Televisão

“Terra Nova”: histórias dos portugueses na pesca do bacalhau chegam à RTP

O filme ia estrear em março, mas foi adiado por tempo indefinido. Assim, chega primeiro à televisão a série do mesmo projeto.
A série tem 13 episódios.

“Terra Nova” ia estrear nos cinemas a 19 de março. Uma semana antes, o País fechava-se rapidamente em casa para controlar a propagação da pandemia. Com cinemas a encerrar e o público confinado, o filme português foi adiado por tempo indeterminado — uma situação que permanece até hoje, embora alguns cinemas já tenham reaberto desde segunda-feira, 1 de junho.

Aproveitando os timings, a RTP decidiu avançar com a estreia da versão série deste filme, “Terra Nova”, que é um formato verdadeiramente diferente e não apenas a produção cinematográfica com algumas cenas extra. Estreia esta quarta-feira, dia 3, na RTP1, pelas 21h34. Ao todo são 13 episódios de cerca de 50 minutos, sendo que o filme dura apenas 1h20.

Artur Ribeiro, realizador do filme e guionista de ambos os projetos, explica à NiT que a intenção sempre foi produzir um filme e uma série que funcionassem de forma independente — embora sendo complementares e com capacidade para enriquecer o outro.

O filme passa-se todo no mar e acompanha os pescadores portugueses nos anos 30, no Mar do Norte, em busca de bacalhau para levarem para casa. Acabam por descobrir o caminho para a Gronelândia, numa rota nunca percorrida por lugres — mas o percurso é cheio de atritos e desafios entre o mar e os homens, e mesmo entre os próprios pescadores. É a história mais próxima d’”O Lugre”, livro de Bernardo Santareno que inspirou o projeto e que serviu de base ao guião de Ribeiro.

Já a série aprofunda mais as histórias das personagens. “Vai desde o momento em que estão a embarcar, os dramas das famílias que ficam, até ao regresso deles.”

A distinção entre “Terra Nova”, o filme, e “Terra Nova”, a série, é algo bastante bem definido. “Há partes que são do filme, mas nem sequer se vai ver o filme na íntegra na série. A ideia era estrear o filme e depois enriquecia-se a experiência, depois de termos visto o que aconteceu àquelas personagens. Vamos ver um bocado o retrato social e político da altura, dos anos 30, e são duas coisas que se complementam e não são, como muita gente faz, que é uma aldrabice, pegar no filme, acrescentar umas cenas que não ficaram, dividir aquilo em três e chamar àquilo uma série. Não se pode chamar uma série a uma coisa que não é uma série. E isto é de facto uma série, foi sempre pensada assim.”

Enquanto Artur Ribeiro e a equipa de produção e os atores gravavam o filme a bordo do lugre Santa Maria Manuela, acima do círculo polar ártico, a norte da Noruega, em Portugal o realizador Joaquim Leitão preparava a série — que também foi escrita por Nuno Duarte. Quando chegaram a Portugal, vieram contar as histórias das suas personagens em terra.

“São duas experiências completamente diferentes. A fruição de uma não tira a outra. Ou seja, as pessoas tanto podiam já ter visto o filme e depois terem um complemento muito enriquecedor, mas agora por causa das circunstâncias não sabemos quando é que o filme estreia, então estreou a série primeiro. Mas vai ser outra experiência ir ao cinema ver o filme, até porque o filme tem outras características, que puxam mais pelo grande ecrã, é um épico marítimo. É outra coisa estarmos a ver o filme na sua 1h20 de duração, intensa, no mar, com uma sala escura, com o som em surround, do que ver na televisão.”

O projeto, na verdade, nasceu com uma ideia de Nicolau Breyner, que queria adaptar o tal livro de Bernardo Santareno. Nicolau Breyner convidou Artur Ribeiro para escrever o guião. “Eu andei a investigar, li, escrevi, apresentei-lhe, ele estava muito satisfeito, mas infelizmente como sabemos o Nico deixou-nos. E o projeto ficou com a produtora Ana Costa, que me desafiou para tentar fazer o filme. Eu claro, achei que era quase uma honra, era algo que gostava muito de fazer porque era um sonho do Nico de levar esta ideia ao cinema.”

Nicolay Breyner ia ser apenas o realizador — ou seja, não tinha intenções de interpretar nenhuma personagem. “Ele não se via a ele próprio a fazer de nada, ainda falámos vagamente sobre de atores e isso, mas ele só queria realizar.”

O elenco inclui nomes como Virgílio Castelo, Vítor Norte, Sara Norte, João Catarré, Sandra Faleiro, Beatriz Barosa, João Reis, Pedro Lacerda, Carla Chambel, Miguel Borges, João Craveiro, Ricardo de Sá, Dinarte Branco, Rodrigo Tomás, Figueira Cid, Tomás Alves, João Jesus ou Vítor D’Andrade, entre vários outros.

