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“The Gray Man”. Sai um thriller requentado e manhoso para a mesa seis

A nova megaprodução da Netflix é uma travessa opulenta de ingredientes que já todos provámos (e adorámos). Mas alguém arruinou a receita.
Spoiler alert: é uma desilusão
60

“Seis é um nome estranho”, comenta a jovem órfã que acaba por ficar à guarda do agente interpretado por Ryan Gosling. “Já alguém ficou com 007”, responde a personagem principal de “The Gray Man”, que é pouco mais do que uma amálgama de todos os agentes implacáveis que conhecemos ao longo de décadas de thrillers de espionagem.

Court Gentry é o nome do homem que nos é apresentado como protagonista da nova grande aposta da Netflix. Aprisionado pelo homicídio do próprio pai, é afinal um tipo bonzinho que se deixa instrumentalizar pela CIA — a troco da libertação, Gentry é treinado para ser um agente secreto fora da lei, sempre disposto a fazer todo o trabalho sujo que a agência governamental está impedida de fazer de forma oficial. Onde é que já vimos isto?

A megaprodução da Netflix, que estreou em Portugal a 22 de julho, rapidamente conquistou um lugar no top da plataforma, o que dirá menos do mérito cinematográfico, mas será bastante revelador da potência do algoritmo da plataforma, sobretudo no que toca a dar visibilidade aos conteúdos originais. Seja como for, a intenção é ambiciosa: criar uma saga que rivalize com as outras sagas bem-sucedidas no género, de Bond a Bourne. Também por isso a plataforma anunciou de imediato que iria avançar com uma sequela e um spinoff.

Na ânsia de criar essa mesma saga, alguém se esqueceu de que seria necessário criar nos telespectadores a vontade de continuarem a ver a história. Algo que dificilmente acontecerá, ao fim de duas horas de ação inconsequente. Para esta empreitada de proporções gigantescas, a Netflix recrutou Anthony e Joe Russo, a dupla que fez sucesso no mundo cinemático da Marvel e comandou aquele que é um dos filmes mais bem-sucedidos de sempre nas bilheteiras, “Avengers: Endgame”. O elenco acompanhou.

Gentry é Ryan Gosling, que aqui pode reciclar o seu papel de herói silencioso — à imagem, por exemplo, do seu K em “Blade Runner 2049” ou do misterioso condutor em “Drive” —, que assume o papel de agente secreto que se une a Dani Miranda, interpretada por Ana de Armas. Billy Bob Thornton encarna o amigo e ex-CIA de Gentry.

Chris Evans assume o papel de vilão, outro agente não-oficial que tem como cartão de visita o facto de ser absolutamente impiedoso — mas que acaba por ser pouco mais do que um mauzão com bigode de ator porno dos anos 90. E Regé-Jean Page salta de lover boy de “Bridgerton” para o calculista líder da CIA.

Segundo aquilo que imaginámos ser o modus operandi do poderoso algoritmo da Netflix, esta fórmula deveria ser mais do que aliciante para criar um grande filme. Nem por isso.

A história adaptada do livro de Mark Greaney transforma-se numa sucessão de momentos déjà vu. O criminoso libertado e treinado para ser um herói. O agente altamente treinado que é traído pela sua própria organização. O frio assassino que se deixa comover por uma pequena órfã. As cenas que ação que viajam de cidade europeia em cidade europeia.

Há pouco no argumento que dê armas suficientes ao lote de atores excecionais para se livrarem das armadilhas de “The Gray Man” — e os (poucos) momentos cómicos que pretendem aliviar a tensão acabam por se revelar frouxos e disparatados. Prova número um: “É só mais uma quinta-feira” é a absolutamente desinspirada catch phrase do protagonista.

Seria injusto não sublinhar os pequenos lampejos de criatividade e entretenimento a que 200 milhões de euros de orçamento deram direito. É o caso do pequeno papel de Alfre Woodard como antiga chefe da CIA, que usa de forma excelente o pouco tempo a que tem direito no ecrã. Ou o assustador mercenário Avik San (Dhanush) que ajuda a protagonizar alguns dos melhores momentos de ação.

Por falar em ação: curiosamente, são os embates com menos artifícios e mais atenção à coreografia que se destacam. Exceção feita, claro, a uma altamente irrealista mas incrivelmente emocionante perseguição no centro histórico de Praga. Talvez o único momento onde se justifique o volumoso cheque passado pela Netflix.

“The Gray Man” esconde uma segunda dimensão. Aquela que pretende lançar as fundações para uma bem-sucedida saga e que, para isso, necessita de criar uma ligação emocional entre o telespectador e o herói. Essa tentativa surge na forma de flashbacks estranhamente encaixados entre cenas de ação, que vão revelando os traumas de infância que moldaram a personalidade de Gentry — e que o levaram à prisão.

“The Gray Man” é, assim, pouco mais do que uma amálgama requentada de thrillers que todos já vimos. Suficientemente mexido para nunca se tornar aborrecido, demasiado insípido para ser memorável.

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