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Rhaenyra e Daemon Targaryen casaram-se em Portugal (a cena foi gravada cá)

A NiT falou com um dos atores portugueses que entraram em “House of the Dragon”, a prequela de “A Guerra dos Tronos”.
Sobrinha e tio casaram-se em Portugal.

Há um ano, as filmagens de “House of the Dragon”, a prequela de “A Guerra dos Tronos”, decorriam nas aldeias de Monsanto e Penha Garcia, em Idanha-a-Nova, no distrito de Castelo Branco. O aparato na região foi grande, com centenas de profissionais de diversas nacionalidades a trabalhar na produção da HBO, mas nunca se percebeu exatamente o que se iria filmar em Portugal.

Agora que “House of the Dragon” está no ar — estão disponíveis 8 dos 10 episódios da primeira temporada — já conhecemos alguns detalhes. Embora seja difícil descobrir onde foram gravadas as cenas passadas neste mundo de fantasia (uma vez que existe uma grande pós-produção com efeitos especiais e cenários pensados ao detalhe pela direção de arte), a NiT descobriu que o casamento íntimo entre Rhaenyra e Daemon Targaryen foi gravado em Monsanto.

Quem o diz é um dos atores portugueses que participaram em “House of the Dragon”, Gonçalo Nogueira. Natural de Coimbra, com 23 anos, participa no oitavo episódio da série. Ele é o “dragon keeper” que recebe o saco com os ovos de dragão que Daemon Targaryen lhe entrega. Essa cena, que se passa em Dragonstone, foi também filmada em Monsanto — a 29 de outubro de 2021. Podemos vê-la por volta do quinto minuto do mais recente capítulo da história.

Gonçalo Nogueira sempre foi um enorme fã de “A Guerra dos Tronos”. Além disso, tinha alguma experiência como ator — embora tivesse deixado de o fazer nos últimos anos, desde cedo que fez teatro. “Era a minha série favorita. Quando vi que abriram um casting, nem pensei duas vezes. E inscrevi-me sem qualquer expetativa. Eu e muitos outros que acabaram por ser escolhidos”, explica à NiT.

Inscreveu-se em agosto, dois meses depois foi chamado pela produção. “Foi uma coisa bastante repentina. Ainda por cima foi na altura da Covid-19, tivemos de fazer testes antes de ir para lá.” Teve de ir a Cáceres, em Espanha, para fazer o chamado “fitting” — o processo de se caracterizar para a personagem, para que tudo esteja definido antes do próprio dia das filmagens. Uma semana e meia depois, foi para Monsanto gravar a sua cena. Gonçalo Nogueira foi considerado um “featured extra” — ou seja, não é um mero figurante que pode aparecer no fundo de uma cena, mas é um figurante com real destaque num determinado momento da narrativa.

Encaminharam-no logo para ser um dragon keeper. Com ele foram outros portugueses que tinham outros destinos — alguns, por exemplo, teriam de ser nobres nalgumas cenas. Mas não divulgavam praticamente informação nenhuma, uma vez que queriam manter o secretismo e evitar quaisquer fugas de informação. 

“Diziam que eu era um dragon. Eles não foram específicos. Nunca soube muito bem o que era a minha personagem. Só sabia que estava relacionada com dragões. Depois raparam-me o cabelo, meteram-me aquelas roupas e mais confuso fiquei [risos]. Não conseguia mesmo perceber o que ia acontecer.”

Gonçalo Nogueira, à esquerda.

Gonçalo Nogueira é trabalhador-estudante na área da gestão e marketing. A 28 de outubro do ano passado, estava a trabalhar na Web Summit, em Lisboa. Foi até Coimbra, onde apenas dormiu um par de horas, e depois arrancou para Monsanto às três da manhã. “Depois as maquilhadoras meteram-me um monte de maquilhagem na cara e lembro-me de que me meteram debaixo dos olhos. Eu já estava cansado, mas com aquela maquilhagem, a olhar-me ao espelho, parece que perdi ali anos de vida”, conta.

Esteve em Monsanto das seis da manhã até às 19 horas. Na parte da manhã, esteve a ser caracterizado e a preparar-se. Estava sozinho nesse dia, porque era o único figurante necessário. De resto só havia mesmo atores. De manhã foi gravada a cerimónia íntima em que tio e sobrinha, Daemon e Rhaenyra, fazem os seus votos e se casam. Gonçalo Nogueira esteve à espera dos atores Matt Smith e Emma D’Arcy no Castelo de Monsanto.

“Estava à espera deles, eles depois entraram e foi assim uma surpresa porque eu era um figurante. Não estava à espera de estar a centímetros deles”, explica. “O Matt foi bastante simpático, disse o meu nome bem à primeira, o que foi surpreendente [risos]. Com a Emmy não falei porque ela estava a almoçar e pensei que fosse rude interromper. Estavam lá também todos os miúdos Strong — as mães todas [dos jovens atores] e tudo, falei com eles também.”

