas dos telespectadores. O canal sentiu que não tinha outra alternativa que não a de afastar o apresentador.

Dado curioso: Piers Morgan, um homem que convive no meio de figuras importantes e celebridades, foi em tempos amigo pessoal de Markle. Chegaram mesmo a beber um copo na noite antes de a americana conhecer o príncipe Harry. Segundo Morgan, assim que ascendeu ao estatuto de realeza, “cortou relações”.

Desde esse corte, em 2015, tem sido o maior crítico do novo membro da família real. Morgan, que se descreve a si próprio como “um egomaníaco arrogante”, tem uma carreira de mais de 30 anos ligada ao jornalismo, aos momentos mais controversos dos tabloides britânicos, de onde conseguiu ser por várias vezes afastado.

Parece, contudo, que Piers é mais resistente do que se julgava e nem as sucessivas polémicas parecem fazer esmorecer a carreira do homem que comenta tudo — irritando meio mundo pelo caminho. Agora, é um dos protagonistas da controvérsia do momento, ao lado do amigo Ronaldo. Os dois serão as figuras que estarão em todas as televisões, à medida que a entrevista de duas partes vai para o ar esta quarta e quinta-feira no Reino Unido — com transmissão na RTP nos dias seguintes, entre quinta e sexta-feira.

O perigoso moralista

Filho de um dono de um pub que fez sucesso na distribuição de carnes, acabou por ter que ser inscrito numa escola pública — um aperto financeiro desfez os planos que o pai tinha para o colocar numa prestigiada escola privada. Foram tempos difíceis.

“Vinha de um meio privilegiado e acabei por levar umas quantas sovas de uns skinheads que me achavam um idiota completo. Acabei por me ambientar, tornei-me amigos de uns tipos altos, o que acabou por me ajudar. Um dos meus talentos foi sempre o de encontrar pessoas para me protegerem”, revelou no início de carreira, numa entrevista ao “The Independent”.

Chegou a trabalhar como funcionário de uma seguradora, mas um curso de jornalismo abriu-lhe as portas de uma nova carreira. Foi tudo muito rápido.

Deu nas vistas quando, em 1988, foi escolhido para assinar uma coluna na secção de bizarrias do “The Sun”. Começou a relacionar-se bem e a encontrar furos atrás de furos.

“Tornei-me no amigo das estrelas, um egomaníaco desenfreado, visto a toda a hora com famosos — Madonna, Stallone, Bowie, McCartney, centenas deles. Era um sem vergonha, até porque eles não me conheciam de lado nenhum”, recorda.

Era uma espécie de penetra entre as celebridades

Um dia, o telefone tocou. Um assistente do todo poderoso Rupert Murdoch, magnata dos media, ligava-lhe a combinar um encontro com Morgan em Miami. “Suspeitei que pudesse ser algo bom, mas nunca o que me foi proposto. Fiquei embasbacado.”

Aos 29, tornou-se no mais jovem editor de um jornal nacional em cinco décadas, neste caso o “News of the World”. “Com a minha idade, provavelmente achava que não iria sobreviver, mas aqui estou”, revelou ao fim de um ano no cargo.

Morgan era a grande sensação da imprensa tablóide — e vivia de acordo com o estatuto, um salário chorudo e um motorista privado que o conduzia num jaguar. Era pago porque cumpria o que lhe era pedido: descobrir polémicas reais e escândalos sexuais. “É esse o objetivo do jornal, ser sensacional e certeiro, revelador e divertido.”

De uma coisa não pode ser acusado: de não dar a cara pelas histórias que lançava, por mais problemáticas e desavergonhadas que fossem. Tinha sempre um argumento no bolso, sobretudo o de que as peças editadas por si serviam como uma espécie de medidor de justiça, de balança da moralidade. Morgan era uma espécie de juiz da honestidade.

