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Tommy Shelby trocou o whisky pela água — e voltou melhor do que nunca a “Peaky Blinders”

A série de culto já foi para o ar na "BBC", mas ainda deverá demorar até estar disponível em Portugal, na Netflix. A NiT viu o primeiro episódio.
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Thomas Shelby está agora muito longe das ruas de Birmingham e dos corredores do parlamento britânico em Londres. Está sentado ao balcão do bar de um pequeno hotel na remota ilha francesa de Miquelon, na Terra Nova, a poucos quilómetros do Canadá. “Quer uma bebida?”, pergunta o empregado em francês. “Quero um copo de água, por favor.”

O pedido enfurece os locais, espalhados pelas mesas do bar. São quase todos produtores e traficantes do álcool, o mesmo álcool que durante anos deu origem a um enorme negócio ilegal nos Estados Unidos onde vigorava a Proibição. Com a lei prestes a ser abolida — e com ganha pão dos traficantes a ter os dias contados —, o pedido de Shelby foi visto como uma provocação. O confronto era inevitável, mas o protagonista de “Peaky Blinders” é hoje muito diferente daquele que deixámos em 2019, antes de uma dolorosa pausa de dois anos.

A série britânica da “BBC” regressou a 27 de fevereiro, desta vez com outra mudança de fundo. A morte da atriz Helen McCrory, no início de 2021, obrigou a uma reformulação total da última temporada e os argumentistas tiveram que encontrar uma solução que justificasse o desaparecimento de Polly, uma das personagens vitais na história dos Shelby.

A temporada passada deixou a história numa encruzilhada. Tommy despediu-se em desespero, com uma arma apontada à cabeça a ameaçar o suicídio. O seu plano para assassinar o político fascista Oswald Mosley foi travado no último segundo por desconhecidos que deixaram um rasto de sangue.

O primeiro episódio leva-nos ao rescaldo do plano falhado e à revelação desnecessária de que Tommy Shelby não puxou o gatilho. Uma chamada surpresa revela tudo: foi o IRA quem desmontou a sua estratégia e que lhe deixou três cadáveres à porta.

Aberama Gold foi esfaqueado. Barney Thompson, o seu amigo sniper, foi alvejado. O terceiro e desconhecido cadáver é o de Polly, alvo dos irlandeses para debilitar a estrutura da organização Shelby. Foi esta a forma que os criadores da série encontraram para fintar a trágica morte de McCrory — e que possibilitou dar-lhe uma despedida condigna no ecrã.

Foi também uma oportunidade para mover as peças do xadrez para a nova temporada, algo que já havia sido deixado claro pela própria Polly, sobre o futuro perigoso de Tommy e Michael: “Vai haver uma guerra e um de vós vai morrer. Só não sei dizer qual.”

Enquanto Tommy promete vingar-se dos irlandeses, Michael promete vingar-se de Tommy, que considera ser o culpado da morte da mãe. E eis que, quatro anos depois, o cenário está montado.

O líder dos Peaky Blinders procura fazer novos negócios do outro lado do Atlântico e fazer um acordo com um tal de Uncle Jack, um homem parecido consigo: um criminoso com ambições de se tornar num negociante legítimo e com influência na esfera do poder político. É também familiar de Gina, mulher de Michael.

Tommy quer dar aos traficantes de Miquelon ópio em vez de álcool — e quer que Uncle Jack seja o facilitador da chegada do produto aos Estados Unidos. Por sua vez, Jack está no Reino Unido a tentar comprar as licenças para a importação de whisky. Será, ao que tudo indica, o grande antagonista da temporada — ou virá aí outra reviravolta?

Com apenas um episódio, é ainda cedo para dizer se a narrativa vai no bom caminho, mas espera-se que Shelby regresse rapidamente às escuras e sujas ruas de Birmingham. O ar polido e requintado dos cenários art déco do outro lado do mar não são propriamente o material de que é feito “Peaky Blinders”.

Mantém-se igualmente a discussão sobre o equilíbrio entre o estilo e a substância. Serão as repetitivas cenas em câmara lenta estritamente necessárias à narrativa? Talvez não sejam, mas é nelas que reside o coração e alma de “Peaky Blinders”, na fotografia meticulosamente calculada, nos movimentos que ritmam o compasso da banda sonora inatacável.

Digam-me uma. Só uma série que o faça tão bem ou melhor do que “Peaky Blinders”. E se os realizadores têm cortado tempo de antena ao épico tema de entrada “Red Right Hand” — de forma incompreensível, diga-se —, presenteiam-nos com outras pérolas. Outro spoiler alert: a nova temporada arranca com Joy Division, Johnny Cash e Anna Calvi.

Se poderíamos ter “Peaky Blinders” sem os slow motions de Cillian Murphy impecavelmente vestido e cigarro na mão, a percorrer os corredores de uma prisão, ao som de Ian Curtis? Provavelmente podíamos, mas não é essa a série pela qual ansiamos há mais de dois anos.

Infelizmente, será necessário esperar que os novos episódios sejam transmitidos na “BBC”, antes que cheguem à Netflix. Sendo que o último episódio só irá para o ar a 4 de abril, adivinha-se pelo menos mais um mês de angústia.

Carregue na fotogaleria para descobrir as novidades que vão chegar à televisão em março.

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