Depois, passaram a tarde inteira a gravar aquela cena em que Daemon Targaryen entrega os ovos de dragão para serem preservados pelos dragon keepers. “O tempo estava complicado nesse dia, estava muito nublado, chuva, vento e frio. Complicou um pouco as gravações, estendeu-se um pouco além daquilo que eles previam.” Gonçalo Nogueira já não se recorda exatamente de quantas vezes gravaram a cena, mas admite que podem ter sido “dezenas” de vezes. “Absolutamente mais de 10 takes, de vários ângulos.”

Apesar de ser uma pequena cena, a equipa de produção fez tudo para que conseguissem ter a versão perfeita daquele momento do enredo. O jovem português nota outro detalhe que demonstra bem a atenção com todos os pormenores. “Estive entre meia hora a uma hora com as maquilhadoras a fazerem-me uma queimadura na mão. Isto só para se ter noção da atenção ao detalhe que a série dá — que no produto final mal dá para ver.”

Enquanto ali estava, de “ar sofrido”, marcas de queimadura e cinzas no rosto, não compreendia o que estava a acontecer naquela cena. Daemon Targaryen dirige-se aos dragon keepers em valiriano, pelo que Gonçalo Nogueira não fazia a mínima ideia do que significavam as palavras proferidas pelo ator Matt Smith. 

“Nunca me disseram o que era. Foi o meu colega do lado que, entre takes, tive de lhe perguntar o que estava a acontecer. Precisava de saber para ajudar um pouco com a minha reação, o que tinha de fazer, etc. E foi ali que ele me disse: ‘acho que isto tem a ver com ovos de dragão e isto é suposto ser algo assim meio ilegal, fora da lei, porque ele está a dar ovos de dragão sem dizer nada a ninguém’. Tentei reagir conforme isso, mostrar alguma preocupação.”

A cena aparece no oitavo episódio — foi filmada em Monsanto.

Gonçalo Nogueira não viu os ovos de dragão, mas carregou-os e confirma que são pesados. “Fiquei com eles na mala, lembro-me de estar a apalpar para ver o que era, porque eles não me diziam nada. Aquilo era pesado.”

Apesar de Monsanto ficar no interior de Portugal, junto à fronteira com Espanha, as cenas gravadas passam-se em Dragonstone, que fica na costa de Westeros. Isso significa que todo o oceano que vemos naquelas cenas obviamente não existe e foi criado com efeitos especiais em pós-produção. “Mudaram aquilo completamente e está muito bem feito.”

O português revela que outras cenas gravadas em Portugal vão aparecer nos últimos dois episódios da primeira temporada de “House of the Dragon”. E que até conheceu outros figurantes nacionais que deverão aparecer nesses capítulos da história. 

“Foi um dos melhores dias da minha vida. Foi totalmente inesperado. É daqueles sonhos de criança que todos temos e que pensamos que nunca vão acontecer. Mas este aconteceu. Fez-me recuar no tempo. Porque, quando era mais novo, adorava ‘A Guerra dos Tronos’. Entretanto, sempre estive muito atento a esta nova série, a ver o que poderia acontecer. E fui chamado, parece que foi uma coisa impossível que aconteceu de um momento para outro. Foi mesmo memorável. Adorei as pessoas e a equipa. Super profissionais, super simpáticas, a própria realizadora do episódio — Geeta Patel — foi super acessível e veio falar comigo para me dar algumas dicas. Foi sem dúvida uma experiência inesquecível.”

Gonçalo Nogueira acrescenta também que esta experiência lhe deu vontade de voltar à representação. “Despertou a vontade de representar que eu já tinha perdido há algum tempo. Não sei, senti algo que já não sentia há muito tempo. O meu interesse em representar voltou e é isso que vou querer fazer. Talvez em peças de teatro, meter-me nalgum tipo de programa aqui na região, não sei. Ainda estou à procura também [risos].”

Quanto às reações da família e dos amigos, diz que a palavra mais apropriada será “orgulho”, embora tivesse sido uma surpresa para muitos. “Sempre tentei manter segredo, porque tinha medo que a cena fosse cortada [risos]. E depois era criar aquela expetativa de ‘vou aparecer na série’ e depois não aparecia. Tive sempre esse medo. Só agora é que estou a anunciar assim à malta. E também tinha a insegurança de que a cena estivesse mal. Se bem que tinha a certeza de que eles nunca iriam deixar passar uma cena má. Deixou-me mesmo feliz.”

Leia também o artigo da NiT sobre os traumas e síndromes que afetam a vida de Paddy Considine, o ator que deu vida ao rei Viserys.

Carregue na galeria para ver algumas das imagens da rodagem de “House of the Dragon” em Portugal.

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