Televisão

A série sobre Dahmer está a irritar as famílias das vítimas — e a nausear os espectadores

A Netflix é acusada de “retraumatizar os familiares”. Muitos espectadores assumem não ter aguentado as cenas mais gráficas.

Tanto quanto se sabe, Jeffrey Dahmer foi o responsável pela trágica morte de 17 pessoas. Errol Lindsey foi a 11.ª vítima do serial killer que é a estrela da nova série da Netflix, “Dahmer – Monstro: A História de Jeffrey Dahmer”, uma das mais faladas e vistas na plataforma desde a estreia a 21 de setembro.

Numa das cenas da série, a irmã mais velha de Lindsey confronta o assassino na sala do tribunal, numa reencenação que replica, até ao mais pequeno detalhe, o confronto original. A atriz DaShawn Barnes assume o papel de Rita Isbell, que não consegue conter a dor de enfrentar o homicida. Entre os gritos de agonia, é arrastada para fora da sala.

Lindsey foi estrangulado por Dahmer, que tinha como objetivo manter a vítima num estado zombie. Para isso, usou um berbequim para lhe perfurar o crânio, no qual introduziu ácido clorídrico.

“Não quero dizer a ninguém o que devem ou não ver. Sei que toda a gente quer ver as produções de crime real, mas se têm realmente curiosidade sobre as vítimas, posso dizer que a minha família, os Isbells, estão irritadíssimos com esta série”, revelou o membro da família no Twitter. “É retraumatizante. Com que objetivo? De quantos mais filmes e documentários precisamos?”

Uma das críticas incide precisamente na recriação da cena do confronto no tribunal. “Voltar a mostrar a minha prima a ter uma quebra emocional na sala do tribunal, perante o homem que torturou e assassinou o seu irmão, é uma loucura”, explicou. “Não, claro que não vou ver [a série]. A minha família não está nada satisfeita.”

Sobre o tema, o ator que interpreta Tracy Edwards — a única vítima sobrevivente de Dahmer —, Shaun Brown, confessou nas redes sociais ser “muito estranho receber toda esta atenção por causa da miséria de outra pessoa”. “Não sou suficientemente ingénuo para perceber que o homicídio e [as séries de] true crime são sensacionalistas.”

Brown deixou, contudo, um pedido aos espectadores. “Peço-vos que, ao verem a série, tenham em mente que estes homens eram filhos, amigos, primos, tios de alguém; que tinham sonhos, esperanças e objetivos que nunca puderam concretizar.”

“Dahmer – Monstro: A História de Jeffrey Dahmer” foi criada por Ryan Murphy, produtor de séries como “Glee” ou “American Crime Story”, e tira partido dos dez episódios para recontar a história de um dos mais infames assassinos em série da história dos Estados Unidos. No papel principal, Evan Peters, ator de “Mare of Easttown”, assume a responsabilidade de retratar o homicida que espalhou o terror entre finais da década de 70 e anos 90 — e que morreu em 1994, na prisão.

O ambiente macabro da série materializa-se nos crimes hediondos de Dahmer, que vão da necrofilia ao canibalismo. Dahmer cresceu a mexer em entranhas e aprendeu, com o pai, a estudar a anatomia de animais atropelados que recolhiam na estrada, bem como a preparar peixes, retirando-lhes as entranhas.

Desenvolveu um estranho fascínio pelos órgãos, além de ser também um homossexual reprimido. Os caprichos de Dahmer tornaram-se cada vez mais mórbidos e, na série, é recorrentemente retratado o prazer sexual que retira ao deitar-se com cadáveres ou ao esventrá-los. Isto quando não prepara os órgãos para as suas refeições.

Tudo isto revelou-se, claro, demasiado horripilante para muitos espectadores. “Atiro a toalha ao chão ao segundo episódio. Isto é demasiado doentio, não consigo ver isto até ao fim”, escreveu um dos críticos no Twitter.

Descrita por muitos como “uma das séries de true crime mais perturbadas de sempre”, há relatos de enjoos e de espectadores que foram obrigados a sair de casa e apanhar ar, para poderem aguentar o choque. Outros, elogiam a prestação de Peters e a atenção ao detalhe, que faz com que quem veja a série fique “extremamente desconfortável”.

As críticas apontam também para o facto de muitas séries, inclusive esta, assumirem uma visão de humanização dos assassinos, além da procura da sensacionalização do tema. “É mesmo preciso voltar a fazer isto, como se não houvesse já três documentários sobre Dahmer?”

A crítica não poderia ser mais certeira. É que a Netflix prepara-se já para lançar, a 7 de outubro, mais uma produção sobre Jeffrey Dahmer. Em “Conversas com um Assassino: As Gravações de Jeffrey Dahmer”, os crimes são revisitados com base em imagens e entrevistas reais, numa minissérie documental dividida em três episódios.

Carregue na galeria para ver as melhores estreias de setembro.

ÚLTIMOS ARTIGOS DA NiT

AGENDA NiT