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Regras? Quais regras? A anarquia tomou conta de “Hell’s Kitchen”

Quem merece, não sai. Quem não merece, sai. Quem chora, fica a salvo. É assim a vida na “novela da cozinha real”. Leia a crónica da NiT.
Quem manda é o chef, pronto.

É vendida como “a maior competição de cozinha do mundo”, encabeçada por Gordon Ramsay lá fora e por Ljubomir Stanisic por cá. Mas ao segundo episódio, é claro que “Hell’s Kitchen” é tudo menos uma competição.

“Isto aqui não é uma telenovela, é uma cozinha real”, atira o chef a meio de uma eliminação — mais uma — atribulada recheada de emoções. O último capítulo da segunda temporada do reality show — que foi transmitido este domingo à noite, 9 de janeiro, na SIC — trouxe lágrimas, discussões, discursos acalorados e a já recorrente lição de vida de Stanisic. O que faltou? A competição.

Já no primeiro concurso, as regras tinham sido deitadas ao lixo. Ultrapassam-se os limites de tempo definidos, alteram-se as etapas a meio da ação, tudo com a bênção de quem comanda o concurso. E o facto é que um concurso, para o ser realmente, tem que tratar de forma igual cada um dos competidores. Isso claramente que não acontece, o que comprova que Stanisic está errado. Não é uma cozinha real nem um concurso: é precisamente uma espécie de novela.

As provas são dadas pelo próprio chef, quando recusa provar e contabilizar o prato de Branca, mesmo depois de a ter deixado terminar a prova em incumprimento das regras definidas por si. Este domingo, voltou a provar que não há regulamento que resista ao caos noveleiro de “Hell’s Kitchen”.

Contudo, é neste caos que emerge um padrão visível: Stanisic parece deixar-se derreter com os discursos lavados em lágrimas. Aconteceu com Mathieu, que entre soluços pediu desculpa à família por ter comandado a equipa vermelha a uma a das piores prestações de sempre no programa. Depois da declaração, foi imediatamente salvo de qualquer nomeação por Il Duce, Ljubomir Stanisic. Danem-se as regras.

Com menos um alvo, a equipa nomeou Olga, Durão e Maria. E foi esta última que também se livrou da eliminação à boleia da lamuria. “Vi-te chorar quando estava no pass, quase não te vi na cozinha, não te senti na cozinha, não te ouvi na cozinha. Porque é que achas que deves ficar cá?”, questionou o chef que deixava adivinhar a conclusão. Se a concorrente não existiu, seria uma enorme candidata a cair numa competição onde se premeiam os cozinheiros, não os vultos.

“Eu acho que não devo ficar cá. Eu neste momento não sou numa mais valia para a equipa”, confessou a concorrente. Foi a jogada certa para convencer o chef a quebrar novamente todas as regras. Menos líder de um concurso e mais psicólogo, Stanisic fez um ato de contorcionismo para justificar a decisão e livrou Maria, antes de expulsar Durão por ter desistido da chefia da equipa, “apesar de ser um bom ser humano”.

Sobrou Olga, isto antes do chef baralhar tudo novamente. “Quem merecia ir [embora] eras tu. Isto que seja muito claro.” Ora se “Hell’s Kitchen” é um concurso e se estes se deveriam reger por regras bem definidas e aplicadas de forma igual a cada concorrente, por que razão a pessoa “que merecia” ser eliminada foi salva?

Infelizmente, para os concorrentes — ou felizmente para os que tiverem mais talento para a interpretação —, a única regra que parece valer é mesmo esta: nunca deixes que as regras do concurso se metam no caminho de uma boa lamechice.

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