O dia chegou. Esta sexta-feira, 10 de abril, estreia a terceira e última temporada de “Rabo de Peixe” na Netflix. O público pode agora acompanhar o desfecho de uma das séries portuguesas de maior sucesso nos últimos anos, que se tornou também das mais vistas da plataforma, com milhões de horas assistidas. E não há dúvida: “Rabo de Peixe” quis terminar em grande.
Foi em maio de 2023 que conhecemos as aventuras de quatro amigos açorianos — Eduardo, Sílvia, Rafael e Carlinhos —, que tentam mudar de vida e sair da pobreza após encontrarem uma tonelada de cocaína na costa da vila ondem vivem. Começam a vender a droga, ao mesmo tempo que enfrentam criminosos e a polícia. A segunda temporada chegou, com expectativa, em outubro de 2025. Mal estreou foi anunciado que viria aí um terceiro volume, filmado na mesma época que o anterior.
A Netflix descreve este último capítulo como uma “despedida intensa, onde ação, lealdade e vingança se cruzam de novo”. Os novos episódios (são seis, no total) arrancam três anos depois do fim da segunda temporada, com Eduardo (José Condessa) de regresso a uma vila bem diferente daquela que deixou para trás. Rabo de Peixe está agora sob pressão de interesses económicos e políticos que ameaçam expulsar famílias, enfraquecer a pesca e mudar por completo a vida da comunidade.
Nesta fase final, os protagonistas voltam a juntar-se para criar a chamada “Justiça da Noite”, um movimento clandestino que tenta responder às injustiças locais e devolver poder à população. A ideia de justiça popular torna-se, assim, o motor desta última fase mas, à medida que a revolta cresce, também se torna mais frágil a fronteira entre resistir e cair no mesmo tipo de violência que a série sempre mostrou como destrutiva.
Percebemos, logo no primeiro capítulo, que a nova temporada aposta mais nas relações, nas escolhas e nas consequências do que propriamente na ação. E isso não é por acaso. “A grande lição é que as histórias simples, as histórias das pessoas são as que realmente importam”, diz Augusto Fraga, realizador, à NiT. “Nós vemos cinema e televisão para aprendermos a lidar com situações difíceis”.
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Essa ideia atravessa toda a temporada. Mais do que o enredo em si, o foco está na forma como as personagens reagem ao que lhes acontece e na forma como evoluem. “É a história de um grupo de amigos que tem sonhos e encontra desafios, mas que muda e continua unido”, acrescenta o criador da série.
Também por isso, este terceiro volume foi pensado como um fim e não como mais uma continuação. “A minha proposta foi fechar a história na terceira temporada para que não haja mais”, revelou. O resultado, garante, é uma narrativa construída para um desfecho intenso: “É um constante galopar, cada vez mais intenso, até ao último episódio.”
No meio de todas as aventuras, Fraga destaca uma linha comum: a evolução. Eduardo continua a ser o centro da história, mas já não é o mesmo. “Quando pensamos que vamos mudar o mundo… Na terceira temporada ele percebe que quem tem de mudar é ele”, explica. É essa mudança que acaba por definir o tom deste final.
José Condessa, Helena Caldeira, Rodrigo Tomás e André Leitão voltam à linha da frente, acompanhados por Maria João Bastos, Salvador Martinha, Afonso Pimentel, Kelly Bailey e Victória Guerra. O elenco inclui ainda nomes de peso como Joaquim de Almeida, Ângelo Rodrigues e Inês Castel-Branco.
As reações dos atores
Essa sensação de “fim de ciclo” sente-se também no elenco. José Condessa descreve esta fase como um verdadeiro recomeço para as personagens. “É um renascimento. Na segunda temporada estavam na pior lama, e aqui voltam a encontrar-se”, disse à NiT. Para o ator, há uma ideia que se destaca acima de tudo: a importância do grupo. “Percebem que são melhores rodeados pelas pessoas que amam”.
A mesma leitura é partilhada pelos outros protagonistas. André Leitão, o Carlinhos, resume a relação das personagens de forma simples: “A família são as pessoas que escolhemos.” Já Rodrigo Tomás, que interpreta Rafael, vai direto ao ponto: “Não se agarrem à droga. Destruiu uma vila inteira”.
Uma das maiores mudanças desta temporada está, porém, na personagem de Sílvia, interpretada por Helena Caldeira. A atriz revela que um dos maiores desafios do projeto “foi perceber que tipo de mãe é esta Sílvia, tendo em conta que era a última coisa que ela queria ser naquele contexto”, contou. “Foi um desafio gigante, dentro e fora do set”, diz à NiT.
Maria João Bastos está de volta ao papel de inspetora Paula Frias, que tem acompanhado o grupo desde o início. A atriz condessa que nem sempre as gravações foram fáceis. “Foi muito difícil de filmar, com chuva intensa e maioritariamente de noite. Foi um grande desafio”.
Entre as novidades do elenco está Ângelo Rodrigues. “O maior desafio foi entrar num comboio em andamento e não estragar”, admitiu. O objetivo era claro: acrescentar algo sem desequilibrar o que já funcionava. Na série, o ator interpreta Pedro Neves, que surge ligado aos novos conflitos sociais e económicos da ilha e acaba por cruzar-se com várias linhas da narrativa.
Sem reinventar completamente a fórmula, a série consegue fechar o ciclo com coerência. Pode não surpreender tanto como na estreia, mas ganha em maturidade e consistência. No fundo, “Rabo de Peixe” despede-se como começou: com personagens imperfeitas, decisões difíceis e uma ligação forte entre quem está dentro daquela história. E talvez seja isso que fica. Não tanto o que acontece, mas aquilo que aquelas personagens dizem sobre nós.
Leia também o artigo onde Augusto Fraga confessa o maior erro cometido na série. E saiba onde pode ver o documentário sobre o caso real da droga que deu à costa nos Açores em 2001.
Carregue na galeria para ver imagens da nova temporada.

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