A Princesa Diana era, à época, um dos seus alvos recorrentes. Em 1995 confessou que uma das histórias de que mais se orgulhava era a peça que acusava Diana de importunar um amigo casado com dezenas de chamadas — que desligava assim que alguém atendia. “O nosso repórter de crime conseguiu isso através de um contacto”, gabava-se, sobretudo da história não ter custado um cêntimo ao jornal.

“Se os políticos foram eleitos com discursos que pregavam os valores da família, merecem ser expostos quando cometem adultério”

O seu “News of the World” participava em todas as batalhas. Ninguém estava seguro: desportistas, músicos, políticos, atores. Sobre os escândalos sexuais de políticos que expunha regularmente, defendia-se com um contra-ataque.

“Se foram eleitos com discursos que pregavam os valores da família e usam as esposas e filhos nas fotos publicitárias, merecem ser expostos quando cometem adultério”, explicava. Sobre as vítimas colaterais dos escândalos públicos, rebate com um exemplo.

“Claro que simpatizo com as vítimas, mas as pessoas inocentes sofrem sempre com qualquer escândalo. O Financial Times pode expor um vigarista, mas ninguém os critica, apesar de isso envolver também o sofrimento de pessoas inocentes.”

Ninguém escapava. O bispo de Durham, por exemplo, viu exposta uma relação homossexual ocorrida há mais de duas décadas. Fazia sentido arrasar a sua reputação? “Se ele não tivesse dito que o estilo de vida gay era incompatível com a profissão de padre, se tivesse mantido a boca fechada, talvez não teríamos publicado. Tudo o que queremos é honestidade na vida pública.”

Mais difícil de justificar, Morgan lança outra desculpa para os escândalos revelados sobre músicos e celebridades. “Há uma agenda diferente nesses casos. Eles procuram publicidade para venderem discos, por isso têm que aceitar a má publicidade da mesma forma (…) Na verdade, já fui abordado por representantes de estrelas pop a suplicarem-me para eu publicar os seus escândalos sexuais.”

O rei dos tabloides

O percurso no “News of the World” foi curto. Um ano depois de assumir o cargo, viu-se ele próprio envolvido num escândalo. Decidiu publicar imagens da esposa de Charles Spencer, irmão de Diana, captadas por um paparazzo à saída de uma clínica de reabilitação. “Cunhada de Diana em clínica de álcool e bulimia”, relatava a manchete.

A publicação violou todos os códigos de conduta e ética e gerou inúmeras queixas de Morgan à entidade que regula a imprensa britânica. “O rapaz foi longe demais”, afirmou Rupert Murdoch, que protegeu o jornal afastando Morgan. Em privado, contudo, diz-se que terá pedido desculpas pela decisão.

Tão depressa foi afastado, como foi agarrado pelo “The Daily Mirror”, que lhe pediu apenas para replicar o trabalho feito no “News of the World”. O estilo provocatório e polémico manteve-se.

Era uma das figuras principais dos tablides

Em 2000, foi ainda alvo de uma investigação, depois de ter gasto 80 mil euros para comprar, em nome da mulher, ações de uma empresa tecnológica chamada Viglen. Nos dias seguintes, a coluna “City Slickers” do seu jornal apontava a empresa como um bom investimento financeiro.

Morgan, conhecedor do que iria ser publicado, terá tirado proveito da previsível subida do valor das ações. Exposto o seu investimento, foi castigado novamente pela comissão, mas desta vez manteve-se no cargo.

Tida como a época de ouro dos tabloides, a máquina precisava de escândalos e furos para se alimentar. E a forma mais fácil de o fazer era recorrendo a esquemas ilegais, como tantas vezes acontecia.

O uso de investigadores privados que muitas vezes recorriam a pirataria, chantagem e roubos, para obter as melhores histórias, era usado em quase todas as redações. Anos mais tarde, esses mesmos esquemas viriam a tornar-se públicos — o “News of the World” seria fechado por esse mesmo motivo — e trariam Morgan para o centro de mais uma polémica.

