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Tentei seguir todas as recomendações da DGS no Natal (e foi impossível)

O cronista da NiT Miguel Lambertini deixou-se contagiar por esta época peculiar, que foi ainda mais bizarra este ano.
O Natal nunca é assim tão arrumadinho.

O Natal é um tempo de paz, esperança e alegria. Quem disse isto, de certeza que nunca teve de organizar uma consoada em sua casa e é daquelas pessoas que celebra esta época num hotel. Não é o meu caso.

Normalmente fazemos a consoada em nossa casa, ou na da minha irmã, para evitar que os mais pequenos tenham de sair à noite e fiquem com ainda mais ranhoca e expectoração da que já têm nesta altura. Mas este ano regressei a casa dos meus pais, para um verdadeiro clássico de Natal, sendo que desta vez foi uma versão alternativa, género episódio especial de “Black Mirror”, cuja sinopse seria: “Depois de um vírus ignoto se ter espalhado pelo globo com consequências terríveis, o governo impôs restrições à liberdade de circulação e o presidente anunciou que era preciso repensar o Natal.”

Na verdade, há muitos anos que o Natal precisa de ser repensado, por várias razões, sendo que a mais importante é perceber porque é que não há bolo-rei sem frutas cristalizadas (ou frutos secos). Tiraram a fava e aquele brinde em metal porque, ao que parece, havia pessoas que partiam os dentes ou morriam engasgadas. Sim, senhor, até compreendo, está tudo a conviver alegremente à volta da mesa e de repente a tia Júlia começa a ficar roxa e cai de cabeça na tigela do arroz doce. É chato, principalmente porque ainda ninguém se tinha servido, mas pessoalmente prefiro mil vezes engolir um sininho de alumínio do que de uma casca de figo gelatinosa com aspeto de que acabou de ser cuspida pelo camelo do Belchior. Mas, “a tradição já não é o que era”, apregoava o slogan de um célebre réclame — como dizia o meu avô — que fazia publicidade a um whisky e que era, curiosamente, uma das tradições do Natal.

Todos os anos entre os anúncios do Ambrósio no Bentley da senhora ou do coelhinho da Nestlé que levava o Pai Natal e o palhaço no comboio ao circo, éramos também nós transportados para o mundo de sedução e desejo dos whiskies escoceses.

De tal forma, que quando tinha dez anos, vesti uma saia da farda da minha prima para tentar ficar igual ao William Lawson, e depois andei pela casa a gritar “no rules, great scotch!”. Atendendo ao contexto atípico que vivemos parece-me que este ano o mais simples teria sido adotar uma das frases favoritas dos portugueses para não terem de se chatear, que é “isto agora mete-se o Natal…” e pronto, adiávamos as festas lá para julho ou agosto, ou Setembro, pronto, porque entretanto metem-se as férias grandes…

Talvez tenha sido isto que a DGS, pela voz do Dr. Rui Portugal, pretendia quando sugeriu às famílias que usassem a criatividade para evitar a propagação do vírus durante o Natal. Como eu gosto de seguir bons conselhos, analisei cada uma das recomendações com a maior atenção e tentei escabichá-las ao lume do meu bico de bunsen. Aqui ficam as que eu e a minha família conseguimos colocar em prática, dentro da nossa limitada criatividade.

Transformar a ceia de Natal em pequeno almoço

“Não é obrigatório que o Natal se comemore, neste país, na ceia de Natal. Pode comemorar-se, por um momento de exceção, por exemplo, num pequeno-almoço…” Claro que pode, aliás, isto sim é levar a sério a máxima de que o Natal é quando um homem quiser. É uma boa ideia, sim senhor, mas connosco não funcionou porque, parecendo que não, comer croissants recheados com bacalhau, iogurte com pedaços de peru e torradas com molho de cabrito acaba por ser indigesto. Uma coisa é comer na ceia de Natal dois quilos de queijo da Serra, uma pata de presunto, um contentor de frutos secos, três caixas de After Eight e cinquenta e duas fatias douradas, outra coisa é fazê-lo às dez da manhã.

Visitas rápidas no quintal ou no patamar das escadas do prédio

Tentámos também mas foi um plano que acabou por sair gorado. Primeiro porque nenhum de nós tem quintal e depois porque os vizinhos do quarto esquerdo, logo que ouviram as notícias, apoderaram-se do patamar do nosso prédio e como é uma família super bem e mai não sei quê, aquilo foi um corrupio de gente sempre a entrar e a sair, um caos por causa dos motoristas em segunda fila, tudo a cantar imensas músicas ao menino Jesus. Sim, porque pedir presentes ao Pai Natal é super piroso, oiça, o que seria.

Troca simbólica de presentes, como uma compota que um fez

Percebo a intenção e até fui à Internet procurar uma receita de compota, mas quando vi que o tempo de confeção era de 45 minutos, desisti. Eu adoro cozinhar, mas o tempo que demora a fazer uma compota de maçã vermelha e canela dá para ir ao El Corte Inglés, ficar 20 minutos à espera do elevador e ainda sobra tempo para comprar presentes para a família toda.

Utilização moderada de substâncias que possam trazer maior afetividades

Esta posso atestar que conseguimos cumprir de forma escrupulosa. Aliás, não só moderada como totalmente excluída. Claro que foi só porque normalmente quem traz os coscorões de canábis e as azevias de ecstasy é a tia avó Anelise, que vive na Holanda, mas infelizmente este ano por causa da Covid a senhora não pôde juntar-se a nós. Lá está… a tradição já não é o que era.

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