Televisão

Teresa Guilherme: “O primeiro ‘Big Brother’ foi uma descoberta, o primeiro amor”

Das peripécias atrás das câmaras ao novo livro, Teresa Guilherme falou com a NiT sobre o que já lá vai e o que aí vem.
À conversa com Teresa Guilherme.

Teresa Guilherme tinha 35 anos quando, quase por acaso, se viu no papel de apresentadora. O momento foi para a própria e para a televisão portuguesa, que se habituou a acompanhar o seu estilo inconfundível em concursos e reality-shows que dominaram audiências e fizeram correr muita tinta.

Numa altura em que lança “O Avesso do Direto”, livro onde conta histórias de bastidores de anos e anos de televisão, a NiT falou com a apresentadora sobre a carreira e os projetos em que está envolvida.

O que é que a Teresa teria aconselhada a si própria quando começou a apresentar?
[risos] Não sei. Naquela altura havia aulas em que nos explicavam uma série de coisas na RTP mas eu não comecei como os outros, comecei tarde, aos 35 anos, e de cabeça. Lembro-me vagamente de uma ou outra noção. O que diria agora era só: acreditar mais em mim própria. O que digo às pessoas é que têm de experimentar. Saber é uma coisa, saber fazer é outra.

A Teresa produtora ainda leva as mãos à cabeça com a Teresa apresentadora ou geralmente estão na mesma página?
É engraçado que sempre usei as duas Teresas. É curioso que eu comecei como produtora e dizia a mim própria que apresentar era hobby. Hoje em dia, depois destes anos todos, já deixei a produção e a apresentadora é uma entidade por si própria. Mas eu apresentadora sabia bem dos produtos que eu, produtora, fiz.

Criou um estilo próprio.
Sim, trazia uma diferença, um estilo, e acho que o que faz um bom apresentador é o que o diferencia, e depois com o tempo o tornar-se mais seguro. Nunca tive o medo de arriscar e isso deu-me um à vontade grande.

Há estilos, mas o que é obrigatório para fazer um bom comunicador?
Tem que se estar bem preparado, saber exatamente o que se quer e para quem se está a falar. Às vezes as pessoas dizem que querem ser comunicadores ou apresentadores por que gostam de falar. E eu lá explico que comunicar não é saber falar, é falar e ser ouvido. O que recomendo é que se trabalhe em tudo o que dependa de nós. É ter um bom guião, uma frase boa de abertura para ultrapassar o nervoso inicial e uma boa frase para fechar, que às vezes as pessoas estão bem mas enrolam-se porque não sabem como fechar. Isso é melhor levar já preparado. E não tenham medo de levar notas na mão.

Uma cábula…
Exato. Mas cábula tem uma conotação negativa, notas não. Mas quando se escreve é organizar as ideias, ser objetivo, prático e falar fácil. A comunicação oral é como a escrita, tem pontuação. Respiramos. Isso facilita. E há que afastar os diabinhos que nos perseguem, aqueles “tu não és capaz’”. É o contrário. É a pessoa ir preparada, sentir-se bem, poderosa, que isso é o que se pode controlar.

A Teresa diz no livro que os imprevistos que prefere são os preparados.
Tenho alunos que me dizem, ‘”então se eu me preparar muito não perco naturalidade?” Não, é o contrário. É ter um chão onde conseguimos andar para todo o lado. Sem isso não se encontram novos caminhos. A segurança e a confiança no que temos é muito importante.

A Teresa teve olho para concorrentes que ficaram na história dos reality show, como o Zé Maria e a Fanny.
O Zé Maria não tanto, ele não era para entrar e a primeira vez que tomei contacto a sério foi para aí dois dias antes de começar o programa. Com a Fanny, na altura da “Casa dos Segredos”, já tinha algum voto nos castings e vi nela uma pessoa única, uma figura engraçada, diferente, que trazia outra abordagem. Ela não era o que prometia, era ainda mais do que prometia. Temos agora a Sofia, que é super conciliadora, é paz e amor, mas quando foi escolhida apresentava-se como aventureira, que viajou o mundo todo sozinha. O que é que isto quer dizer? Às vezes a porta fecha-se e abre-se um novo concorrente. Sob pressão, com gente que não são os amigos, as pessoas adaptam-se e há surpresas. A Fanny não, foi o que esperávamos e ainda mais.

