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“It’s a Sin”: a nova minissérie da HBO tem o melhor e o pior da Londres dos anos 80

O pecado, a SIDA e a luta pelo direito ao amor. Há temas fortes na série que estreia este sábado, 23 de janeiro.
Na Londres dos anos 80.

Um chama-se Russell T. Davies e em 2019 deu-nos essa Grã-Bretanha à beira da ditadura, sob a perspetiva de uma família britânica, em “Years and Years”. O outro chama-se Olly Alexander e em 2015 alcançava a fama, com o hit “King”, da sua banda Years & Years. As ligações entre a série e a banda não eram muitas para lá do nome. Mas os dois homens haveriam de se juntar em novo trabalho.

“It’s a Sin” é a mais recente minissérie com cunho da HBO a chegar à plataforma. Russel T. Davies é o criador. Olly Alexander (“Enter the Void – Viagem Alucinante”, de Gaspar Noé) surge aqui a mostrar a sua outra faceta, no seu maior papel até ao momento.

Composta por cinco episódios de 60 minutos, “It’s a Sin” leva-nos com humor e drama à mistura para a década de 1980, que recordamos muitas vezes pela nostalgia dos cabelos e roupas espampanantes mas que foi marcada por um mundo de convulsões. Em particular numa comunidade então marginalizada.

Numa altura em queos membros LGBT lutavam pelo seu reconhecimento, a SIDA propagava-se. Transmitida sexualmente, a doença foi durante anos alvo de mito, apresentada como “doença de gays” e, por isso mesmo, desvalorizada por quem tinha responsabilidades.

A minissérie explora a vida de Ritchie (Alexander), Roscoe (Omari Douglas) e Colin (Colin Morris-Jones) enquanto começam uma nova vida em Londres no princípio da década. Não se conhecem, são jovens e entre sonhos e aventuras têm um desafio à prova, entre uma sociedade que ainda os olha de lado e um vírus que é ameaça, insulto e arma de arremesso pela discriminação.

Jill (Lydia West) vai ser o elo de ligação entre estes rapazes e figura que se destaca num elenco que tem nos atores mais novos a sua força. Tudo equilibrado por um leque de veteranos que inclui Stephen Fry  e Neil Patrick Harris.

Num tempo em que a representatividade é cada vez mais assunto, Russel T. Davies fez questão de encontrar atores gays nos principais papéis. Porém, numa entrevista recente ao “Radio Times”, explicou que tal não foi por nenhuma questão politicamente correta. O criador de séries como “A Very English Scandal” até já contou com atores hetero em papéis gay no passado. Mas havia aqui um lado de “autenticidade” que procurava.

Tal decisão terá algo de pessoal para o próprio. Embora não seja um trabalho autobiográfico, “It’s A Sin” inspira-se em elementos que o criador da série observou, mais do que viver. Ele estava lá, naquela mesma Londres, a do medo e da descoberta, a da coragem e da simples diversão, a da SIDA e do direito a amar.

Entre o amor e a descoberta.

“Devo ter conhecido centenas de rapazes como eles [personagens da série], mas por entre aquelas noites loucas eu tive sorte, eu escapei ao VIH. Era mais bem comportado do que algumas das personagens, daí que as tenha escrito a fazerem o que fazem. Nos anos 1980 andava mais de cabeça baixa e a trabalhar muito. Só nos anos 1990, já nos meus trinta, é que comecei a descobrir toda acena gay da cidade”, recordava.

Este é, por isso, o seu tributo a quem não teve a sua sorte mas também a quem arriscou demasiado e sobreviveu. Russel tinha 18 anos em 1981, tal como a sua personagem, mas admite que precisou de todo este tempo para chegar até aqui, para se conhecer melhor a ele próprio e acima de tudo ter a maturidade e distância necessárias.

É, assim, olhando de longe e ao mesmo tempo sabendo que aquela Londres não nos está assim tão distante, que vamos ver Ritchie e companhia, entre risos e receios, a chocar mentes mais fechadas, a bem da liberdade. E do amor.

Os cinco episódios de “It’s a Sin” estão disponíveis na HBO Portugal a partir deste sábado, 23 de janeiro.

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