Morgan era o editor do “Mirror” quando foram publicados os conteúdos das mensagens de voicemail deixadas por Paul McCartney à sua então namorada Heather Mills. Provou-se que as mensagens foram ouvidas ilegalmente por jornalistas do diário britânico.

Anos mais tarde, em 2007, Piers Morgan viria mesmo a assumir a prática generalizada de ilegalidades. “Imensos jornalistas o faziam. O Clive Goodman, do ‘News of the World’, foi apenas o bode expiatório”, revelou.

Acabou mesmo por ser chamado a testemunhar em tribunal. O seu testemunho, sob juramento, foi descrito pelo juiz como “completamente inconvincente”.

“As provas não demonstram que autorizou o acesso ilegal a voicemails ou que os jornalistas do grupo incorriam nesta prática. O que provam claramente é que Morgan estava ciente de que isso acontecia em toda a imprensa e que não tinha vergonha desse comportamento criminoso, de tal forma que estava disponível para brincar com a situação“, atirou o juiz.

O grupo que detinha o “The Daily Mirror” confessaria a culpa dos seus jornalistas em 2014. Morgan, o editor, nunca o fez e continua, até hoje, a negar qualquer tipo de envolvimento.

O estilo truculento de um poderoso homem dos media não intimidava toda a gente. Havia quem ainda resistisse — e devolvesse os golpes. Por vezes de forma literal. Foi o caso de Jeremy Clarkson, famoso ex-apresentador de “Top Gear” e bad boy por direito.

Às mãos de Morgan chegaram, em 2002, fotografias de Clarkson a beijar uma amante. Clarkson implorou-lhe que mantivesse as fotos na gaveta, sem sucesso.

Enraivecido, Clarkson haveria de se cruzar finalmente com Morgan a bordo do último voo do Concorde, em 2003. Acabaram sentados lado a lado.

Clarkson, furioso, despejou um copo de água por cima dele. “Deite-lhe água para cima dos testículos. Quando saiu do avião, parecia que se tinha mijado”, confessou recentemente.

Um ano depois, voltavam a encontrar-se nos Press Awards. A inimizade estava bem viva ainda e os dois acabaram a discutir publicamente. Não se sabe o motivo, mas Clarkson não se conteve e agrediu Morgan com vários socos na cabeça. O resultado: um dedo partido para o homem do “Top Gear”; uma cicatriz na testa para o jornalista.

“O meu filho de três anos bate-me com mais força”, atirou Morgan algum tempo depois do incidente.

Clarkson e Morgan reconciliaram-se anos mais tarde

Seria mais um escândalo que terminaria de vez com o percurso de Piers no “The Daily Mirror”: a publicação de fotografias falsas que supostamente mostravam o abuso de prisioneiros iraquianos às mãos de soldados britânicos, isto na sequência do escândalo de tortura de Abu Ghraib.

Dias depois, o jornal era forçado a pedir desculpas na primeira página: “Perdão, fomos enganados.” Morgan nunca admitiu a culpa e reforçou que os abusos mostrados aconteciam mesmo. Foi afastado do cargo.

Um rebelde inglês na América

Morgan era já uma figura que transcendia as páginas dos jornais. Tinha presença televisiva e, graças a Donald Trump, viajou até aos Estados Unidos para participar no seu reality show, “The Apprentice”.

O britânico foi o vencedor da edição de celebridades em 2008, descrito por Trump como “implacável, arrogante, malvado e irritante”. A vitória foi o cartão de apresentação de Morgan ao público americano.

Morgan com Trump e Ivanka em “The Apprentice”.

Dois anos depois, no seguimento da reforma de Larry King, a “CNN” tomava uma decisão chocante. O espaço vazio na programação seria entregue ao polémico jornalista. “Piers Morgan Live” ia para o ar a 17 de janeiro de 2011.

Apesar de ser assumidamente conservador e um entrevistador destemido — interrogou personalidades como Bill Clinton e Warren Buffett sem reservas —, entre o apresentador e o público havia uma trincheira cultural insanável. Chegou mesmo a ser criada uma petição para deportar o jornalista para o Reino Unido.

