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Tudo o que aprendemos com o perturbador documentário sobre Britney Spears

Estreou esta segunda-feira em Portugal e relata a história da cantora pop e a sua atual disputa legal com o pai.
Britney Spears não trabalha há dois anos.

Depois de ser um dos temas mais falados na área do entretenimento durante algumas semanas, o documentário “Framing Britney Spears” estreou em Portugal esta segunda-feira, 22 de fevereiro. Se quiser encontrá-lo nas gravações automáticas, foi transmitido no canal Odisseia a partir das 22 horas.

É uma produção original da plataforma de streaming americana Hulu em parceria com o “The New York Times”. “Framing Britney Spears” tem sido muito falado porque conta a história de Britney Spears passados mais de 20 anos desde que se tornou uma estrela mundial da música pop — e em retrospetiva vemos as coisas de forma diferente.

Além disso, a última parte do documentário centra-se na disputa legal que a cantora está a ter com o pai, Jamie Spears, sobre o controlo do seu dinheiro e carreira.

“Framing Britney Spears” tem cerca de 1h15 de duração e inclui entrevistas com pessoas que conheceram a cantora ao longo dos anos, em diferentes fases da sua vida. O documentário começa por explicar como Britney Spears apareceu. Desde muito cedo que se destacou em concursos locais e programas de televisão.

Oriunda da pequena cidade de Kentwood, no estado americano do Louisiana, começou a profissionalizar-se quando ainda era adolescente. A indústria via nela um grande potencial. O seu primeiro álbum, “…Baby One More Time”, saiu em 1999, quando tinha 18 anos (atualmente tem 39). De forma muito repentina, tornou-se uma estrela nacional (e, depois, internacional) que enchia centros comerciais sempre que lá dava um concerto.

Os abusos dos paparazzi e a toxicidade da fama

Se os primeiros tempos de Britney Spears no estrelato pareciam uma boa notícia — a cantora tinha conseguido tornar-se uma estrela do dia para a noite — rapidamente tornaram-se azedos. A cantora começou a ser imensamente questionada na comunicação social pelo tipo de roupas que vestia e pela sexualização que era feita da sua persona, como mostra o documentário.

Jamie Spears nunca foi próximo da carreira da filha até se tornar o tutor legal.

Ao mesmo tempo, e isto é algo que durou anos, tinha sempre uma turba de paparazzi atrás de si, para onde quer que fosse. Se nos primeiros tempos parecia que Britney achava alguma graça ao fenómeno e até era simpática com os fotógrafos, mais tarde a cantora simplesmente ficou exausta por estar constantemente a ser perseguida para qualquer sítio que fosse.

Quando começou a ter problemas familiares e conjugais — desde a separação do namorado Justin Timberlake ao casamento e depois divórcio com Kevin Federline, que resultou numa disputa pela custódia dos seus dois filhos — as coisas tornaram-se mais complicadas. O documentário mostra como Britney Spears foi levada às lágrimas várias vezes, em entrevistas que quase lhe apontavam o dedo. Foi acusada de ser uma péssima mãe, de ter feito algo a Justin Timberlake, de não se comportar como devia. E mostra como os flashes e a intimidação física dos paparazzi estavam sempre, sempre presentes.

Grande parte do mundo pode-se ter rido quando, certo dia, Britney Spears rapou o cabelo num aparente ato de loucura. E pouco tempo depois quando teve um ataque de raiva e agrediu o carro de um fotógrafo com um guarda-chuva.

Em retrospetiva, e o documentário mostra bem isso, eram claros sinais de que a fama e a constante perseguição a estavam a deixar psicologicamente perturbada — ao ponto de Britney livrar-se do seu cabelo, uma das suas características mais fotogénicas e importantes para a sua imagem enquanto estrela pop. 

A sua primeira assistente é uma das entrevistadas.

Quando um fã transtornado fez um vídeo online a gritar para “deixarem a Britney em paz”, grande parte do mundo voltou a rir-se com o caso aparentemente ultra dramático. Em retrospetiva, parece que esse fã tinha alguma razão no que estava a dizer, como demonstra “Framing Britney Spears”.

A disputa legal com o pai

Foi este transtorno emocional, que até a levou a tomar drogas, a ser hospitalizada e a ficar sem a custódia dos filhos, que fez com que Britney esteja agora numa disputa legal com o pai, Jamie, que nunca teve uma relação muito próxima com a sua carreira.

Em 2008, por se considerar que Britney Spears não estava mentalmente sã o suficiente para poder gerir o seu dinheiro e carreira, todo o seu património passou para o pai, que ficou enquanto tutor legal por tempo indefinido.

Britney Spears foi contactada para participar no documentário mas nunca respondeu.

Com o tempo, Britney Spears reergueu a sua carreira e pareceu melhorar significativamente tudo aquilo que poderia estar mal. Mas continuou a estar sob o controlo do pai — o que fez com que a situação legal em que estavam passasse a ser, quase por definição, um negócio. O pai e um advogado responsável pela situação recebiam comissões por todos os milhões de dólares que Britney continuava a fazer, além de gerirem o seu dinheiro.

Ao longo dos últimos dois anos, Britney Spears começou a tentar afastar o pai desta posição de poder para conseguir retomar o controlo da sua vida. Isso resultou na atual disputa legal que separa os dois. Alegadamente, a cantora está num hiato do trabalho desde janeiro de 2019 — só volta a trabalhar quando a sua situação legal mudar. Isso fez até com que Spears tivesse cancelado uma residência multimilionária que ia ter em Las Vegas durante pelo menos um ano.

Na era das redes sociais, Britney Spears tem sido bastante silenciosa quanto a este caso. Apesar de publicar regularmente fotos no dia a dia ou vídeos a dançar em casa, por exemplo, praticamente nunca falou sobre o que está a acontecer, exceto num comunicado escrito pela sua defesa já em plena disputa legal.

Os fãs fazem manifestações para defender a cantora.

O movimento #FreeBritney

Por isso mesmo, os fãs começaram a procurar por mensagens escondidas, e a tentar decifrar significados, em posts aparentemente banais de Britney Spears no Instagram. A cantora nunca revelou se estava a tentar passar alguma mensagem nas suas publicações, mas há milhares de fãs que ocupam o seu tempo a perceber se o sua ídolo está a tentar comunicar com quem está cá fora de forma camuflada. Há até um podcast só dedicado a esta questão.

O movimento #FreeBritney nasceu nos últimos anos, quando os fãs se começaram a juntar para analisar estes posts e para trazerem atenção para a disputa que coloca Britney Spears contra o pai. Esta pequena comunidade que se criou faz manifestações à porta dos tribunais onde têm acontecido as audiências do caso judicial.

Esta história promete não ficar por aqui. A 11 de fevereiro, dias depois da estreia do documentário nos EUA, onde teve bastante impacto, foi noticiado que Jamie Spears perdeu a tentativa para manter o controlo sobre o seu património com certas condições — embora não tenha havido mais avanços desde então. O ex-namorado de Britney, Justin Timberlake, fez um pedido de desculpas público após ter visto a produção.

A Netflix já anunciou também que está a preparar o próprio documentário sobre este caso, apesar de ainda não haver uma data de estreia confirmada. Leia ainda o texto do cronista Nuno Bento após ter visto “Framing Britney Spears”.

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