Televisão

Tabu: porque é que a vida amorosa de Marco Paulo foi ocultada da série da SIC?

A NiT falou com o realizador, Manuel Pureza, sobre a pergunta que todos fazem: “Para todas as outras coisas ele abre a porta, para essa não abre".
Diogo Martins é um dos atores que encarna Marco Paulo

Ao segundo dia após a estreia, Manuel Pureza vai fazendo as rondas habituais pela televisão. O realizador de 38 anos viu a sua minissérie “Marco Paulo” ser transmitida na noite de domingo, 1 de janeiro, para uma audiência estrondosa SIC.

“No arranque da série havia um milhão de pessoas a ver. É a primeira série, ficção que não uma novela, que arranca a ganhar a um reality show em estreia. Isto é histórico em termos de números”, conta à NiT pelo telefone, poucos minutos depois de uma visita caseira ao grande protagonista desta história, Marco Paulo, a quem atribui todo o mérito. “Isto não se deve à qualidade da série, mas à figura que está por detrás disto.”

Pureza, que realizou também um dos sucessos recentes da televisão, “Pôr do Sol”, na RTP, repete por diversas vezes a palavra “rigor”. Um facto que não é coincidência, sobretudo para quem assistiu às mais de duas horas da narrativa que agarra no pequeno Joãozinho, na vila alentejana de Mourão, e o acompanha até ao estrelato sob o nome de Marco Paulo. Pelo caminho, acaba sempre por ficar uma ou outra incógnita, até se aterrar numa certeza: a história não guardou nenhuma surpresa sobre a vida do cantor romântico, nem desvendou aquele que é também um dos mistérios que põe os fãs a indagar, o da sua intimidade na vida amorosa.

“Há sempre uma nuvem que paira sobre as grandes figuras que não falam da sua intimidade — e sobre a qual estão no direito total de não falar —, mas essa nuvem parte daquela máxima de que quem conta um conto, acrescenta um ponto”, reflete o realizador. “Por mais suspeitas que as pessoas tenham, ele não fala sobre isso. Eu não falei com ele sobre isso. Também me parece que mais ninguém chegou a essa questão porque não é confortável, sobretudo para uma pessoa que faz questão de não falar.“

Para Manuel Pureza, para desenhar um filme biográfico “era fundamental” falar sobre isso, mas esbarrou precisamente na fonte. “Para todas as outras coisas ele abre a porta, para essa não abre. E isso está na cabeça das pessoas que veem a série e que são da minha geração, que não se fala desse tema. Esse é o lado viperino das biopics, que é o das pessoas dizerem: ‘então não se fala daquele episódio?”.

Retratar facetas e episódios da vida de Marco Paulo sem as suas próprias revelações seria “entrar em terreno muito pantanoso”. Mas esta não foi a única omissão do cantor que esteve envolvido na produção da minissérie.

“A história a que nós chegámos, sobretudo a Vera [Sacramento], a Susana [Tavares] e a Sara [Rodi], as argumentistas, é a história possível tendo em conta todas as condicionantes que foram impostas na sua própria redação”. A narrativa assentou não só na biografia autorizada do cantor, mas também em muitas horas de conversa com o próprio e também de relatos e entrevistas de pessoas que o conhecem e com quem priva e privou. Contudo, Marco Paulo foi dono e senhor da narrativa.

“É uma figura que conta a sua história, nos moldes em que não é fantasioso, mas que respeita aqueles arquétipos da história de encantar: o menino pobre que não tinha nada, que tinha uma voz de anjo e que chegou ao sonho”. O realizador acrescenta: “Isto está tudo muito bem, mas e o contraditório? Quantos dias é que o Marco Paulo teve dúvidas sobre se cantava bem? Nós não sabemos isso, nunca soubemos, nunca nos foi permitido trabalhar sobre isso.”

A minissérie percorre, em quase três horas, todo o percurso de vida do cantor, da infância no Alentejo ao descobrir da sua voz. À relutância do pai em permitir que seguisse o seu talento, à sua descoberta pelos produtores musicais e ao sucesso comercial. Numa fase mais posterior, é também retratada a sua luta contra o cancro e a fé que o move.

“O conflito [da personagem] nunca é interior. Mas volto a dizer: isto foi o melhor argumento a que conseguimos chegar. E é bom nesse sentido, em que temos uma pessoa que, ao contar a sua história, diz que o destino estava traçado”, confessa. “É difícil dares uma dimensão dramatúrgica a uma história em que parece que, de facto, ele não tem dúvidas, não tem hesitações.”

“Ele não deixa — e isso é muito característico nele — que haja rigor, no sentido de se saber o que é que aconteceu exatamente. Qual foi o dia em que ele chegou a casa e quis desistir. Isso não acontece, não existe na cabeça dele”, diz. A equipa de argumentistas “correu alguns riscos” ao assumir certas narrativas porque, explica, “não são zonas de conforto para alguém que se diz predestinado a ser um cantor”.

“[A fonte principal] foi sempre o Marco Paulo, mas as argumentistas foram falar com o produtor de música, Mário Martins”, assinala sobre as tentativas de encontrar mais abordagens à história. “O Marco Paulo absorve por completo a hipótese de tu falares desses pontos. As regras do jogo são essas. Não é uma coisa má. É o que é.”

