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Rodrigo Santoro: “Sempre quis fazer um personagem épico. É a realização de um sonho”

A NiT falou com o ator que interpreta o navegador Fernão de Magalhães numa série da Amazon Prime Video. Estreia a 24 de junho.
Tem 46 anos.

É já na próxima sexta-feira, 24 de junho, que a série “Sem Limites”, da Amazon Prime Video, estreia em Portugal. O brasileiro Rodrigo Santoro, no papel do navegador português Fernão de Magalhães, é o grande protagonista deste drama de aventuras que acompanha a história da primeira circum-navegação em barco, coincidindo com o ano do quinto centenário da expedição original.

Antes da estreia, a NiT falou com o ator, que contou tudo sobre o personagem e a preparação necessária para lhe dar vida, na qual o intérprete Gonçalo Diniz (Duarte Barbosa) teve particular importância. Falou, igualmente, das gravações e dos outros projetos em que está a trabalhar.

Álvaro Morte (El Profesor, de “La Casa de Papel”), no papel do espanhol Juan Sebastián Elcano, também está envolvido na produção de seis episódios, gravados em Espanha e na República Dominicana. Participam ainda Sergio Peris-MenchetaAdrián LastraCarlos CuevasPepón NietoRaúl TejónManuel Morón e Bárbara Goenaga.

“Liderados pelo português Fernão de Magalhães, 239 marinheiros partiram de Sanlúcar de Barrameda a 20 de agosto de 1519. Três anos mais tarde, apenas 18 marinheiros famintos e debilitados regressaram no único navio que resistiu à viagem, liderados pelo marinheiro espanhol Juan Sebastián Elcano”, descreve a sinopse do projeto. 

“Viajaram 14.460 léguas, sempre de oeste para leste, completando a volta ao mundo; uma missão quase impossível e que visava encontrar uma nova rota até a ‘ilha das especiarias’, que acabou por mudar a história da humanidade ao demonstrar que a Terra é redonda. Uma proeza que transformou para sempre o comércio, a economia, a astrologia e o conhecimento do planeta, e que é considerado um dos maiores feitos da história”, acrescenta.

Para recriar a viagem, os navios Victoria e Trinidad foram reconstruídos e foi utilizada a réplica do Nau Victoria, o único dos cinco navios da expedição que regressou ao porto e, portanto, o primeiro navio a dar a volta ao mundo.

A realização ficou a cargo do britânico Simon West, conhecido por ter dirigido filmes como “Lara Croft: Tomb Raider”“Con Air: Fortaleza Voadora”“A Filha do General”“Os Mercenários 2”.

Interpreta Fernão de Magalhães em “Sem Limites”. Como chegou a este papel?
Enviaram-me o guião pouco antes do primeiro confinamento e fiquei logo fascinado com a história, até porque não a conhecia profundamente. Aprendi na escola sobre o estreito de Magalhães, sabia que foi um grande navegador e tudo o mais, mas não conhecia o tema em profundidade. Fiquei encantado com a história e a possibilidade de interpretar um grande personagem como Magalhães. Como estive um ano confinado até começarem as gravações, tive muito tempo para pesquisar e falar com historiadores, investigar tudo o que era possível e o que existe na Internet e na literatura sobre o Magalhães e a história daquela época. Os costumes, os valores, a cultura, Portugal e Espanha, a Europa e o Mundo em 1500.

Como se preparou?
Comecei por pesquisar online e vi muitos debates de intelectuais portugueses a discutir a figura, que tem uma imagem muito polémica, controversa e gera opiniões divergentes.

Depois, procurei historiadores. Uma com a qual trabalhei conseguiu-me o testamento de Magalhães, e aí obti várias informações. Por exemplo, descobri como era extremamente religioso, fiquei a saber sobre a família dele, de onde ele vem, que cresceu na corte apesar de não ser nobre, a trabalhar como pajem. Li sobre como lutou muito por Portugal em várias batalhas e acerca da relação muito complicada que tinha com o rei. Não se sentia reconhecido pelos seus feitos, por todo o esforço na armada, no exército.

Como tem acesso à biblioteca náutica, às cartas, até ao momento em que descobre este documento que sugere a existência desse estreito, se convence disso, estuda astrologia, navegação e vai amadurecendo a ideia antes de a propor ao rei. Uma vez que não parece ser uma prioridade, pede permissão para procurar outro monarca e acaba por conseguir o financiamento do rei espanhol, que era um jovem que tinha acabado de chegar ao trono. Precisava de prestar provar e expandir o reino. Magalhães convence-o, mesmo tendo de aceitar várias condições que não são favoráveis para ele.

