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Soraia Chaves: “Levei mais de uma década a ter acesso a outro tipo de personagens”

A atriz é protagonista em "A Generala" e falou com a NiT sobre o papel na nova minissérie.
Soaria Chaves protagoniza minissérie.

É uma Soraia Chaves multiplicada que descobrir desde 24 de novembro, em “A Generala”. A minissérie da SIC que estreou na plataforma OPTO e nos conta uma história que consegue ser ao mesmo tempo rocambolesca e trágica, cómica e tocante. E acima de tudo bem real.

Em “A Generala” descobrimos uma história que em 1992 tomou conta de manchetes no País. Em causa estava um esquema de pequenas burlas que teria passado ao lado como muitos outros pequenos crimes. Mas a mulher a ser julgada era uma mulher que ao longo de anos se disfarçou de homem.

À NiT, Soraia Chaves conta que o que se passou então não foi um julgamento de um crime mas de uma pessoa. À procura da identidade em que se sentia confortável, Maria largou cedo o mundo onde cresceu, passou duas décadas na pele de outras pessoas para poder ser quem sentia ser e por tudo isso foi “humilhada”.

O papel é também uma oportunidade de vermos Soraia Chaves desdobrar-se em diferentes momentos, ao ser Maria e as suas diferentes versões. A própria atriz admite que demorou algum tempo até lhe chegarem às mãos outro tipo de trabalhos. “A Generala” é resultado também desse trabalho e esforço da atriz que sabia desde muito cedo o que queria fazer. Valeu a pena.

É inevitável a pergunta, mas como tem vivido este tempos de pandemia?
Acho que esta tem sido uma fase bastante confusa e complexa para todos nós. Falamos de uma pandemia para a qual ainda não há muitas respostas, vivemos numa dúvida constante, com medo e a tentar diariamente combater o medo. Pelo menos é isso o que tento fazer. Mas há uma questão que me preocupa em particular, a falta de liberdade, a liberdade que se tem restringido à população.

Em que sentido?
Falo num sentido psicológico, que tem que ser levado em conta. Acho que os portugueses têm tido um bom comportamento, as coisas têm corrido bem nesse aspeto, mas questiono-me sobre as consequências psicológicas e emocionais. Acho importante nesta fase em que temos de nos proteger uns aos outros ao nível da saúde, também temos de nos proteger a nós próprios. É muito importante não deixarmos prender o nosso pensamento. Se temos esta restrição física, temos de manter a liberdade de pensamento e da imaginação. Para sobrevivermos a esta fase.

Pelo trailer percebemos que há cenas de agressões, de intimidade. Como é que é gravar cenas assim, muito físicas, numa altura destas?
Ficou mais difícil, claro. Nas produções que temos feito, e foi o caso de “A Generala”, todos os atores fazem o teste antes das gravações. Vai-se mantendo a distância recomendada, usa-se máscaras nos ensaios e na preparação, quando contracenamos diretamente temos essa segurança possível. Há um cuidado extra para que tudo corra bem.

A novidade agora é “A Generala”. Que podemos esperar desta minissérie?
É uma série de seis episódios em que retratamos todas as fases de vida de uma pessoa É um olhar íntimo sobre a forma como esta pessoa cresceu, o ambiente à sua volta, e o que determinou o seu caminho e a faz iniciar uma viagem à procura de liberdade. É a luta de uma pessoa para conseguir viver de forma livre e digna a sua identidade.

Já conhecia a história da Maria “Teresinha”?
Não. Quando o caso se tornou público, e muito mediático, em 1992, eu ainda era bastante jovem. Não tinha memória desta história. Quando ma contaram achei absolutamente fascinante. É incrível: a luta, a coragem — e é também curiosa. Como é que as pessoas que desde a nascença não se identificam com a sua identidade, por que caminhos é que a vida as pode levar? Neste caso, esta mulher em particular teve de inventar várias identificadas para se sentir bem consigo mesma. Ela vivia numa época (e de certa maneira ainda vivemos) em que a sociedade critica, reprime e julga e humilha – e não entende estas pessoas. E isso faz com que muitas delas tenham de se disfarçar. Não generalizando, que há muitas vidas e esta é a história de uma pessoa. Mas no caso dela ela sentia liberdade e sentia-se bem na sua pele inventando personagens.

