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Antes da paragem cardíaca, Rogério Samora quis deixar a profissão “louca e desgastante”

Há três anos, o ator anunciou o fim da carreira. Virou-se para outros negócios, mas voltou atrás na decisão.
O ator encontra-se hospitalizado

“Vou deixar de ser ator (…) É uma profissão muito desgastante, muito louca”, afirmava em 2018 o ator — então com 57 anos e mais de 40 de carreira entre os palcos do teatro, a televisão e os ecrãs de cinema. Na entrevista para a SIC, onde trabalha há vários anos, Rogério Samora anunciava o final da carreira artística.

“Aproveitem que são mais três aninhos. É até ao fim do contrato [com a SIC]. Estou a falar muito a sério. Temos de ter a noção de que chega uma altura em que se algo não nos faz completamente feliz.”

Durante a entrevista, o ator queixou-se da “profissão muito desgastante” e de que da incompreensão que sentia da sua forma de trabalhar. “Isto tem-me criado anticorpos”, atirou. “Chegou a hora de dizer basta.”

Três anos depois, Rogério Samora não chegou a cumprir a promessa, mas poderá ser forçado a uma pausa forçada, depois de nesta terça-feira, 20 de julho, ter sido vítima de uma paragem cardiorrespiratória durante as gravações da novela “Amor Amor”.

O ator, agora com 62 anos, está internado no Hospital Amadora Sintra, está na Unidade de Cuidados Intensivos Cardíacos. Encontra-se estável, mas com “prognóstico reservado”.

O desabafo na entrevista de 2018 com Júlia Pinheiro trouxe outras revelações, sobretudo familiares, nomeadamente a relação complicada com o irmão, que sofre, segundo o próprio, de “um grave problema mental”. “Estava com uma colega e recebi uma mensagem do meu irmão e emocionei-me. Era uma mensagem muito manipuladora e eu desatei a chorar no meio da rua, e não conseguia parar de chorar.”

Samora confessou a relação atribulada com o pai e também com os irmãos. Algo que já teria conseguido ultrapassar.

Samora na sua guesthouse no Porto

Ator há mais de 40 anos, Samora estreou-se nas novelas onde ainda brilha em 1982, num pequeno papel em “Vila Faia”, da RTP. Chegou a participar em séries alemãs dos anos 90, foi apresentador, passou pelo teatro e, no cinema, estreou-se em “Le Soulier de Satin” de Manoel de Oliveira, com quem trabalhou em oito produções.

Apesar da “loucura desgastante” da vida de ator, Rogério Samora começou a preparar o futuro longe das câmaras. Em 2018, inaugurou uma guesthouse na Foz do Douro, no Porto, completamente idealizada por si.

Foi o ator quem comprou, reabilitou e decorou a moradia no Passeio Alegre a que chamou Golden Holidays. “Apaixonei-me por esta casa em 2010. Longe de mim pensar nessa altura, sem sequer a ter visto por dentro, que em 2016, após uma primeira visita algo conturbada, a compraria e seria minha“, contou Samora à NiT

O investimento, fê-lo a pensar na decisão de vida que tinha tomado, de abandonar a profissão. “Por ter entretanto tomado a decisão de mudar de vida, de deixar de ser ator a partir de dezembro de 2020, e querendo a partir daí não ter sítio fixo — porque pretendo passar a ser um cidadão do mundo e viajar — , a minha colega Rita Loureiro disse-me: ‘Olha lá, porque é que não fazes um Alojamento Local aqui?’, estávamos a 18 de janeiro de 2018”.

À NiT, voltou a reforçar a vontade de deixar de ser ator e dedicar-se a outras áreas, embora desta vez com algumas reservas. “Não gosto de falar sobre o meu futuro. Nunca deixarei de estar ligado à arte, é só isto que posso dizer.”

A verdade é que apesar do cansaço e do desgaste que confessou, foi difícil largar a profissão de uma vida. Voltou ao tema um ano depois da declaração, em 2019, onde revelou uma mudança de planos.

“Foi uma coisa que disse sem pensar. Fui um pateta e como tenho o coração ao pé da boca, atirei o barro à parede. Parece que tomei uns Prozac de manhã”, explicou. “Foi uma fase, do que sentimos mas não devemos verbalizar. Depois pensei nas saudades e as pessoas pediram-me para não deixar de ser ator.”

Pedidos e mudanças de opinião à parte, a verdade é que Rogério Samora viria novamente a apontar críticas ao ritmo desgastante da produção da novela em que então entrava, “Nazaré”. Entre adiamentos e percalços provocados pela pandemia, quem sofreram foram os atores, revelou.

“Disseram-me que ia ter mais tempo, que ia ser tudo mais lento, mas ao final de um mês esquecemos isso tudo porque porque era preciso acabar por causa da estrutura e financiamentos. E depois senti que, desta vez, houve mais pressão por parte da produção e dos assistentes de realização para que o trabalho se fizesse”, explicou em agosto de 2020.

A pressão, revelava, “não é boa para quem trabalha com emoções”. “Deixamos de ser seres humanos e passamos a ser máquinas. Senti-me como um cavalo a ser chicoteado para chegar à meta.”

Apesar da pressão, Samora não só não abandonou a profissão como ainda se aventurou em mais projetos, nomeadamente a novela “Amor Amor”, a grande aposta da SIC que estreou em janeiro e que segue a história de dois jovens de bandas rivais — Romeu (Ricardo Pereira) e Linda (Joana Santos) — que são amigos desde sempre.

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