Televisão

Tony Carreira: “Adormeço a chorar agarrado a uma almofada. Acordar é um vazio total”

O músico deu a primeira entrevista na TVI depois da morte trágica da sua filha num acidente de automóvel.
O artista diz que nunca mais será o mesmo.

Foi a conversa mais dura e difícil de sempre na carreira televisiva de Manuel Luís Goucha. Na noite desta segunda-feira, 17 de maio, o apresentador sentou-se com Tony Carreira, em casa do músico, para falar pela primeira vez sobre a morte tágica da filha, Sara Carreira, que sofreu um acidente de carro na A1, a 5 de dezembro do ano passado. Tinha 21 anos.

Na sua conta de Instagram, Goucha já tinha dado a entender, na véspera, que a entrevista não passaria indiferente a ninguém: “Uma conversa de olhos molhados, silêncios que doem e muito, muito amor”, como a descreveu, num post onde podemos vê-lo abraçado ao cantor.

Foi por volta das 21h20 que a conversa começou a ser transmitida na TVI, logo a seguir ao “Jornal das 8”. Sentados frente a frente, o apresentador perguntou, logo a abrir, a Tony Carreira se a vida tem sentido depois da perda de uma filha. “Não, claramente que não. Estou a tentar encontrar um sentido”, respondeu.

Além dos dois filhos, Micael e David Carreira, o cantor adiantou que está a tentar encontrar um sentido através de uma associação que a família construiu com o apoio de uma equipa próxima e que pretende ajudar crianças desfavorecidas. “Estou à espera de respostas, de perceber o porquê da vida ser tão injusta”, continuou.

Depois da morte de Sara Carreira — a terceira e última filha que teve com Fernanda Antunes, com quem esteve casado por mais de 30 anos —, diz que passou por uma fase de “violência extrema”: “Morri por dentro e ainda estou a tentar encontrar alguma vida cá dentro. Bebi mais do que devia. Parecia um zombie. Depois veio alguma violência, fui injusto com pessoas que amo muito, revoltei-me com o mundo inteiro. Neste momento estou à procura, através da fé que me resta, de encontrar algumas respostas. Eu que não acreditava na vida depois da morte, hoje tento agarrar-me a essa esperança.”

Ainda que a fé tenha sido importante nesta fase, Tony Carreira reforçou que nada vai matar a dor, as saudades que tem de Sara e a falta que a filha lhe faz. “A revolta acho que já foi. Não me leva a lado nenhum, é uma das certezas que tenho. Uma delas é que não vou voltar a ver a minha filha e a outra é que nunca mais vou ser o mesmo”, continuou.

tony carreira
O artista tem-se resguardado dos media.

O artista disse ainda a Goucha que gostava que o seu caminho não fosse longo. “Se chegar aos 100 anos”, acrescentou, “será um grande castigo. Gostava de ir para o outro lado já não muito idoso”.

Nessa altura, Goucha perguntou-lhe se estava revoltado com Deus. “Se eu acreditava em Deus, por tudo o que vi acontecer em toda a minha vida de 57 anos, tive muitas dúvidas. Hoje não quero questionar, quero acreditar que existe, que ela está num sítio especial”.

A Associação Sara Carreira

Tony Carreira desabafou que “tudo” lhe faz falta na filha. “A Sara era luz, era alegria, era a minha princesa, era a mulher da minha vida, como disse muitas vezes. Nunca vi a Sara a falar mal de ninguém, a não querer ajudar alguém. Foi muito o equilíbrio na minha separação, por exemplo. A Sara era um ser especial e quem a conheceu sabe isso.”

“Era um anjo, era uma pessoa especial”. Foi nesse momento que aproveitou para contar um pouco mais sobre a Associação Sara Carreira que está a ser criada em sua homenagem. “A associação começou a ser pensada pela família.” Fernanda, Micael, David e uma série de pessoas próximas que os ajudaram a concretizar uma vontade para a qual, revela, não tinham forças. Foram cinco meses de trabalho. 

O projeto vai ajudar crianças desfavorecidas que precisam de apoio. Inicialmente, irá acompanhar 21 miúdos que terão padrinhos de várias áreas como as artes, advocacia, agricultura, e que estarão do seu lado nesse percurso.

“O que queremos é fazer um grande trabalho. Se tivermos o privilégio de ter o primeiro-ministro, um médico, um grande cantor, um jogador de futebol, missão cumprida. O único lucro que queremos para nós é que simplesmente se lembrem da nossa filha através de fazer o bem. Quero acreditar que ela nos está a ver a fazer isto em nome dela”

Segundo Tony Carreira, a relação com a filha era de facto especial. “Dos meus três filhos, com quem eu fiz mais coisas foi sem dúvida alguma a minha filha. Graças a Deus que isso aconteceu, não há nada que eu gostasse de fazer com a minha filha que não tivesse feito. Tenho milhões de recordações com a Sara. Das coisas que me deixa feliz é poder contar esses momentos que dividi com ela”, conta a Manuel Luís Goucha.

