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Televisão

Suicídio, depressões e homofobia. Wentworth Miller diz que chega de “Prison Break”

O protagonista está farto de fazer papéis heterossexuais, depois de uma vida a sofrer e a esconder a orientação sexual.
Para ele, não há mais Michael Scofield

O regresso de “Prison Break” quase dez anos depois da última temporada provocou uma explosão de nostalgia. E por breves instantes, Dominic Purcell diminuiu novamente o batimento cardíaco dos fãs, quando em setembro deu a entender que ainda havia espaço para uma sexta temporada. Depois Wentworth Miller virou o tabuleiro e arruinou todos os planos.

Numa publicação partilhada este domingo, 8 de novembro, o protagonista revelou que o seu papel como Michael Scofield está terminado. A série poderá até ter direito a mais episódios, mas aos 48 anos, para ele, já chega. Ponto final.

A revelação surgiu de forma surpreendente, no meio de um texto onde Miller criticava alguns comentários maldosos dos seus seguidores — e no lançava a possibilidade bem real de desativar a possibilidade de comentarem as suas publicações.

“E já agora… Estou fora de ‘Prison Break’. Oficialmente”, escreveu, antes de tentar justificar-se. “Não por causa do ruído nas redes sociais (embora isso tenha ajudado a centrar o assunto). Só não quero interpretar mais personagens heterossexuais. As suas histórias já foram contadas por muitas vezes.”

Já a prever os lamentos de milhares de fãs, voltou a frisar: “Portanto, acabou-se o Michael. E se eras um fã da série à espera de novas temporadas, eu compreendo a decepção. Lamento imenso. Se estás irritado porque te apaixonaste por um heterossexual ficcional interpretado por um gay, bem, esse é um problema teu”.

A reação ácida do ator de 48 anos levou alguns membros do elenco a saltarem em sua defesa. “Para que todos os fãs saibam: o elenco de ‘Prison Break’ é um sítio queer friendly. Mantemo-nos unidos entre amigos e família da comunidade LGBTQ+ (…) e se isso é um problema para alguém, para citar um bom homem, ‘isso é um problema vosso’”, escreveu Sarah Wayne Callies, que interpretou Sara Tancredi na série.

A surpreendente saída do armário de Miller provocou reações pouco simpáticas de uma franja de fãs de “Prison Break”. E nas redes sociais, a presença de comentários maldosos era uma constante. Algo que durante muito tempo o ator escondeu e guardou para si, de forma a evitar os problemas que haveria de ter que enfrentar.

Uma vida dupla

Os rumores começaram a surgir de forma consistente poucos anos depois de Wentworth Miller começar a conquistar papéis de protagonista. Em 2007, já em plena euforia de “Prison Break”, os tablóides anunciavam que mantinha uma relação com Luke MacFarlane.

Questionado sobre o tema pela versão alemã da revista “InStyle”, o ator foi perentório: “Não sou gay, mas esse rumor é invulnerável”.

“Gostava de ter uma namorada, uma família. Mas ainda não encontrei a pessoa certa. Por enquanto estou focado no meu trabalho. Tive que esperar tanto tempo por esta chance que quero saborear cada segundo no set, mesmo que isso me obrigue a gravar 14 horas por dia”, explicou.

Os rumores continuaram a circular. Miller nunca mais quis falar do assunto. Até 2013, quando nada o fazia prever.

Numa carta publicada no site da GLAAD — uma organização não-governamental norte-americana que promove os direitos da comunicade LGBT —, Miller dirigiu-se diretamente à diretora do Festival Internacional de Cinema de São Petesburgo, que o pretendia receber como convidado de honra. 

“Como alguém que adorou visitar a Rússia (…) dar-me-ia imenso prazer poder responder-lhe que aceito [o convite]. Contudo, como homem gay, tenho que o rejeitar”, escreveu o ator, que justificou a opção com os comportamentos discriminatórios do governo russo contra a comunidade homossexual.

