Televisão

Se não viu, tem que ver: as sete temporadas de “Californication” chegaram à HBO

David Duchovny encarnou o espírito de Charles Bukowski na série que chegou ao fim em 2016. Seis anos depois chega ao streaming.
"Californication" terminou em 2014.

Ele andou durante anos a avisar-nos que “a verdade anda por aí”. Estávamos ainda nos anos 1990 quando David Duchovny andou à caça de alienígenas (e da irmã desaparecida) em “Ficheiros Secretos”, a série de ficção-científica que fez história e que lhe deu um Globo de Ouro. Mas, verdade, verdadinha, foi com “Californication” que lhe descobrimos uma nova faceta: mergulhado num deboche de álcool, mulheres e uma relação atribulada (e fofinha) com a ex-mulher e a filha. Foi também o papel que lhe deu novo Globo de Ouro e todo um novo estatuto enquanto ator.

Foi em 2007 que Hank se apresentou ao mundo. Escritor nova-iorquino em crise, muda-se para Los Angeles, na Califórnia, mas a escrita nunca regressa. O que regressa uma e outra vez são os mesmos vícios, a mesma perdição, a mesma longa relação eternamente mal resolvida e o sexo; sempre o sexo.

A série chegou e logo desde o início que deu problemas. Cenas como o sonho em que uma freira surgia a fazer sexo oral deixaram alguns setores mais conservadores em choque perante a obscenidade. Houve ameaças de boicotes e até o nome da série deu origem a polémica..

A produtora Showtime chegou a ser processada pelos Red Hot Chili Peppers, que tinham em “Californication” o título do seu álbum mais bem-sucedido de sempre, lançado em 1999. Na altura, a Showtime argumentou que a expressão não tinha sido cunhada pela banda e até surgira muito antes em publicações — as duas partes chegaram a um acordo extra-judicial.

Um especialista em auto-sabotagem.

Sexo, nudez, palavrões, sonhos bizarros, álcool, drogas, tudo isto abunda numa série pontuada com discussões, momentos de drama e um humor muito próprio. Como fio condutor das sete temporadas, encontramos a esperança de Hank no próprio sucesso e o tal amor da sua vida, nunca esquecido, com Karen (Natascha McElhone). Ao longo do tempo acompanhamos ainda o crescimento da sua filha, Becca (com uma Madeleine Martin que também foi crescendo no ecrã), além da sua relação de amor-ódio com Los Angeles. Hank era o epicentro de tudo, mas a força de “Californication” era no feminino, das mulheres que se sucediam à própria cidade.

Cínico e sedutor, Hank perde-se entre o impulso e a certeza da culpa que vem depois. É capaz de pensar sobre os seus problemas mas nunca deixa de se auto-sabotar. É um niiilismo charmoso, bem humorado, razão pela qual as personagens que o acompanham (e de certo modo os espectadores) conseguiam odiá-lo por momentos, sem deixar de torcer por ele. “Vinho é bom mas o whisky é mais rápido”, diz ele numa das suas tiradas.

A série foi criada por Tom Kapinos, que deixou claramente algo de seu no projeto. Hank era da mesma cidade que ele e a própria frustração de autor tem origem na sua sua experiência ao escrever guiões para “Dawson’s Creek”, série na qual se lançou.

Ao longo dos anos, os fãs foram apelando ao regresso da dupla de “Ficheiros Secretos”. A ideia era voltar a ter Mulder e Scully, mas naquela Los Angeles de Hank, onde as mulheres se sucediam,. A própria Gillian Anderson mostrou-se disponível para um papel, em pro bono, só que o ator quis ser fiel à coerência que faltou à própria série: nunca quis estragar a imagem que os fãs tinham de Mulder e Scully.

Nas primeiras temporadas, “Californication” chegou com pompa e criou rapidamente um culto próprio. As sete temporadas de duração tornam-se um tributo aos fãs mais fiéis mas mostram também a dificuldade em prolongar no tempo algo que depende tanto de uma personagem que se vai divertindo, odiando-se a si próprio enquanto mantém um toque de arrogância.

As sete temporadas de “Californication” chegaram esta quarta-feira, 14 de outubro, à HBO Portugal. Ao todo são 84 episódios, disponibilizados em simultâneo. Um convite a (re)visitar a montanha-russa que é este Hank em eterna crise.

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