É uma figura que combina aqui um lado criminal, de assumir identidade de outras pessoas, mas também tem algo de revolucionário. Fingiu ser general num tempo em que nem sequer estávamos habituados a mulheres nas forças armadas.
Sim, ela nunca fez parte das forças armadas mas era um disfarce dela e acho que revela algo sobre o forte de desejo de respeito, de ser uma figura de autoridade. Não só ela quis passar-se por homem, mas como por general. Uma coisa interessante em relação às burlas, que ela enganou pessoas e foi por isso que foi a tribunal, é que as pequenas burlas são um crime relativamente comum, em Portugal e em todo o mundo. O que me chocou muito foi que na altura esta pessoa foi castigada e humilhada publicamente, não pelo crime mas por ser uma mulher que fingia ser homem. Isso foi uma humilhação pública absolutamente cruel, que nada tinha a ver com as burlas.

Foi esse o lado que tornou caso tão mediático.
Sim. E ela foi alvo de ridicularização, de uma crueldade extrema, que acabou por levá-la ao suicídio. É algo interessante nesta história: a responsabilidade também que a sociedade tem, especialmente quando não se respeita a dignidade, a diferença, o direito de cada um ser o que quer ser. Claro que as burlas devem ser julgadas, são crime. Mas nenhum caso em 1992 foi julgado desta forma. Acho que o julgamento foi outro.

Como atriz, interpretou não apenas a Maria, mas as diferentes identidades que ela assume. Foi um trabalho diferente na sua carreira, não?
Foi muito diferente. Foi dos trabalhos mais difíceis e desafiantes que já fiz até hoje. E preencheu-me muito, foi muito absorvente. A dada altura trabalhava 24 horas por dia, que às vezes até a dormir estava com esta personagem. Tem a ver também com a construção típica da personagem. Acho que tenho um lado bastante feminino e tinha de encontrar em mim esta outra forma de estar e de falar.

Como fez isso?
Fi-lo sozinha, em casa, a trabalhar, que há uma parte do trabalho de ator que é solitário e que levamos connosco para casa; que está sempre connosco. Mas também foi um processo muito coletivo, de ensaios. Como retratamos a vida toda, éramos três atrizes. Há a parte de criança e depois da transição de adolescência para a vida adulta e esta parte foi feita pela Carolina Carvalho. Eu apareço mais tarde, quando a identidade já está mais assumida. Mas nos ensaios foi muito importante sermos duas atrizes a fazer a mesma personagem. Era fundamental que houvesse trabalho conjunto. Foi um trabalho muito intenso, com as duas sempre presentes, e foi muito importante para estarmos na mesma linha. Nunca tinha trabalhado assim com outra atriz e isso também tornou o processo muito interessante e bonito. As pessoas mudam ao longo da vida, passado 30 anos a Maria não era a mesma pessoa, mas há coisas que se mantém.

Começou no cinema com “O Crime do Padre Amaro” e “Call Girl”. Sente que demorou a mudar a visão que uma parte do público tem de si enquanto atriz?
Acho que sim. “O Crime do Padre Amaro” foi feito em 2005. Levei pouco mais do que uma década a ter acesso a outro tipo de personagens. E talvez com isso — porque não sei — a mudar a perspetiva do público sobre mim. Foi uma década de trabalho, de investimento nesse sentido. Não quis aquele typed cast, de ficar fechada num género. Foram anos de trabalho, de estudo, de recusas de alguns papéis e de gestão de carreira, para que fossem surgindo personagens diferentes. E este papel acho que é um resultado deste trabalho.

“Julgamento foi outro”, diz atriz.