E acrescentou: “Não posso em boa consciência participar num evento comemorativo, cujo anfitrião é um país no qual as pessoas como eu vêem sistematicamente negados os seus direitos básicos para viver e amar abertamente.”

De repente, Miller podia discutir o tema abertamente. Fê-lo pouco tempo depois da publicação da carta, para revelar o lado mais sombrio daquele que era um dos atores do momento na televisão. Afinal, “Prison Break” era um dos maiores sucessos na explosão da era dourada da TV.

Por detrás do ator, havia um fervoroso ativista que podia agora tomar a sua posição pública. Miller aproveitou um discurso num jantar de beneficiência para falar sobre os momentos negros que viveu por culpa da sua orientação sexual — ou melhor, por causa da falta de aceitação de quem estava à sua volta.

“A primeira vez que me tentei matar tinha 15 anos. Esperei que a minha família saísse no fim de semana, fiquei sozinho em casa e engoli uma caixa de comprimidos”, confessou.

Tentou suicidar-se por várias vezes quando era mais novo

A tentativa não foi bem-sucedida e Miller fez o que estava habituado. Voltou à rotina com a normalidade possível: “Não me lembro o que aconteceu nos dias seguintes, mas sei que na segunda-feira seguinte estava no autocarro rumo à escola, a fazer de conta que tudo estava bem.”

Embora muitas tentativas sejam apenas uma tentativa de chamar à atenção, Miller frisa que não foi esse o seu caso.

“Não foi um grito de ajuda porque eu não contei nada a ninguém. É um grito de ajuda quando acreditas que há alguém que te possa ajudar. Eu não tinha ninguém que o pudesse fazer. Eu queria sair. Queria morrer. Aos 15 anos”.

As dificuldades que enfrentou durante a adolescência inspiraram-no a finalmente assumir a homossexualidade e a lutar para se tornar num símbolo de luta e de esperança. O herói que nunca teve enquanto cresceu, mas que quer ser para os miúdos na mesma situação que ele enfrentou.

“Enquanto miúdo, era um alvo. Tinha que andar direito, falar direito, mexer o pulso da forma correta. Todos os dias eram um teste e havia mil e uma maneiras de chumbar. Mil e uma formas de te caracterizares a ti próprio. De não viver de acordo com as exigências que alguém criou como aceitáveis. E quando falhas o teste, o que nesse caso era uma certeza, há um preço a pagar: emocional, psicológico, físico. E como muitos de vós, eu paguei-o. Mais do que uma vez”, explicou durante o discurso.

Esta foi a primeira vez mas não a última que o ator abordaria temas relacionados com as suas lutas internas. Quando em 2010 uma foto tirada por um paparazzi o mostrava com um visível excesso de peso, a Internet divertiu-se à grande, como é habitual. Seis anos depois, Miller reagiu.

“Um dia saí para passear em Los Angeles com um amigo e cruzamo-nos com uma equipa de filmagem que estava a gravar um reality show. Sem saber, os paparazzi que circulavam por ali tiraram uma foto e publicaram-nas lado a lado com fotos minhas de há vários anos, noutra altura da minha carreira, com títulos como ‘De Bonzão a Bolachudo'”, escreveu nas redes sociais.

Revelou que encontrou na comida o conforto para o ajudar a ultrapassar uma série de depressões e pensamentos suicidas. A fotografia tornou tudo pior: “A primeira vez que vi este meme nas redes, admito que fiquei sem respiração. Mas como tudo na vida, há que atribuir significados às coisas. E o que atribuo a esta imagem é a minha força. A cura, a capacidade de perdoar. Minha e dos outros.”

Hoje, a luta de Miller continua: a interna e a de ativista, para servir de exemplo a todos os que sofrem os mesmos problemas. A solução, explica, passa por olhar para os problemas de outra forma: “Agora quando vejo essa imagem minha com a T-shirt vermelha e um sorriso na cara, recordo-me da minha luta. Da resistência e da perseverança perante todos aqueles demónios”.

A imagem que fez sofrer Miller

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