Durante a conversa, o apresentador aproveitou para questionar Tony Carreira sobre a forma como os media exploraram a morte da filha. “Têm respeitado a vossa dor?”, perguntou Goucha. “Uns sim, outros não”, começou por responder Tony. “Acho lamentável inventarem. Há revistas que são muito más. O público tem de começar a julgá-los porque inventam fontes que não existem ou que dizem ser amigos que não são. Eu não percebo como é que inventam coisas só para vender papel, porque são invenções puras, Manuel, eu sei que são.”

Respondendo a uma questão do entrevistador, disse ainda que achava que o público acreditava nessas mentiras, mas reforçou que “o carinho dos portugueses” e da sua classe artística também foram das partes mais positivas no seu processo de luto.

“Fui um super pai com a Sara”

“Uma tragédia destas, para lá daquilo que eternamente ficará triste em mim, pode transformar uma pessoa horrível numa pessoa melhor. No meu caso vai ser”. “Foste o pai que sempre quiseste ser ou ficaram coisas por dizer?”, interpelou Manuel Luís Goucha. “Eu fui um super pai com a Sara. Anulava-me para ela. Fiz tanta coisa pela minha filha e ainda bem. Se disse muitas vezes que a amava, diria muitas mais”.

Foi nesse momento que Manuel Luís Goucha se emocionou, depois de Tony Carreira afirmar que ainda lhe fazia muitas perguntas. “E as respostas?”, atirou o apresentador. As respostas, disse Tony, espera sentir no coração.

 
 
 
 
 
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O apresentador quis então falar sobre a ligação à ex-mulher, Fernanda Antunes. “A ida da Sara uniu-nos neste sentido. Já eramos muito unidos, sempre fizemos questão, na separação. Ainda hoje somos uma família, sempre fomos uma família.” E acrescentou: “Não há dia em que não almoçamos ou jantamos. É muito importante para nós estarmos juntos, os quatro. Se sinto que a Fernanda não está bem, eu tenho que a ajudar. Se eu não estiver bem ela tem de me ajudar. Eternamente amigos até à morte, podem escrever o que quiserem.”, rematou.

Recordando o dia da morte da filha, disse: “Não há dor pior do que perder um filho para quem é pai como eu sou.” O único sitio onde se sente em paz é na musica. “Só consigo escrever canções para a minha filha”, revelou sobre um disco que está a gravar e que está quase terminado. “Apetece-me cantar para ela. a musica tem uma magia especial”. 

Já sobre os espetáculos, diz que perspetivou um regresso ao palco com o público, mas que não seria possível neste momento de pandemia. No entanto, já marcou 25 concertos em França e pelo menos 40 em Portugal para 2022.

A revolta com o Ministério Público

A conversa foi ainda aproveitada pelo artista para comentar o tempo que o Ministério Público está a demorar a tirar conclusões sobre a noite do acidente, que só deverão chegar no final de agosto. Uma demora que chamou de “desumana”. Na noite em que Sara Carreira morreu, era Ivo Lucas, o seu namorado à época, que conduzia o automóvel.

“Eu não sou amigo do Ivo, mas sei que sempre tratou muito bem a minha filha. Teve a fatalidade de ir ao volante daquele carro, mas podia ter sido eu a ir ao volante”, comentou Tony Carreira, que também garante que a relação que têm é “muito bonita”. Não sabe quais serão as conclusões do inquérito, mas já garantiu ao ator que não o vai condenar. “A minha filha amava-o e, se me está a ver, não vai querer que eu seja inimigo do Ivo.”

A dor, no entanto, não acaba. “Eu tento o dia todo andar ocupado, mas depois lá vem a noite. A noite é terrível, mas pior ainda é o acordar. O acordar é acordar na minha casa, porque já pouco saio daqui, e acordar sem saber onde estou, que dia é. Um vazio total. Adormecer é adormecer a chorar agarrado a uma almofada. Acordar é um vazio total.”

Durante toda a conversa, uma mesa ao centro da sala manteve pousada uma bola de neve. “Não havia cidade ou aldeia” por onde passasse, disse Tony, onde não comprasse uma bola daquelas para a filha. Foram mais de 200 que estão agora espalhadas entre a várias casas e o escritório, onde se vai instalar a associação. “No fim a Sara já me dizia ‘Oh pai, não me tragas mais bolas de neve’, mas eu continuava a trazer sempre.”

O Tony Carreira de hoje é outro homem. Magoado, para lá de magoado, muito para lá de magoado. Com uma ferida sem cura. Como num dos concertos em que enchia estádios de futebol, arenas com dezenas de milhares de pessoas, a entrevista terminou com um agradecimento ao seu público: “Obrigado do coração a todos, todos, todos os portugueses”.

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O abraço emotivo no final.

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