Entre as diferentes identidades que Maria assumia e a Soraia Chaves a assumir diferentes papéis, encontramos algum elo de ligação?
A minha história de vida não tem nada a ver com a da Maria. Eu nunca tive o problema de não me sentir confortável com a minha identidade. A minha questão era a forma como os outros me viam, não a forma como me via a mim. Mas há uma costela enquanto mulher que tenho em comum com esta personagem. É o sentir que ainda existe o estigma, o preconceito, a desigualdade, que são lutas que a mulher também teve de ter ao longo de décadas, séculos. E que hoje em dia continua a ter de ter. Hoje em dia em Portugal continuamos a assistir a muito machismo, a muita violência em desconsideração para com a mulher. Isso é uma realidade. Nesse aspeto consigo identificar-me emocionalmente com as versões da Maria.

Sente que fica provada a sua dimensão enquanto atriz?
Não foi de todo o que me incentivou a fazer esta personagem. O que me entusiasmou foi ter a oportunidade de interpretar uma pessoa com uma luta tão profunda. É uma causa que me sensibiliza e que acho que deve ser discutida e alterada na mente das pessoas. É aquele ‘dar voz a esta mulher’. Mas não me foi para me provar enquanto atriz.

Curiosamente começou a carreira aos 15 anos, a vencer o Elite Model Look. Quando é que percebeu que era como atriz que queria fazer carreira?
Acho que sempre percebi mas a vida levou-me a ter primeiro uma carreira enquanto modelo. Sempre fui fascinada por cinema, sou cinéfila, mas o cinema sempre fez parte da minha vida, desde criança. Sempre tive isso presente mas só se concretizou com “O Crime do Padre Amaro”.

Como é que era em miúda?
Adorava fazer peças de teatro coma as minhas irmãs, que tenho muitas irmãs, e adorava brincar com elas a fazer teatrinhos. Adorava ler e recitar poesia. E adorava ver filmes.

Houve algum filme ou a atriz que a tivesse despertado para o cinema?
Várias em diferentes fases. Mas acho que a primeira foi a “Estrada de Fogo”, com a Diane Lane. Era um inspiração brutal, amava-a. E que filme maravilhoso. Depois mais tarde fiquei muito impressionada com as atrizes do Pedro Almodóvar.

Que tem muitas e fortes personagens femininas.
Sim, e são filmes muito dramáticos, muito intensos. E uma das atrizes que continua a ser para mim uma atriz-fetiche, porque também faz muito trabalho em comum com um realizador-fetiche para mim, é a Gena Rowlands, com o John Cassavetes.

A Generala” estreia em streaming. Já se rendeu ao streaming ou ainda prefere ir ao cinema?
Eu adoro ao cinema mas agora com a pandemia está complicado. Não é muito confortável ver um filme com máscara. Continuo a ir e tenho ido, mas confesso que tem sido com menos frequência. Mas sou absolutamente fã do ritual de ir ao cinema. No entanto, também já estou fã do streaming, vejo muita coisa, sobretudo documentários e séries. Para ver os filmes em casa tenho coleção de DVD’s e um projetor. Mas o streaming é fantástico. Mesmo agora como pesquisa vi coisas absolutamente incríveis, com temas sociais, temas ambientais, políticos.

A ficção continua a ter este papel de causar debate sobre temas que nem sempre falamos?
Acredito que sim. A ficção, quando não é baseada em histórias reais, pelo menos representa sentimentos, emoções, coisas reais, humanas. E o contar histórias é uma forma muito eficaz de tocar as pessoas Aproxima-as de determinados temas. Ao verem um filme a representar diferentes realidades acredito que isso é também uma forma de nos poder tocar e alterar a nossa visão. É um ampliar dessa visão. Para além do fator entretenimento, claro. A ficção tem esses dois lados e isso é fundamental. Bem, fundamental, não quero dizer que seja…

Como assim?
Quem sou eu para dizer o que é fundamental para os outros. Mas tem um papel importante. Num livro, num filme, numa série, temos ali horas em que nos transportamos para outro mundo e nos conseguimos libertar das nossas vidas. Vamos também para um mundo de sonho. A importância de mantermos a liberdade de pensamento, a imaginação de que falávamos antes, acordados, é mesmo muito saudável para a mente de uma pessoa.

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