“Para um canal como a ‘CNN’, as grandes histórias são como oxigénio. Quando algo de importante ou assustador acontece na América, temos o reflexo imediato de ligar a ‘CNN’. Quando vejo Morgan a explicar-me o que significam, tenho um reflexo semelhante de desconsiderar tudo o que ele diz. É difícil para Morgan falar com credibilidade sobre acontecimentos americanos porque, afinal de contas, acabou de cá chegar”, escreveu o falecido jornalista do “The New York Times”, David Carr.

O choque cultural era evidente. Embora conservador, Morgan é um fervoroso crítico da posse de armas — talvez o tópico que deu origem a mais polémicas e que mais irritou o público americano.

“Corria o perigo de me tornar no tipo sentado na ponta do balcão do bar, que está sempre a repetir a mesma coisa”, explicou, ciente dos problemas que a sua imagem causava nos Estados Unidos. “Era um tipo britânico a dizer-lhes como devem viver as suas vidas e o que devem fazer com as suas armas.”

O programa foi cancelado em 2014, fruto das péssimas audiências. “Foi uma infeliz colisão entre uma personalidade televisiva britânica que recusava a assimilação — a única bola de futebol que lhe interessa é redonda e as suas palestras sobre armas estavam recheadas de desdém — e um público da ‘CNN’ intrinsecamente regional”, concluiu Carr.

O terror das manhãs

O regresso à televisão no Reino Unido era inevitável. Primeiro foi surgindo como convidado esporádico e depois passou a ser uma contratação definitiva. Piers Morgan seria o anfitrião do programa das manhãs no ITV que tentava quebrar a hegemonia da “BBC” no mesmo horário. Um provocador nato era a aposta certeira.

Inevitável também era que a natureza combativa de Morgan transformasse o “Good Morning Britain” num programa à sua imagem. Ao seu lado estava Susanna Reid, que frequentemente se viu envolvida em batalhas com o co-apresentador.

As manhãs deixaram de ser palco de histórias e peças leves, animadoras e avessas a polémicas. Pelo contrário. Por mais pacífico que fosse o tema, Morgan encontrava sempre forma de deixar bem clara a sua opinião — habitualmente à custa da dignidade dos convidados e entrevistados, recorrentemente encostados à parede pelo estilo agressivo de Piers.

Pôs mães a chorar, atacou miúdas de 12 anos, enervou ativistas pela saúde mental — chegou a dizer que estava na altura de algumas pessoas se “comportarem como homens” — e incendiou vezes sem conta o estúdio sempre que o tema tocava na identidade de género.

Numa entrevista com duas pessoas não-binárias — que recusavam identificar-se com os géneros masculino ou feminino —, Morgan foi invulgarmente agressivo e decidiu afirmar que iria decidir identificar-se como um elefante. Voltou a recorrer ao mesmo tipo argumento em 2019, quando tweetou: “Identifico-me agora como um pinguim.”

As queixas aos reguladores e à ITV eram recorrentes e chegavam aos milhares. O tweet deu origem a uma petição que exigia o seu despedimento e que foi assinada por mais de 90 mil pessoas. Em simultâneo decorreu outro abaixo-assinado em sua defesa que reuniu 72 mil assinaturas.

Para a ITV, as reações significavam dinheiro em caixa graças às audiências que subiam sem parar. “Não tenho um único osso preconceituoso no meu corpo”, contestou Morgan, algo que aponta aos seus críticos liberais e progressistas.

Descreve-se como um feminista, apoiante dos direitos homossexuais, dos direitos civis e dos direitos dos transgénero. À exceção, claro, “da absurda nova moda desta auto-identificação sem limites”.

“Esta multidão woke odeia-me porque os bem informados sabem que sou um liberal. No papel, sou um deles. Por isso olham para mim como o inimigo dentro de portas.”

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