Televisão

“The Peripheral” é o novo quebra-cabeças para fãs dos irmãos Nolan

Com apenas dois episódios, a série de ficção-científica da Amazon Prime faz muitas promessas. Resta saber se as consegue cumprir.
Chloe Grace Moretz é a protagonista
74

Christopher Nolan foi o primeiro dos irmãos a decidir baralhar o nosso cérebro com a inversão da estrutura da narrativa em “Memento”. Depois veio o irmão, Jonathan, com o seu épico de ficção-científica, “Westworld”, e os seus complexos saltos temporais.

Não sabemos muito bem quem é que traumatizou os dois rapazes na infância, mas a verdade é que parecem obstinados a trazer-nos filmes e séries de boa qualidade, ainda que exijam a nossa máxima atenção. Desta vez, é o mano mais novo que leva à Amazon Prime o seu mais recente trabalho.

“The Peripheral” é a nova série da plataforma, que conta com Jonathan Nolan e Lisa Joy — o casal que nos trouxe “Westworld” — como produtores-executivos. A sua influência está por todo o lado, ainda que a história seja adaptada do livro com o mesmo nome, escrito por William Gibson.

Gibson é, para os que estão menos familiarizados, nada mais nada menos do que o pai do género cyberpunk. E na obra lançada em 2014, faz-nos viajar até uma América rural, algures na próxima década dos 30.

É lá que encontramos Flynne Fisher (Chloë Grace Moretz), que vive com a mãe (Melinda Page Hamilton) e o irmão Burton (Jack Reynor). Ela trabalha numa pequena loja de impressão 3D. A mãe, cega e acamada, debate-se com um inoperável tumor cerebral. E Burton, um ex-militar, passa os seus dias a ganhar dinheiro a jogar videojogos.

É um mundo futurista, mas não demasiado. Ao longo do episódio piloto, as diferenças vão sendo subtilmente apresentadas. Burton, por exemplo, parece ter uma série de aparelhos eletrónicos debaixo da pele, que permitem uma interação mais rápida e sem toques com dispositivos. Contudo, sofre também de dores crónicas, aliviadas por comprimidos comprados por fortunas no mercado negro e que partilha com a mãe.

Flynne, por sua vez, parece levar uma vida comum, ainda que esconda um talento nato para os videojogos. É a ela a quem Burton recorre em momentos de aperto, para o ajudar a passar de níveis e receber mais algum dinheiro.

Tudo muda quando o irmão recebe um aparelho novo, cortesia de uma empresa colombiana, para realizar uma série de testes experimentais a uma nova tecnologia de videojogos que promete ser revolucionária. É Flynn quem a experimenta pela primeira vez. Uma experiência demasiado real.

O episódio piloto, com pouco mais de uma hora de duração, não perde grande tempo com subtilezas, embora tenha trabalhado bem a disposição das personagens. Rapidamente percebemos que aquilo que Flynn julga ser uma simulação, é algo de bem real.

Quando está ligada ao aparelho, Flynn parece adormecida. Os golpes que sofre do outro lado, são sentidos, são bem reais. É uma espécie de remissão ao mundo de “Matrix”, com uma envolvente menos rebuscada, mas não menos simplista.

É que na verdade, quando Flynn está “do outro lado”, esse outro lado não é uma simulação, mas o futuro. Um futuro que esconde personagens misteriosas, aparentes vilões caricaturados — não falta sequer um mauzão russo — e muita tecnologia e segredos por desvendar.

Seria expectável que um Nolan se lembrasse de querer jogar com mais linhas temporais alternadas, embora aqui, Jonathan o faça sem o lado mais pesado da narrativa usada, por exemplo, em “Westworld”. É, por enquanto, relativamente mais linear e exige menos dos telespectadores.

Um dos grandes desafios das séries de ficção-científica passa pela criação de mundos futuristas sólidos, credíveis, e até ver, a pequena América rural de “The Peripheral” vai convencendo. Não tanto a Londres de 2099 e as suas complexidades que, valha a verdade, ainda estão por explorar.

É do outro lado do futuro que chegam as maiores incógnitas para a série e da qual depende muito da narrativa — e do seu sucesso. Ao segundo episódio, apesar do elenco sólido — embora sem grandes destaques —, nenhuma das personagens do futuro estabelecem a sua presença, o porquê de estarem ali, a interagir com os supostos protagonistas.

A curiosidade está mais do que aguçada e com Nolan, espera-se um twist recompensador no horizonte, ao mesmo tempo que cruza os dedos para que os argumentistas não se percam em emaranhados desnecessários. A ficção-científica não precisa de dar dores de cabeça para ser brilhante. Basta que sejam credível e bem contada.

Com dois episódios disponíveis — estreou a 21 de outubro — e ainda mais seis por ver, “The Peripheral” parece ainda ter revelado apenas o seu lado mais superficial. E na fúria de não deixar tempos mortos e, quem sabe, agarrar os espectadores perdidos na sua cada vez mais curta capacidade de atenção, a série salta precipitadamente para a simulação, antes de nos deixar ambientar às personagens, ao seu ambiente, às suas motivações.

Carregue na galeria para descobrir as outras grandes estreias de outubro na televisão.

ÚLTIMOS ARTIGOS DA NiT

AGENDA NiT