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Sugestão NiT: “Succession” é a série mais divertida para ver no confinamento

É a única história no mundo que lhe explica porque é que a sífilis é o MySpace das doenças sexualmente transmissíveis. Convencido?
Se não viu, tem que ver

Prometiam-nos um drama épico, ao bom estilo daqueles que fizeram da HBO uma imagem de marca de séries de prestígio que marcam gerações. Um conflito pelo poder no seio de uma das mais poderosas famílias norte-americanas, magnatas da imprensa, terrivelmente ricos, excessivamente arrogantes. Acabaram por dar-nos aquela que é, talvez, a série mais hilariante e mais bem escrita dos últimos anos — e o antídoto perfeito para os dias difíceis que se adivinham.

Escrita por um quase desconhecido Jesse Armstrong e com um elenco com nomes seguros mas sem estrelas — exceção feita talvez a Brian Cox —, não deixava adivinhar o terramoto que estaria para chegar no ano da estreia, em 2018. Foi aí também que Jeremy Strong se lançou naquela que seria a fase mais excitante da carreira para se transformar, hoje, num dos atores mais valorizados e requisitados, no cinema e na televisão.

A surpresa no género replica-se também no elenco, onde algumas caras desconhecidas se vão revelando — e tornam o que era um conjunto de atores num grupo fantástico de personagens. Mas vamos ser honestos: os primeiros episódios não são fáceis de digerir.

Ver “Succession” é um pouco como cozinhar um pedaço de carne rija. Requer muita atenção e carinho, uma boa marinada e umas quantas horas de calor lentamente e cuidadosamente aplicado. No final, cada garfada é um orgasmo.

Não é fácil mastigar aquele grupo de personagens odiosas. São os feios, porcos e maus de Ettore Scola numa versão americanizada: ricos, egocêntricos e sem escrúpulos. Não mostram quaisquer qualidades que os tornem minimamente apetecíveis — não há por quem torcer e, ao fim de cada episódio, rezamos para que os egos inchados expludam e terminem de vez com o sofrimento.

Depois? Depois tudo se torna deliciosamente bom, tal como a suculenta e finalmente mastigável barriga de porco. Assim que deslindamos a receita e percebemos que, neste mundo de “Succession”, não há heróis e vilões, não há karmas, justiças ou redenções. Nem poderia ser de outra forma.

O mundo de “Succession” é a órbita de Logan Roy, velha raposa e líder da Waystar Royco, que detém parques de diversões, cruzeiros e um império da comunicação social, assente em canais conservadores e sensacionalistas — um paralelismo com a Fox e quem sabe Rupert Murdoch, numa semelhança que os argumentistas pouco se esforçam para esconder. Ou como é descrita na série: “WayStar Royco, fazemos discurso de ódio e montanhas-russas”.

À sua volta, sobrevivem pequenos planetas, sempre à procura da aprovação (e do dinheiro) do pai, num jogo de avanços e recuos. Na mente de Logan Roy, ele está “rodeado de cobras e idiotas”. Tudo é um jogo de interesses, por vezes oculto, outras vezes feito às claras — normalmente à volta de uma mesa, o cenário preferido de “Succession” para retratar um quadro perfeito de uma família disfuncional.

É nesses momentos que a caneta aguçada dos argumentistas brilha. É que o vernáculo nunca foi tão hilariante como aquele que sai das bocas deste bando de privilegiados. São as pequenas pinceladas de vulgaridade — e a concretização — que tornam “Succession” verdadeiramente divertida, sobretudo quando atiradas de pai para filho.

Cada ator encaixa na perfeição na personagem que lhe foi entregue. Jeremy Strong no papel do filho talentoso mas inseguro. Kieran Culkin (sim, o irmão de Macaulay) como o filho irresponsável. Matthew Macfayden, o lambe-botas profissional que quer casar com a filha de Logan. E finalmente o primo Greg, o comic relief que é alvo das piadas mais hilariantes da série. O elenco é mesmo um dos ingredientes secretos ou, como diria Tom Wamsgans: “You can’t make Tomlettes withour breaking some Greggs”.

A execução invulgar de “Successon” torna-a diferente de tudo o que temos visto na televisão. Os diálogos, próximos da nota 20 na escala de Aaron Sorkin — que recrutou Jeremy Strong para o seu “Os 7 de Chicago” —, são disparados a alta velocidade.

A eles junta-se a filmagem elétrica e inquieta, sempre em movimento, ora em zoom na expressão facial de umas personagens, ora a deslizar por um corredor ao passo rápido de um executivo. A combinação é perfeita — embora muitos se queixem dos enjoos provocados pelas mudanças bruscas.

A magia, porém, começa muito antes de qualquer insulto atirado entre os Roy. É logo no genérico que se revelam as pequenas nuances e segredos da série, como é aqui explicado ao pormenor pelo compositor Nicholas Britell, que assina as bandas sonoras de produções como “A Grande Aposta”, “The King” ou “Moonlight”.

Este não é, felizmente, um dos casos em que a qualidade não é reconhecida. “Succession” teve direito à sua merecida quota nos Emmys e nos Globos de Ouro. A escrita de Jesse Armstrong recebeu um Emmy em 2019, mas em 2020 foi o ano da consagração, com prémios para realização, interpretação de Jeremy Strong como melhor ator num drama, novamente para a escrita e também para o elenco. A coroar a cerimónia, “Succession” conquistou o título de melhor série dramática: vence no território dos outros e ainda se mantém como a melhor comédia negra da televisão.

Com duas temporadas disponíveis na HBO Portugal (e uma terceira a caminho, ainda não se sabe quando) e 20 episódios para ver num ápice, é provavelmente a melhor sugestão que podemos dar para animar os duros dias de confinamento que se avizinham. Só garantimos uma coisa: não vai conseguir travar as gargalhadas. Pelo caminho siga o conselho de Logan Roy e mantenha o riso a um volume normal. Afinal, os seus pais não o foram buscar a uma quinta de hienas.

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