Ainda vos tentam enganar muito nos castings?
Quase sempre há tentativas. Os do “ah vou fazer isto, vou fazer aquilo”. Há muitas perguntas, eles são bastante analisados, mas nalguns casos nem sei se nos estão a tentar enganar ou a enganar a eles próprios. Mas só os conhecemos a sério quando a porta fecha.

Quando os escolhem já adivinham que “este vai arranjar problemas” ou “aqueles ainda dão em namoro”?
Não é por aí. Nos reality show o que se faz é escolher pessoas parecidas: quem pode conversar com quem, quem é que é parecido com quem. O que não se pode escolher é concorrentes que não falem uns com os outros. Ou são incomodativos ou são amigos. Não podem é ser nadas. E também não escolhemos para se apaixonarem. Nunca se sabe o que vão fazer. O que mais acontece é sermos surpreendidos: “olha, não estava nada à espera e afinal”.

Hoje em dia falamos de uma geração de concorrentes que já cresceu a conhecer os programas. Ainda há espaço para a ingenuidade?
Não acho que tenha tanto a ver. Acho que nestes programas, e nesta casa especialmente, as câmaras estão todas à vista. No tempo dos primeiros “Big Brother” e “Casa dos Segredos” a maior parte das câmaras estavam escondidas. Embora as pessoas soubessem que as câmaras lá estavam, não estavam à vista. Estes concorrentes têm as câmaras à vista, nunca perdem completamente essa noção. O que acho que mudou e nem sempre ajuda é isso.

Esqueciam mais as câmaras.
Acabavam por descontrair mais.

O primeiro Big Brother foi há 20 anos.

Queria pedir-lhe ajuda com uma expressão que se ouve muito: o que é isto de o concorrente estar “a jogar o jogo”?
É normalmente quando a gente não sabe o que estão a fazer, acho eu. Não se percebe, estão a jogar o jogo [risos]. Mas isto envolve pessoas. Às vezes eles acham que estão a jogar um jogo e nós concordamos quando não percebemos o que estão a tentar fazer. Nalguns casos estes concorrentes têm uma estratégia, mas outros vê-se que estão só a viver.

Tem saudades do primeiro “Big Brother”?
Eu não sou muito uma pessoa de saudades, mas tenho saudades do meu sentimento em relação ao primeiro programa porque foi tudo uma descoberta, um primeiro amor. Lembro-me da primeira reação extraordinária que tive, de ter acabado de começar e dois dias depois estava num engarrafamento e tinha pessoas nos carros ao lado a gritar “Zé Maria!”. Na altura a SIC tinha um share imenso, muito maior do que o da TVI, e isso foi uma reviravolta surpreendente. Esses primeiros quatro meses estão assim sempre numa espécie de limbo de quando estamos apaixonados. Depois já olhamos para as coisas com olhos diferentes. Essa ingenuidade também passa, como as paixões, mas passei a ver o programa com olhos mais reais. Mas foi uma grande descoberta para toda a gente.

Como vê a evolução do reality show? Mudou muita coisa?
Mudou em relação àquela época mas naquela época não havia redes sociais nem nada. É como hoje em dia imaginarmos como era viver sem telemóvel.

Já não sabemos [risos].
Pois. Eu vivi mais tempo com telefone fixo e sem telemóvel e já não me lembro. E agora também já não nos lembramos como é viver sem YouTube e redes sociais. E isso veio mudar tudo. Esta ideia de espreitar pela fechadura, de vermos os outros numa casa, era uma marotice e hoje em dia é algo mais permitido, o que muda a forma como olhamos para os reality show. O que não quer dizer que deixe de ter aquele atrativo de aqueles concorrentes, que estão lá a toda a hora e a todo o momento, serem uma espécie de companhia, e de as pessoas se reverem mais numas do que noutras. O que faz o sucesso de um formato? É as pessoas identificarem-se ou não, e terem uma opinião, seja contra ou a favor. Quando há isso, já chamou a atenção, está a comunicação estabelecida.

