Televisão

“Succession” acaba temporada com final épico — é uma das melhores séries de sempre

Tom surpreende quando os três irmãos se juntam contra o pai. O final deixa-nos desesperadamente ansiosos pela quarta temporada.
Tom foi um dos protagonistas do final.

Estamos em 2021 e todas as semanas estreiam séries de televisão que pretendem ser a “next big thing”, mas quase nenhuma tem qualidade suficiente para chegar a esse nível. Entre produções medíocres, razoáveis ou meramente boas, o mercado está claramente saturado — e a tendência parece apontar para o aumento no ritmo de lançamentos nos próximos anos.

No meio disto tudo, é importante não perdermos o foco. Desde o final de “A Guerra dos Tronos” que havia uma lacuna na televisão de grande “prestígio” e qualidade, mas na verdade ela já estava a ser preenchida por uma série que com o tempo se tem afirmado cada vez mais: “Succession”. A produção da HBO vem na linha de “Os Sopranos”, “The Wire” ou “Breaking Bad”, no sentido em que não é apenas muito boa, é verdadeiramente genial. 

A terceira temporada de “Succession” terminou com o nono episódio esta segunda-feira, 13 de dezembro. Os criadores conseguiram aquilo que se espera de um bom final de temporada: surpresa, choque, o clímax para uma série de enredos que já estavam a ser preparados. E, claro, foi eficaz a deixar os fãs ansiosos pela já anunciada quarta temporada.

Recapitulemos. O clã Roy está em Itália por causa do novo casamento da mãe de Kendall, Shiv e Roman. Como sempre nesta história, a cerimónia na Toscânia torna-se um anfiteatro natural para estas personagens hilariantemente sem escrúpulos orquestrarem jogos de poder, estratégias e tentativas de obtenção de informação. 

O que está em causa são as negociações do patriarca Logan Roy com Mattson, o líder de uma empresa gigante do streaming, que está interessado em juntar-se à Waystar, o império da família Roy, de uma forma ou outra. Até aqui, Roman foi uma figura central para convencer o peculiar Mattson a fazer uma ponte com a Waystar, que pode ser essencial para assegurar o futuro da empresa.

Mas quando Logan e Roman viajam até à casa paradisíaca de Mattson, o filho é rapidamente despachado pelo pai depois de Mattson propôr comprar a Waystar e assumir o controlo da empresa, fundindo-a com a sua.

Ao mesmo tempo, os irmãos Roy fazem uma intervenção a Kendall. O filho que começou a série como o aparente herdeiro do pai traiu a família no final da segunda temporada — embora tenha tido os seus motivos para tal — e começou a terceira em plena guerra aberta. Só que, chegados aqui, Kendall desvaneceu-se no seu círculo vicioso de depressão e já não é propriamente um inimigo nem um perigo a ter em conta.

Depois de quase se afogar no final do último episódio, os irmãos juntaram-no para lhe dizerem que gostam dele, apesar de tudo, e que ele não pode ter tendências suicidas. É desta forma que acaba por se reunir emocionalmente com os irmãos — embora também coincida com a inevitável explosão de Connor, o mais velho e mais desprezado dos irmãos, que acaba por ter um final feliz ao conseguir que Willa aceite casar consigo.

Ao mesmo tempo, Connor revela aos irmãos o possível plano do pai Logan para ter um novo filho — talvez com a assistente Kerry, com quem supostamente tem um caso extraconjugal, uma vez que, na verdade, já não mantém uma relação com Marcia. 

Quando os alarmes começam a soar na cabeça de Shiv e Roman — visto que estão a ouvir rumores de que os executivos da Waystar vieram para Itália para negociar e eles nem sequer foram avisados — aliam-se a Kendall. Juntos, têm uma “super maioria” no conselho de acionistas e podem travar decisões precipitadas do pai. Antes de Kendall estar sequer em condições de alinhar a estratégia com os irmãos, ele acaba por lhes revelar — num dos momentos mais emotivos de toda a série — que matou o empregado no casamento de Shiv. É um peso enorme que carrega desde então. E sabe genuinamente bem ver Shiv e Roman (especialmente Roman, com as suas piadas inacreditáveis) a consolá-lo.

Depois desta apoteose emocional, os três irmãos estão mais unidos do que nunca. Mesmo Roman, claramente aquele que tem mais dificuldades em enfrentar o pai, está determinado a travar a venda da Waystar à empresa de Mattson. Quando se preparam para aplicar o golpe e invadem a sala onde Logan e companhia tratam do processo, o patriarca volta a surpreendê-los e a mostrar que estava um passo à frente, qual raposa velha, que tem sempre vontade de acumular “um monte de milhares de milhões de dólares em cima do monte já existente”. Logan renegociou com a mãe dos irmãos os termos do divórcio, onde estava contratualizada a cláusula legal que lhes permitia, agora, travar o pai. 

Logan venceu, mais uma vez, os sucessores. Mas desta vez teve a ajuda de Tom, o seu genro, que momentos antes tinha falado em “vender a alma ao Diabo” quando convidou Greg para se juntar a ele e trocar o “meio interminável” pelo “fundo do topo”. No final, Tom aparece — aparentemente ingénuo — a consolar Shiv depois do que aconteceu. Mas todos sabemos que Tom, que estava há três temporadas a acumular rancores contra a mulher, decidiu fazer um golpe e escolher um lado. Depois de estar disposto a ir para a prisão, finalmente decidiu colocar-se à frente. E é ele a encarnação do “novo filho” que Logan estava a preparar. Resta saber como é que isso irá influenciar a quarta temporada, que talvez vá opor os filhos a Logan.

Todas estas personagens, por mais terríveis pessoas que sejam, são incrivelmente carismáticas. É impossível não ficarmos sentidos quando vemos Roman, fora de si e desesperado, a olhar para Gerri no final do episódio. O que vale é que “Succession” é completamente imprevisível. Por mais intrigas que existam, nada é definitivo. Nenhuma aliança é demasiado sólida para não ser quebrada, nenhuma rivalidade pode ser suficientemente grande quando do outro lado estiver o poder e o dinheiro. 

Na terceira temporada, “Succession” voltou a provar que tem um dos melhores argumentos na história da televisão. Toda a série é baseada em conversas entre personagens, normalmente fechadas numa sala — muitas vezes, pessoas que não se querem comprometer e que nunca dizem exatamente o que estão a pensar ou o que desejam. Criar todos estes diálogos com uma densidade notável de subtexto é obra, já para não falar de todas as one liners que merecem ficar imortalizadas. 

É preciso ainda destacar, além da banda sonora, a maravilhosa forma como “Succession” é gravada. Toda a série é filmada quase como se fosse um documentário, com câmaras a tremer, planos imperfeitos e um enorme foco na captação de reações ao que os outros estão a dizer. Num nível subconsciente, a forma como a série é filmada contribui extraordinariamente para nos deixar tão envolvidos — mesmo numa narrativa que prima pelo desconforto das situações. É um drama, é uma comédia, com um elenco perfeito, um texto inacreditável e uma direção de fotografia ousada que faz toda a diferença. Não há praticamente falhas em “Succession” — e é isso que a coloca no patamar do topo, ao lado das melhores séries de sempre.

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