Televisão

“Snowflake Mountain”: um bando de fedelhos intratáveis e mimados abandonados no mato

O humorista e cronista Miguel Lambertini analisa o primeiro episódio do reality show da Netflix focado num grupo de jovens.
Um grupo, no mínimo, insólito.

“Dez jovens adultos mimados chegam ao que julgam ser uma estância chique repleta de luxos…só que, surpresa! É tudo menos isso.” Esta é a descrição da série “Snowflake Mountain” que estreou ontem na Netflix e, claro, com um isco destes, não resisti a espreitar este novo reality show.

Tal como o próprio programa explica no início “Snowflake” ou “Floquinho”, na tradução portuguesa, é um jovem demasiado emotivo, que se ofende facilmente e que é dramático. No meu tempo isto chamava-se a idade do armário e todos passámos por ela, uns mais que outros, embora ninguém se gabasse de ser um fedelho intratável e mimado. Estes concorrentes não só o exaltam, como para eles, é uma verdadeira filosofia de vida.

Rapazes e raparigas que idolatram os maiores influenciadores digitais como divindades e para quem publicar selfies no Instagram é uma carreira de sonho. Claro que para efeitos de entretenimento os floquinhos selecionados para este programa são a nata da nata. Personagens como Solomon, um jovem que a primeira frase que diz na sua apresentação é: “sou o tipo com quem a vossa mãe gostaria de curtir. Sou uma superestrela” e depois vemo-lo sentadinho no sofá ao lado do papá e da mamã.

Não combina lá muito, não é? Era o mesmo que eu estar a andar de trotinete, parar num semáforo ao lado de um Bugatti, virar-me para o condutor e dizer “querias, não querias? Estudasses!” e sair disparado a sete quilómetros à hora. “As famílias destes floquinhos atingiram o ponto de ruptura”, diz a voz off, enquanto ouvimos relatos dos progenitores a queixarem-se do comportamento dos filhos.

Isto depois de já termos visto a mãe de Solomon — que diz que tem as unhas pintadas de azul porque é a cor da realeza — a colocar uma coroa dourada na cabeça do menino. Se calhar, se deixassem de os tratar como se vivessem no castelo de Windsor talvez ajudasse a temperar um pouco o ímpeto majestático destas criaturas. Mas nem tudo está perdido! E é aqui que entram Matt e Joel, dois patuscos das montanhas, especialistas em sobrevivência e antigos militares cuja função é ensinar estes bebés grandes a sobreviver.

Depois de terem sido largados no meio de nenhures com as suas fantásticas malas de viagem recheadas de roupa de marca, gadgets e cosméticos, os dez concorrentes começam a desconfiar que talvez não exista nenhum resort de luxo à sua espera. “Vem aí alguém, vão salvar-nos!”, grita uma das participantes. Só que não. O que eles pensavam que era o piquete de emergência são apenas o Matt e o Joel — e estão longe de ser os salvadores.

“Olá, nós ensinamos técnicas de sobrevivência e a partir de agora passarão a ser responsáveis por vós próprios. A mamã e o papa não vão estar aqui para ajudar.” As caras deles quando perceberam onde foram parar já valeram o tempo investido neste conteúdo. Não valem, mas pronto sempre dão um pouco mais de alento ao espectador para conseguir aguentar até ao fim.

 

Os especialistas — que nesta fase já estão a ser amaldiçoados e vilipendiados por todos os concorrentes — pedem-lhes que escolham apenas os três itens essenciais sem os quais não podem passar. Deandra não se conforma com esta pobreza franciscana e faz ouvir as suas exigências: “Como é que podemos escolher? Eu preciso de tudo! Preciso do meu lip gloss, do meu iluminador e do meu contour.” Não faço ideia o que é um contour mas a avaliar pelo desespero da rapariga deve ser algo absolutamente essencial para sobreviver no mato.

Matt e Joel não estão minimamente preocupados com os apelos dos concorrentes e fazem um anúncio, literalmente, bombástico: “acreditamos que é possível fazer mais com menos. Por isso, está na hora de dizerem adeus aos vossos bens materiais”, explica Matt enquanto ergue um detonador de explosivos e aponta para um carrinho onde estão amontoadas as malas de todos.

Se há pouco desânimo nas caras deles era visível, agora só se vê desespero profundo que se transforma subitamente em choro, no momento em que Matt aciona o detonador. Bum! Bocados de malas a voar por todo o lado contrastam com o olhar vazio e deprimido de quem acabou de assistir a um cataclismo. “Isto é para o vosso bem. Nós até somos simpáticos”, dizem os especialistas em tom jocoso, enquanto os participantes idealizam a melhor forma de entrar na tenda deles à noite e sufocá-los durante o sono.

No meio disto tudo, só espero que a Deandra tenha guardado o seu precioso contour, porque não há coisa mais horrível nesta vida do que ver o nosso contour a cair do céu aos bocadinhos, como um floquinho de neve.

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