A verdade é que após a estreia, Marco Paulo falou mesmo e aproveitou para deixar os seus reparos à série — apesar de ter, segundo o realizador, acompanhado a produção e ter mesmo recebido os guiões. Além de ter assinalado que gostaria de ter “visto mais cenas de estrada e de concertos”, o artista de 77 anos elogiou a prestação de Fernando Luís, que assume o papel de um Marco Paulo mais velho, embora note que “fisicamente” não se reviu no ator escolhido.

A escolha do elenco foi algo em que Manuel Pureza trabalhou igualmente com algumas restrições. Como produção da SIC, naturalmente que se exigia que entrassem nela algumas caras da estação. “Eu enquanto realizador jamais gosto de me sentir um tarefeiro, gosto de escolher com quem trabalho, mas isto é um jogo de cedências. Nuns fiz muito finca pé, noutros fiz menos.”

Fernando Luís foi um desses atores que o realizador fazia questão de ter no elenco, não pelas parecenças físicas, que são poucas, mas por ser “um dos melhores atores da nossa praça”.

“Sim, não é muito parecido com o Marco Paulo, mas qual é a figura de 50, 60 anos que tenha reconhecimento do público e que seja parecido?”, questiona. “Além do mais, falamos do Marco Paulo, que é uma pessoa que gosta muito da sua própria figura. Costumo dizer que mesmo que [o ator] fosse o Tom Cruise banhado a ouro, o Marco Paulo ia achar que não era parecido com ele (risos). É uma especificidade de quem é. Digo isto com o máximo dos carinhos.”

Questionado sobre se “Marco Paulo” conta a história tal como o cantor quereria que fosse contada, o realizador contorna o tema. “Não é tanto a história que ele queria contar, mas a história que tinha que respeitar os três tipos de expetativas que havia em relação à série: a nossa, da equipa de escrita, realização e produção; as da SIC, enquanto cliente e canal; e as expetativas do Marco, que inicialmente pensava que isto ia ser uma telenovela.”

“Isto levou-nos a ter muito cuidado na abordagem. Se é a série mais completa de todas? Não. É uma série à qual quisemos dar uma onda muito groovy, mostrar o Marco Paulo como uma estrela pop. Quisemos revisitar as memórias todas, misturar fotografias reais com imagens ficcionadas. Essa onda.”

Uma onda que acabava por esbarrar nas “zonas vermelhas”. “Há coisas sobre as quais ele não fala. Tirando pessoas que tenham algumas provas, são tudo conjeturas. Não fala da sua intimidade, das suas relações pessoais, da sua relação familiar com o afilhado”, justifica. “Tentamos sempre pisar terreno sólido, sabermos que as coisas que íamos contar se tinham passado dessa forma, ou que pelo menos tínhamos algumas partes que nos comprovavam que isso tinha acontecido, além do próprio.”

A série, embora não traga algumas revelações bombásticas, inclui alguns episódios caricatos, da bala que o atingiu na cabeça na Guiné, à fã que entrou no seu quarto de hotel para lhe roubar a água do banho, ou mesmo o dia em que, por mero acaso, se criou o look dos caracóis.

“Ele nunca — e isso é uma característica dele como é de muitas estrelas — pode ficar mal na fotografia. Isso faz parte de uma coisa que ele protegeu ao longo de 77 anos, que é a figura do cantor popular que é amado por milhões e milhões.”

Apesar de tudo, confirma que as reações têm sido muito boas. A mais engraçada viu-a no Twitter. “Alguém escreveu: ‘não posso acreditar que comecei o ano a chorar e ainda por cima com uma série sobre o Marco Paulo’ (risos).” Isto apesar de gostar pouco de consensos.

“A figura do Marco Paulo é tão querida quanto é desprezada. Há pessoas que não gostam mesmo dele, há pessoas que o adoram acima de tudo. Suscita todo o tipo de reações”, sublinha sobre a série que diz estar a navegar a onda recente dos filmes biográficos que começou com “Variações” de João Maia, embora tenha algumas reservas quanto ao género.

“As biopics são um presente envenenado porque, regra geral, a narrativa fica prisioneira dos factos. Confunde-se o filme biográfico, na sua génese e execução, com uma aula de história — que não tem que o ser”, afirma.

Na sua opinião, não existe em Portugal o hábito do filme biográfico contemporâneo. Aposta-se quase sempre no retrato de figuras que já morreram. “Esta nova onda revival da cultura pop contemporânea foi à procura de figuras, de grupos como as Doce. Mas ainda não se fez nada sobre o Jorge Palma, sobre o Reininho, o Rui Veloso. Porquê?”

Também por isso, acredita que “Marco Paulo” é “uma homenagem da SIC a um artista ainda vivo”, o que é “uma coisa inédita”. Só que estas homenagens em vida nem sempre são pacíficas.

“É um risco enorme porque há um confronto com uma representação de nós próprios. Imagino que não seja pacífico, sobretudo para o Marco Paulo. Presumo que tenha havido ali zonas que provavelmente não tenha gostado, porque não estamos habituados a ser representados por outra pessoa”, nota. “Ainda por cima o Marco Paulo é uma pessoa que gosta imenso de si próprio. Para o Marco Paulo, a única pessoa bonita que existe no mundo é ele próprio.”

Terminada a viagem da produção e lançada a criação ao mundo, agora que se vive a ressaca, impunha-se a pergunta ao criador: vendo o filme, ficamos a conhecer Marco Paulo? Após um riso hesitante, Pureza não tem dúvidas. “Eu acho que sim (…) Conhecemos Marco Paulo no limite daquilo que o Marco Paulo deixa que se conheça sobre ele.”

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