Continua a querer saber quem é expulso na mesma altura que o público?
Sempre, até porque essas coisas estão sempre a mudar. Às vezes há empates. Já vi pessoas que mal estavam votadas e que ao fim de duas horas de uma gala eram expulsas. As pessoas dizem uma coisa, corre mal, e saem. E para mim é mais emocionante tirar do envelope e saber.

Costuma ter surpresas.
Sim, sim. Lembro-me de que quando ganhou a Elisabete, o Bruno Savate era um candidato muito forte e o primeiro envelope que tirou está ele em terceiro. Lembro-me de ter ficado com um “o quê!?” Felizmente logo depois fomos para intervalo. Na altura também era mais normal ganharem os homens, agora, e ainda bem, já é mais fácil ganhar uma mulher. Mas ai ganhou quem eu achava que não ia ganhar.

Na rua não se metem consigo a sugerir que favoreça um ou outro concorrente?
As pessoas só fazem isso nas redes sociais. As pessoas quando se aproximam geralmente são sempre muito simpáticas. Agora há quem ache que eu favoreço a Carina mas já aprendi há muito tempo que quando um apresentador mostra que simpatiza com um mais do que com o outro pode correr mal.

No livro conta que na véspera de estrear o “Não se Esqueça da Escova de Dentes” afastou o realizador e a equipa inteira. É um lado de exigência que continua muito presente?
Eu não posso é ter pessoas que atrapalhem. Eu trabalho com pessoas, elas não trabalham para mim. Mas o conceito desse despedimento mantém-se: se uma equipa não acredita no que está a fazer, não pode estar lá. Uma equipa que vai insegura para uma situação, e era o que estava a acontecer, vai levar a coisa à desgraça. Essa dúvida é um dos tais diabinhos.

Qual é que é o programa que não passou por si e que gostava de ter feito?
Há muitos, lembro-me do “Elo Mais Fraco”, do “Quem Quer Ser Milionário”, que foi inovador. Tenho pena de não ter produzido o “Chuva de Estrelas”, foi muito inovador e sempre gostei de programas de música. Lembro-.me da altura do “Cantigas na Rua” em que havia quem dissesse “ah os portugueses não cantam” e vai-se a ver e tantos anos depois ainda há tanta gente a cantar e tantos programas de música, e aquele foi o primeiro.

Ainda há margem para inovar na televisão ou as apostas são mais pelo seguro?
É mesmo porque não há dinheiro. Antigamente já adaptávamos formatos, eram experiências, por vezes de anos, até o programa estar perfeito. O “Big Brother” foi assim. Em Portugal o mercado sempre foi pequeno e nunca teve muito dinheiro. Fazíamos boas adaptações, à nossa medida. Hoje em dia o que acontece é que os formatos que há lá fora por vezes não se conseguem fazer por cá, porque há menos dinheiro na televisão. Mas isso não é só cá, é no mundo.

Quando é que surgiu o lado do teatro?
Foi aos 50 anos. Estudei teatro e gostava muito mas convenci-me de que não era boa atriz e que era boa produtora (que era). Então larguei. Mas depois aos 50 pensei: “se não faço agora não faço nunca”. A primeira peça que fiz foi “A Partilha”, do Miguel Falabella, foi uma experiência que correu muito bem e adorei. A partir daí tentei fazer pelo menos uma peça por ano. Gosto muito da magia do teatro, do público, é um prazer completamente diferente do da televisão.

Mas em família este lado do espetáculo até veio da música, não foi?
Sim, eu adorava ser cantora, o meu pai era, a minha mãe sempre cantou. Até que cheguei à conclusão que aquela desafinada não era só naquela altura, mas para a vida toda. Aí não há volta a dar, se a pessoa não canta, não canta.