Artur Ribeiro fez um trabalho de pesquisa acerca de “um mundo riquíssimo”, com “imensas histórias”, sobre “um tempo muito importante para a nossa história e para o nosso povo”. Leu muito sobre o tema, consultou trabalhos de historiadores, livros de ficção ou relatos apresentados pelo Museu Marítimo de Ílhavo, por exemplo. E conversou com vários pescadores na Nazaré, em conjunto com Nicolau Breyner, para recolher os seus testemunhos. Como Artur Ribeiro, os portugueses têm uma grande ligação ao mar e aos pescadores, e o diretor de fotografia de “Terra Nova”, Luís Branquinho, é o neto do escritor Branquinho da Fonseca, que também escreveu uma obra sobre este imaginário — que também contribuiu para inspirar os guiões desta série e filme. “A história do bacalhau está no ADN do povo português.”

Confesso que sabia pouco sobre a faina maior, e quando comecei a ler encontrei imensas coisas escritas e muitos estudos, mas a ficção, de facto, por incrível que pareça… E até pensei que se calhar já se tinha feito ou adaptado, mas não. Havia alguns documentários, mas na ficção não encontrava nada sobre este período. Portanto, também foi um privilégio poder explorar esse território riquíssimo, cheio de grandes aventuras e dramas, de grandes histórias. E portanto nesse aspeto… Tal como na história do filme, eles descobrem e vão pela primeira vez à Gronelândia, num feito marítimo, eu também fiz aqui um feito marítimo audiovisual [risos], que foi pela primeira vez explorar e de forma tão profunda como foi este período e o mar, que é uma coisa muito portuguesa e uma coisa que sempre me fascinou, adoro o mar. Portanto, ter estado embarcado durante três semanas a filmar foi uma experiência fantástica. Recordo com saudades e estou morto para voltar.”

Filmar durante várias semanas em alto mar trouxe muitas vantagens. “Queríamos trazer ao máximo a experiência dos pescadores, e a experiência do que é estar no mar naqueles seis meses — que obviamente não passámos realmente — mas o essencial foi o facto de termos o Santa Maria Manuela, um lugre antigo, que andou na pesca de bacalhau e estava ativo, um bocadinho remodelado mas mantendo as características, e foi essencial filmarmos no navio e, mais ainda, no mar. As circunstâncias até se juntaram todas para filmarmos não na Gronelândia, mas perto, estivemos ao norte da Noruega, que é um instantinho para a Gronelândia, tínhamos as condições parecidas de tempo, de temperatura, mar, que os pescadores tinham na altura. E por isso foi ótimo, porque os próprios atores, ao estarem no navio, vestirem aquelas roupas, foi o melhor trabalho de ator que podiam fazer, criou-se ali mesmo uma irmandade, continuamos todos muito unidos, foi uma experiência inesquecível. Quase todos os trabalhos o são, mas uns mais do que outros. Essa aproximação à realidade foi fulcral para trazer autenticidade ao filme e às personagens.”

E acrescenta: “No cinema a gente finge tudo, mas mesmo as condições de luz [naquele local do mar], para a direção de fotografia, é completamente diferente. Hoje em dia tudo é reproduzível em estúdio com efeitos especiais, e nós próprios temos algumas coisas em estúdio com efeitos especiais, mas até para o trabalho de ator de perceber como é que se está no mar, de ter aquela sensação de chegar ao fim do dia e o ator não vai para o hotel, não desliga, é uma imersão na personagem quase de 24 horas. Aliás, mesmo quando não estavam a filmar, estavam vestidos com a roupa das personagens. Obviamente não tiveram a experiência dura de trabalhar 14 ou 16 horas por dia como estes homens faziam, mas aproxima muito mais que o ator esteja este tempo todo num navio, onde dorme, acorda, está sempre no mar. Tudo isso acho que foi essencial para o resultado final.”

Apesar de o filme e a série retratarem uma realidade, as histórias e as personagens específicas entram, digamos, em águas dispersas em que a verdade e a ficção se misturam sem preconceitos e como se fossem uma coisa só.

“Muitas das coisas que o Santareno escreveu foram inspiradas nas histórias que lhe contaram, de pessoas reais. Ele andou embarcado, escreveu umas crónicas, e depois aglutinou pessoas em determinadas personagens, criou ficção mas muito inspirada em histórias reais. E eu para a escrita da série, que escrevi com o Nuno Duarte, em alguns casos também fui buscar inspiração a histórias que me contaram, coisas que li e transformei em ficção. E algumas já perdi o ponto do que é ficção e do que é que é inspirado em coisas que ouvi [risos]. E há outro lado: as histórias do mar também metem muitas lendas, não é? Nunca sabes se as histórias que contam são absolutamente verdade ou não. Portanto, estamos todos no território da ficção.”

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