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“Sangue Oculto”: coincidências absurdas, parkour desnecessário e outros detalhes surreais

A nova novela da SIC já estreou, onde Sara Matos vive duas gémeas separadas à nascença. Leia a crítica da NiT ao primeiro episódio.
João Catarré e Sara Matos são dois dos atores principais.

A nova novela da SIC, “Sangue Oculto”, estreou esta segunda-feira, 19 de setembro. Já sabíamos que se iria focar na história de duas gémeas separadas à nascença — fenómeno recorrente (e aparentemente inesgotável) nas telenovelas portuguesas. Contudo, só ficámos a compreender o contexto absurdo depois de assistirmos ao primeiro episódio.

Em 1992, uma jovem está em trabalho de parto numa ala de um hospital em obras. Parece sedada, pouco consciente do que está a acontecer, e não tarda em aparecer uma médica que lhe tira uma das crianças — porque nascem pelo menos duas (há relatos sobre uma terceira que só irá aparecer mais tarde na narrativa, mas não está confirmado). 

Ficamos a perceber que as bebés são fruto de uma relação extraconjugal entre aquela mulher, Teresa, empregada de um casal; e o homem desse casal, Olavo. Quem é a esposa do casal? Vanda, a médica que está ali, casualmente, a raptar uma das bebés. O objetivo também seria ficar com a segunda, mas a mulher que acaba de dar à luz agarra-se a essa bebé e corre para fora do hospital.

Tudo isto tem contornos surreais: ao que parece, o pai das bebés não faz ideia do que aconteceu — nem sequer que a sua amante estava grávida. Os pais da jovem Teresa também desconheciam que estava grávida. Os que sabiam, pelos vistos, não faziam ideia de que ela carregava gémeas. A história torna-se ainda mais improvável quando Vanda leva Olavo ao hospital e o convence em cerca de cinco segundos que, uma vez que não estão a conseguir ter filhos, é uma boa ideia adotar aquela bebé anónima de origem desconhecida que precisa de um lar. Mal Olavo sabe que aquela é uma das suas filhas biológicas. Já Teresa muda-se com a bebé que conseguiu manter — acreditando que a outra está morta — para o Reino Unido.

O enredo recomeça 30 anos depois, na atualidade. Carolina, a gémea que ficou com a mãe, é enfermeira. Ela própria já tem uma filha de 10 anos. Ao que parece, as duas não iam a Portugal desde 1992 —e seja lá por que razão for, Carolina nunca conheceu os avós. Isso muda quando, após uma chamada telefónica, Teresa a convence que têm de voltar porque os pais idosos precisam muito da sua ajuda. 

Mais uma vez, Teresa demora cerca de cinco segundos — ou meia dúzia de frases — a aceitar deixar toda a sua vida em suspenso para regressara ao país de origem que não conhecia. O mais engraçado é que, quando reencontramos os pais de Teresa, percebemos que não estão assim tão mal e que na verdade a sua mãe estava a exagerar bastante os sintomas que sentia.

Assim que chega a Portugal, o seu destino vai parecer entrelaçado com o da sua irmã gémea que desconhece, Benedita — que é cirurgiã no hospital onde a “mãe” Vanda trabalha e onde as duas nasceram. Os avós de Carolina estão no parque de campismo da Costa da Caparica, onde gerem um mini mercado. Pelos vistos, Benedita também passa lá bastante tempo, uma vez que o seu namorado surfista, Tiago, trabalha e vive num bar de praia local.

O que vai motivar o encontro das gémeas, porém, será um acidente com um autocarro da Transportes Sul do Tejo. Como enfermeira e pessoa altruísta sempre disposta a ajudar, Carolina vai tentar cuidar dos feridos do acidente e irá acompanhá-los para o hospital. Por coincidência, o acidente é provocado por uma colisão com o seu pai biológico, Olavo, que a sua mãe Teresa parece reconhecer imediatamente. Tiago, namorado da gémea, de repente olha para a televisão no bar da praia, e reconhece a sua namorada — na verdade, a irmã idêntica — nas imagens em direto do acidente. Larga tudo o que está a fazer e corre para a zona onde aconteceu o desastre. E é aí que se dá o momento mais constrangedor (e cómico) de todo o primeiro episódio de “Sangue Oculto”. 

Parado no trânsito, que foi interrompido precisamente por causa do acidente, Tiago não vai simplesmente correr entre os carros para chegar ao local da colisão. Não, porque isso seria demasiado simples — e normal. Assim, temos direito a toda uma sequência de João Catarré a fazer parkour entre os carros para conseguir fazer um percurso acessível a qualquer pessoa que quisesse simplesmente caminhar. Era tão desnecessário que se torna hilariante.

O encontro entre Tiago e a irmã gémea da namorada só vai acontecer no hospital. Assim que a vê, claro, dá-lhe um enorme beijo — chocada por estar a ser beijada por um estranho após ter sofrido um acidente de viação no dia em que conheceu os avós no país de origem a que nunca foi, Carolina foge e enfia-se num elevador da unidade hospitalar. Onde vai parar? Ao gabinete da irmã gémea.

Esse momento do reencontro, com as duas em choque como se estivessem a olhar para o espelho, marca o final do episódio de estreia da nova novela da SIC. Mas não sem antes, claro, outro reencontro inesperado: Teresa percebeu que aquele homem que acompanhou até ao hospital é o seu antigo amante Olavo —, mas pelos vistos, foi a única do antigo triângulo amoroso que se apercebeu disso. Algo que irá certamente mudar quando Olavo recuperar realmente os sentidos e se aperceber de que ficou com um colar de Teresa que a irá identificar.

As novelas portuguesas fizeram um longo caminho. Ao nível estético, “Sangue Oculto” é a prova disso. Trata-se de uma novela bonita e cuidada, com uma boa direção de fotografia, distante dos formatos mais obtusos de outrora. Os atores são convincentes a defenderem os seus papéis. Porém, o argumento padece de vários dos males que têm atormentado este género popular de ficção. Demasiadas coincidências absurdas tornam os enredos profundamente inverossímeis. E muitas das decisões tomadas pelas personagens não fariam qualquer sentido no mundo real. 

Outro problema tem a ver com a idade dos nomes escolhidos para os papéis. Há atores sensivelmente com a mesma idade a interpretarem personagens com 20 anos de diferença. Por exemplo, António Pedro Cerdeira e Rui Unas (que ainda não apareceu na história) têm quatro anos de diferença. No entanto, as suas personagens têm uma distância de mais de 20 anos. Isso contribui para que a narrativa não pareça real. Obviamente, nada disto isto significa que “Sangue Oculto” não vá ser um sucesso de audiências. As novelas são produções de ficção mais do que testadas junto do seu público e não tem sido por estes motivos que deixam de ser vistas. Porém, convém não defraudar os leitores: não se espere sangue novo neste “Sangue Oculto”.

Carregue na galeria para conhecer outras novelas portuguesas que incluíram irmãos gémeos nas suas histórias — a lista não é pequena.

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