E este lado do coaching, chegou a uma fase da carreira em que é o momento de ensinar?
É um gosto de duas áreas e no coaching estou mais virada para a comunicação. Ao longo dos anos convidavam-me para masterclasses, não era professor mas convidavam-me para dar aulas de apresentação e produção. Eu achava que tinha obrigação, como nunca tinha querido ser apresentadora e aquilo me caiu no colo, de ensinar o que aprendera aos miúdos tinham o sonho de ser apresentadores. Achei que era uma troca com o universo. Não me apercebi e dei milhares de aulas ao longo da minha vida e até reencontro muitos alunos por todo o lado. “Fui seu aluno, fui seu aluno” — a Cristina foi minha aluna — mas agora nesta fase, em que falava mais online com as pessoas, no próprio confinamento, com pessoas a pedir-me ajuda e conselhos, comecei a dar cursos. A coisa cresceu e adoro isto, de dar aulas por Zoom. É um contacto muito próximo mesmo as pessoas estando longe.

O que andou a fazer durante a pandemia?
Vim para casa como todos na altura e foi nessa altura que tive tempo para acabar o livro. Foi uma boa ocupação. E vivi mais também dentro do computador, com lives no Instagram, a estabelecer ligações através deste meio, andei ocupadíssima, até as minhas séries da HBO e da Netflix ficaram para trás. No outro dia ouvi que estivemos fechados 49 dias. 49 dias!? Foi tanto tempo. Tinha andado ocupada.

Um tema que tem andado na berra nas revistas cor-de-rosa é a sua relação com a Pipoca Mais Doce.
Isso anda na berra porque as pessoas não têm mais nada que falar. Eu não conhecia pessoalmente a Ana mas até era seguidora dela, acho que fez um belíssimo trabalho na pandemia, e conheci-a agora no programa. Temos uma relação profissional, não somos amigas, mas é uma relação que funciona bem. E acho-lhe imensa piada, cá fora fazemos o brinde normal da praxe e somos alegremente coloquiais uma com a outra. Nem sei onde é que as pessoas foram buscar isso. É que nunca houve sequer uma vírgula fora do contexto.

Aqui entre concursos e reality show, é um caso à Marco Paulo de dois amores ou tem preferência?
Acho que a vida não é “ou-ou”, é sempre “e-e”. Não é preciso preferências. Quando há isto para fazer, faz-se alegremente isto, quando há aquilo para fazer, faz-se aquilo. Adoro o teatro, adoro escrever, adoro preparar os cursos. Não tenho aquilo de que gosto mais, apenas o que quero fazer a seguir.

Quando dá ralhetes é a Teresa apresentadora ou é também a Teresa fora do ecrã?
Mais ou menos. O que eu faço é usar a minha autoridade destes anos todos, em que eles nasceram já comigo na televisão. Eles não me veem, só me ouvem e há uma série de regras. Mas eles sabem que quando falo é para ouvirem, que não digo nada por acaso.

Tem alguma aposta sobre quem vai ganhar o “Big Brother: A Revolução”?
É curioso mas nem nesta vez nem em nenhuma isso me interessou para alguma coisa. Só quando chega ao fim. A casa agora está cheia, sei lá eu. Acontece aquela coisa do “ah este tem potencial” e depois a pessoa passa-se da cabeça e desiste. À medida que o tempo vai passando, eles não estão iguais ao mesmo dia em que entraram. É por isso que se contam os dias. Agora quando entrar a chuva é a fase da desistência, [imitando] “ah, quero ir embora, tenho a minha vida lá fora”. Faz parte. Quando passa dessa fase e começa o cheirinho ao Natal, aí até já têm medo de sair, de como será a realidade cá fora. Dá para saber quem é o preferido hoje, mas isso para a semana pode mudar. É a coisa gira do programa. E da vida: nunca se sabe o dia de amanhã.

As histórias por trás das câmaras.

“O Avesso do Direto” (15,5€), da Contraponto, já está disponível nas livrarias e conta com histórias de Teresa Guilherme ao longo de anos, nos bastidores dos mais diversos programas.

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