Rowan Atkinson pode ter conquistado o mundo na série “Mr. Bean” 1990, cujo humor físico marcou uma geração. A personagem mal falava e o que poucos sabem é que este registo, silencioso e desajeitado, teve origem numa luta muito pessoal. O ator britânico, hoje com 70 anos, lida desde miúdo com um problema de fala que marcou profundamente a sua vida: uma gaguez persistente, que ainda hoje o leva a evitar entrevistas — e que fez com que fosse vítima de bullying na escola.
Nada o impediu, contudo, de dar vida a personagens emblemáticas. Além de Bean, também interpretou Johnny English, em 2003, e, mais recentemente, deu vida a Trevor Bingley. Estreou-se neste papel em 2022 na série da Netflix “Homem Vs. Abelha” e regressou esta quinta-feira, 11 de dezembro, para uma continuação na mesma plataforma. Desta vez, vai estar frente a frente com algo que o assusta ainda mais: um bebé.
Bingley leva agora uma vida tranquila como funcionário de limpeza numa escola, mas a paz termina quando aceita tomar conta de uma penthouse de luxo em Londres durante a época natalícia. “Com um bebé para cuidar e uma mansão para proteger, Trevor vai ter de se esforçar para evitar um desastre”, lê-se na sinopse da produção.
Esta é, mais uma vez, uma personagem exagerada, quase uma caricatura, que tem marcado a carreira de Atkinson, vencedor de dois BAFTAs graças a “Blackadder Goes Forth” e “Not the Nine O’Clock News”. Mas, por detrás deste talento para criar figuras tão excêntricas, esconde-se um desafio pessoal que acompanhou Atkinson desde a infância.
Segundo vários relatos, o ator tem especial dificuldade em pronunciar palavras que começam por “B” seguidas de vogal, o que o obriga muitas vezes a fazer uma pausa longa e a respirar fundo antes de conseguir falar. Numa das raras entrevistas que deu, publicada pela “Time” em 2007, admitiu que é uma questão que “vai e vem”. “Depende dos meus nervos, mas pode ser um problema”.
Explicou também que a representação foi a chave para se conseguir libertar desta gaguez por vezes paralisante. “Quando interpreto uma personagem que não sou eu próprio, ela simplesmente desaparece. Isso pode ter sido parte da inspiração para seguir a carreira que segui.”
A verdade é que a infância de Atkinson, à semelhança de outros grandes atores de comédia, não foi fácil. Por volta dos cinco anos começou a desenvolver esta condição severa que tornou os seus anos de escola particularmente dolorosos. Frequentou a Durham Chorister School, no Reino Unido, onde o bullying era brutal.
Os colegas troçavam da forma como falava e até do seu aspeto. Segundo o que Cannon John Grove, antigo diretor da instituição, contou ao “The Independent” em 1998, comparavam-no a “um extraterrestre”. Recorda também que Rowan era “um miúdo reservado, de expressão facial muito marcada e com uma grande dificuldade na fala”.
Já Tony Blair, que era da sua turma, contou ao mesmo meio, em 2007, que o bullying era tão intenso que o ator passou grande parte da infância isolado. No entanto, algo extraordinário acontecia sempre que subia ao palco: a gaguez desaparecia por completo. Ali, era livre. E foi daquele sofrimento que nasceu precisamente o seu talento para interpretar personagens extravagantes.
Mais tarde, já na universidade, conheceu o argumentista Richard Curtis, responsável por êxitos como “O Amor Acontece” e “Quatro Casamentos e um Funeral” — e descobriu o estilo de humor que mudaria a sua vida. Ambos começaram a escrever e a atuar juntos, o que abriu caminho para o primeiro grande êxito de Atkinson: “Blackladder II”, série de 1986. Anos mais tarde, em 1994, deu voz a Zazu em “O Rei Leão”, consolidando o seu estatuto de estrela internacional.
Mas o percurso até ao sucesso não foi fácil. Entre 1978 e 1979, enfrentou sucessivas rejeições da BBC, que não compreendia o seu estilo de humor. Sentiu-se perdido, desmotivado e com a gaguez agravada, sobretudo em entrevistas e audições. Chegou mesmo a ponderar abandonar a comédia e voltar à engenharia, a área em que se formou. Tudo mudou quando percebeu que, ao desempenhar uma personagem, os problemas de fala desapareciam.
“Eu sempre fui uma pessoa bastante calma e relativamente introspetiva. Tudo mudava quando atuava e foi assim que encontrei uma forma de ser extremamente pouco tímido”, revelou ao “Daily Express” em 2021.
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