Televisão

“Revelações Pré-Históricas”: a produção da Netflix que espalha teorias da conspiração

Defende que a humanidade nasceu de uma civilização superior que foi destruída durante a Idade do Gelo: uma espécie de "Atlântida".
Graham Hancock é o responsável pelo projeto.

Na televisão, não faltam programas ou documentários que discutem e abordam diversas teorias da conspiração. No streaming também não. Há um novo programa na Netflix, intitulado “Revelações Pré-Históricas”, que está a ser duramente criticado pela comunidade científica e por muitos espectadores. Estreou a 11 de novembro e conta com oito episódios. 

Trata-se de um projeto do jornalista Graham Hancock, que há muito se debruça sobre este tema. Mas, afinal, o que defende Hancock? Que houve uma civilização humana superior no tempo da Idade do Gelo, há 12 mil anos — e que foram eles os responsáveis por explorar e introduzir conceitos como a agricultura, a arquitetura e a matemática. Alegadamente, tudo foi destruído graças a umas cheias gigantes provocadas por uma chuva de cometas.

Para provar esta teoria, Hancock viaja até vários locais do planeta — desde a Turquia ao México, passando por Malta, Indonésia ou EUA. Mostra estruturas antigas e defende que são provas de que esta civilização existiu — embora não haja registos escritos, artefactos ou quaisquer outro tipo de provas.

Graham Hancock argumenta que as instituições arqueológicas da “arqueologia mainstream” não ouvem as suas teorias porque não estão interessadas na verdade — dando até a entender que se trata de algum tipo de conspiração. As suas teorias, como se mostra no programa, são ouvidas e apoiadas por personalidades controversas como Joe Rogan ou Jordan Peterson.

Há quem argumente que estas hipóetees similares à da história da Atlântida têm uma base supremacista branca — no sentido em que procuram provar que, afinal, a humanidade não nasceu em África nem o seio de civilizações antigas como as do Egito ou da Mesopotâmia. Aliás, vários nazis defendiam que a origem do homem branco estava neste continente perdido — sobre o qual nunca se encontrou qualquer evidência.

Vários artigos críticos de “Revelações Pré-Históricas” têm inundado os meios de comunicação social nos últimos dias. Um texto do “The Guardian”, que se questiona como é que a Netflix aceitou transmitir este programa — visto que esta teoria abre porta a que outras mais perigosas também possam ser discutidas —, revela que o filho de Hancock é um dos responsáveis pelos conteúdos de não-ficção da plataforma de streaming. O que pode ajudar a responder à questão.

“O Graham Hancock não é, nem quer ser visto como um cientista ou um historiador. Vem de um lugar metafísico. É inspirado pelo esoterismo ocidental. Para ele, a importância de muita desta informação é intuitiva e confirmada pelo através de experiências pessoais reveladoras”, explica à “Slate” o arqueólogo John Hoopes, que tem desmontado algumas das teorias de Hancock online.

“Numa apresentação TEDx que fez em 2013 revela que fumou canábis diariamente durante 25 anos e que parou, finalmente, de consumir quando experimentou ayahuasca. Descobriu que era uma experiência mais reveladora e com mais significado do que o seu consumo diário de canábis. Por isso, se parecer que a perspetiva dele é influenciada por drogas, é porque é”, acrescentou o especialista.

“É importante perceber que isto vem de um lugar muito subjetivo. É um o oposto daquilo que a ciência tenta fazer. Isto vem da sua convicção pessoal do que a realidade e a verdade são. O problema é que ele apresenta as coisas de tal forma que leva muitas pessoas a pensarem que está a apresentar algo científico — quando não está.”

John Hoopes frisa ainda que Graham Hancock tem publicado livros de autor sobre o assunto desde os anos 90 — e que tem feito um esforço para limpar a sua linguagem, tendo deixado de descrever a antiga civilização como sendo “branca”, e que já não menciona o termo “Atlântida”.

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