A pesquisa foi longa. E precisei de trabalhar as línguas e os sotaques. O castelhano espanhol é muito diferente do que falo, o latino-americano. Magalhães teria aprendido a falar espanhol em Espanha, logo, não poderia falar de outra forma. Poderia, mas não estaria historicamente correto, então houve um trabalho muito longo em relação aos sotaques e nas línguas daquela época.

Depois, havia as coreografias, a preparação para as lutas, porque gosto de fazer as minhas cenas, mesmo as de ação e tudo o mais, então ensaiei bastante também.

E fez todas as cenas?
Sim. Fiz todas as cenas.

Como foi o trabalho com os sotaques?
Tive a sorte de ter no elenco um português, o Gonçalo Dinis, que faz Duarte Barbosa, cunhado de Magalhães. Ele gravava para mim, que escutava várias vezes e repetia. Aí ele falava, ‘não, aqui este som está mais para o brasileiro”, e eu ia afinando. Como já trabalhei com sotaques diferentes antes, em inglês e espanhol, também tinha familiaridade com técnicas nesse sentido, mas muita repetição, um trabalho cirúrgico com vogais, com sons, corrigindo.

Qual diria que foi o principal desafio?
Todos esses. A língua, os sotaques, mas talvez o maior tenha sido encontrar a humanidade deste homem, porque ao fazer o herói, o vilão e as cenas de ação não me interessa muito o estereótipo, a caricatura. Queria tentar chegar na essência, em quem teria sido este homem. Porque temos a literatura, mas não existe uma fotografia, não temos como saber, com certeza, de que era assim.

Por isso quis estudar muito para depois tentar entender, baseado em como ele cresceu, nas suas relações, no que queria, de onde vem este homem e fazer um retrato humano para que também o espetador possa perceber. É diferente de gostar ou não gostar. Podes gostar, torcer pelo personagem ou odiar, esta é a beleza do cinema, da arte. [O espetador] tem o direito de sentir o que quiser, mas precisa de se conectar humanamente. Esse fio condutor sempre foi o meu foco.

Algum episódio curioso que recorde das gravações?
Filmamos no meio da pandemia, com todo o tipo de protocolo, provas diárias. No começo do dia, isso gerava uma ansiedade muito grande porque havia sempre a dúvida se ias estar positivo ou negativo e podias gravar. Pairava uma insegurança muito grande nesse sentido.

Uma cena curiosa é que numa cena de motim no barco, fiz uma coreografia longa no barco em que lutava com vários tripulantes e, no final, quando ia subr a escada bati com o joelho esquerdo na quina e fiz um corte grande, muito sangue, tivemos que parar tudo. Como era uma cena que envolvia muita gente e precisávamos terminar naquele dia, enfaixamos a perna e concluímos. Depois, cheguei a casa, estava a ler as minhas anotações e, curiosamente, vi que Magalhães também se feriu no joelho esquerdo numa batalha em Marrocos. Fiquei no mínimo intrigado com a coincidência.

Este não é o primeiro papel de época que faz. Este é um género que lhe interessa?
Sim. Sou um amante de história, desde a escola, e, na verdade, sempre me interesso pelo que está distante da minha realidade, porque tenho mais o que aprender, explorar, investigar e conhecer para expandir a minha visão e não estar com um preconceito das coisas. O meu interesse é rompê-los e ampliar o meu campo de visão, porque assim humanizo-me, fico mais recetivo, aberto e humano nesse sentido. A época é uma viagem no tempo.

Procuro sempre fazer personagens diferentes porque levam-me para outros lugares. É uma experiência onde posso viver outra realidade, mesmo que não seja real. Trata-se de um exercício que me enriquece como artista e ser humano.

Algum personagem que queira fazer no futuro?
Não sei. Este era um. Não que tenha pensado em fazer exatamente o Fernão de Magalhães, mas um personagem assim de um épico. Um homem com um sonho, uma ideia, uma visão, que vai fazer tudo para a conquistar. Um homem com uma força muito grande. Tinha essa curiosidade, então acho que é a realização de um sonho.

Algum outro projeto sobre o qual nos possa adiantar?
Estou envolvido com três novos projetos que, inclusive, produzo. Posso falar de um deles, uma animação sobre o álbum “Arca de Noé”, de Vinícius de Moraes. Os dois personagens centrais são ratinhos que estão na arca e contam toda a história. Faço esse protagonista. Tenho uma filha de cinco anos então, está a fazer bastante sentido, e Vinícius de Moraes é um grande poeta e uma figura muito importante na cultura brasileira e mesmo no mundo. É um projeto que estou a terminar e posso falar. Os outros dois ainda estão muito no início.

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