Televisão

“Sort of”: a série focada numa pessoa não-binária está prestes a estrear na Fox Life

A protagonista da série de comédia ternurenta quebrou barreiras e não revelou aos pais o feito porque temia as suas reações.
Estreia a 4 de junho.

Os membros de comunidades antes afastadas das luzes da ribalta são cada vez mais os protagonistas de histórias que revelam as dificuldades de todos os que não se conformam com os padrões definidos pelo resto da sociedade. Graças a “Pose” vimos MJ Rodriguez a tornar-se na primeira mulher transgénero a receber um Globo de Ouro. Laverne Cox, outra mulher trans, também já foi premiada com um Emmy após realizar o documentário “The T Word”.

Não são cisgénero nem caucasianas, e os feitos por elas alcançados seriam inimagináveis apenas há umas décadas. A representatividade de minorias continua a ganhar força em Hollywood, e este tipo de histórias e papéis começam aos poucos a serem cada vez mais comuns. O mais recente exemplo é “Sort Of”, uma série original da HBO, que estreia na Fox Life este sábado, 4 de junho.

Tal como Rodriguez e Cox, também a estrela do projeto não se conforma com as normas impostas pela sociedade e, acima de tudo, não é branca. Bilal Baig é não-binária e de descendência paquistanesa. As suas raízes ajudarem-na a tornar-se na primeira pessoa queer, muçulmana e sul-asiática a protagonizar uma série no horário nobre do Canadá, país onde nasceu — e onde a série foi transmitida originalmente. A sua infância sempre foi muito protegida. Em Toronto, a sua vida não ultrapassava os limites dos bairros indiano e paquistanês. “Foram dessas zonas era a grande cidade má. Era o lugar onde poderíamos ser assassinados. Mas admito que ficava entusiasmada quando via a Torre CN. O cliché era verdade: a cidade encerrava muitas possibilidades. Desde que era muita jovem que tinha o pressentimento de que existiam mais coisas a acontecerem que os meus pais não revelavam. Estava curiosa.”

Na vida real, o background de Baig reflete uma vida constantemente em risco. “Sort Of” é uma série ternurenta, engraçada e humana, que não esquecee as raízes da protagonista. “Sempre consumi muitos conteúdos trans e não-binários com esperança de me ver retratada algures nos media e na arte. Penso que só começamos a correr riscos reais na criação artística quando sabemos que existem múltiplas representações de todas estas comunidades”, contou a jovem de 26 anos à “NBC News”.

Na série, encarna o papel de Sabi Mehboob, uma millenial de género fluído que tenta gerir várias identidades. É bartender num bar queer, filha mais nova de uma família paquistanesa e ama de uma família abastada. 

Durante a narrativa surge uma proposta irresistível: ir viver para Berlim, um paraíso para membros da comunidade LGBTQIA+. Recusa e decide continuar a ser ama. Quando a mãe dos miúdos tem um grave acidente, vemo-la a pensar sobre todos os aspetos da sua vida, partindo numa viagem interna que reflete sobre temas como raça, cultura, sexualidade e identidade de género. “Ela abdica apenas de um pouco de conforto na primeira temporada, e é isso que acaba por abrir um mar de possibilidade. Começa num sítio bastante protegido, mas as paredes vão todas abaixo em poucos segundos.” São as pequenas alterações que fazem com que a protagonista comece a gostar mais de si mesma.

O projeto afasta-se dos clichés que, mesmo sem nos apercebermos, vemos em séries e filmes com personagens trans. “Disseram-me que quando existe uma história com uma personagem trans, existe sempre um espelho. Vemo-los a olharem para si mesmos, a odiarem o corpo e a examinarem-se minuciosamente. Não há espelhos nesta série, e isso não foi propositado”, revela a protagonista. Em vez disso, a série tenta mostrar-nos as diferentes formas de como podemos “colaborar com outras pessoas e dispensar uma parte do controlo.” “Estamos a colocar algumas questões que nos fazem pensar na forma como partilhamos este mundo.”

Durante as gravações trabalhou com um elenco que descreve como de sonho. “Quando dizia que gostava de envolver determinada pessoa, isso simplesmente acontecia. É basicamente a minha lista de sonho de participações.”

Houve, claro, dificuldades no processo, especialmente quando , o criador, lhe apresentou a ideia. “Porque é que uma millenial, não-binária e castanha, que sente que está em transição, deveria fazer uma história que no é sobre si própria, contigo?”, interrogou-se. Filippo revela que também ele estava a passar por uma transição, após terminar um casamento de 15 anos. A confissão tocou Baig, que adorou ouvir uma pessoa cisgénero a usar a palavra “transição”.

Apesar das reservas, não conseguiu evitar sentir-se entusiasmada quando recebeu a proposta. “Quando o Fab me pediu para aparecer na televisão, disse-lhe que o alcance que aquilo poderia ter fez-me sentir poderosa. As pessoas das minhas comunidades têm tantas dificuldades em conseguir chegar aos palcos. Estar mesmo dentro das casa das pessoas e apresentar várias identidades diferentes enquanto lá estamos… havia algo muito empoderador nisso.”

Algumas questões têm de ser sempre abordadas numa série que tem a transsexualidade tão presente, e a família é uma delas. Ellora Patnaik é Raffo, a mãe muçulmana de Sabi. Sempre esteve alheia à transição da filha, mas quando se apercebe de todas as mudanças, tenta criar uma nova relação com ela. O que se segue é uma luta interna entre o desejo de se voltar a conectar com a filha e os valores com que sempre cresceu. “Nós queríamos uma relação no contexto da qual pudéssemos sentir que não existia nenhum vilão. Nem a Sabi nem a Ellora são más uma para a outra.” Em vez disso, tentam compreender-se. “Entre elas é sempre um passo à frente e dois atrás, até chegarem ao momento em que se conseguem entender mutuamente, apesar de tudo. E isso é entusiasmante para ela [Raffo]. Vemos uma mulher sul-asiática a examinar o que significa ser mãe e dedicar-se aos filhos — particularmente a Sabi — que não se encaixam na norma.”

Tal como Sabi, também Baig derrubou muros no que diz respeito à sua relação com os pais. Gravou a série sem lhes dar conhecimento, mas, em setembro de 2021, contou que iria introduzir o tema numa conversa com a família. “Não posso simplesmente chegar e dizer´, ‘olá mãe e pai, fiz um programa de televisão.’ Tenho de os deixar entrar em todas as facetas da minha vida. Temos paredes entre nós que funcionaram durante muitos anos, mas não vão funcionar durante muito mais”, confessa. “Escrevi-lhes uma carta sobre isto, e um amigo da escola traduziu-a para urdu [o idioma indo-ariano de influência persa, turca e árabe falado no sul da Ásia], então vão haverá falhas na comunicação. Também já avisei os meus irmãos, e disse-lhes ‘se isto gerar confusão, preciso que fiquem do meu lado.'”

As críticas são positivas, e no site Rotten Tomatoes conta com uma pontuação de 100 por cento. Uma segunda temporada já foi confirmada, mas ainda não foi adiantada uma data de estreia. Na Fox Life, estreia-se a 4 de junho.

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