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“Um de Nós”: o documentário imperdível da Netflix sobre judeus ultra-ortodoxos

É a produção ideal para quem adorou “Unorthodox” e já experimentou ver “Shtisel”. Mostra o lado mais negro desta comunidade.

O mundo dos judeus ultra-ortodoxos tornou-se uma pequena tendência da ficção em Portugal com “Unothordox”, a série da Netflix de quatro episódios que retrata esta comunidade e acompanha uma protagonista que tenta escapar desse mundo ao descobrir (e inventar) a sua individualidade e liberdade.

Para todos os que devoraram “Unorthodox” em poucas horas (ou num par de dias) e ficaram com vontade de ver mais, a NiT sugeriu Shtisel”. É uma produção israelita que retrata a mesma comunidade judaica mas em Jerusalém, em Israel, e não em Williamsburg, em Nova Iorque, nos EUA.

Esta é a história de uma família, os Shtisel, que fazem parte deste grupo de judeus. A série, que tem duas temporadas (cada uma com uma dúzia de episódios), terá começado a ser mais vista em Portugal ao aparecer em destaque no interface nacional da plataforma de streaming, depois do sucesso de “Unorthodox”.

Bem, temos outra sugestão para quem ainda quer descobrir mais sobre este universo de trajes tradicionais pretos e brancos, chapéus longos, cabelos encaracolados na orelha para os homens e perucas para as mulheres, entre tantos outros rituais e regras que ficámos a conhecer com “Unorthodox”.

Falamos de “Um de Nós”, documentário de 2017 que retrata precisamente a comunidade hassídica de Nova Iorque (sobretudo a de Williamsburg, a mesma de Esther Shapiro em “Unorthodox”, mas não só), onde vivem cerca de 300 mil judeus ultra-ortodoxos.

Como nos explicou a minissérie da Netflix, e como este documentário ainda melhor contextualiza, esta comunidade formou-se por imigrantes e refugiados vindos sobretudo da Europa central e de leste durante e no pós-Segunda Guerra Mundial. 

O seu povo estava a ser alvo de um genocídio às mãos dos nazis na profunda tragédia humanitária que ficou conhecida como o Holocausto, que terá provocado mais de seis milhões de mortes de judeus e milhares e milhares de pessoas conseguiram escapar para os EUA, mesmo no pós-guerra, para fugir dos traumas na Europa.

Assim, e com um sentimento de pertença e de que tinham de preservar o povo judeu, adotaram trajes ancestrais, regras rígidas de acordo com os mandamentos da Torá e fecharam-se sobre si próprios, tendo a comunidade um grande objetivo: a reprodução (como combate até psicológico ao Holocausto).

Por isso é que, em “Unothordox”, Esthy tem como único e primordial objetivo ter filhos com Yanky e por isso mesmo é que é muito pressionada pela família para conseguir engravidar e superar as suas dificuldades.

“Um de Nós” mostra como a comunidade vive, sim, mas foca-se especificamente em casos reais de pessoas que tentaram sair e os obstáculos que lhes foram impostos por todos nesse processo, sendo que conseguimos ver uma amostra disso em “Unothordox”, que se baseia na história real de Deborah Feldman.

O documentário realizado por Heidi Ewing e Rachel Grady mostra como a comunidade tenta controlar todos os aspetos da vida naquele bairro de Brooklyn existem patrulhas civis, ambulâncias e autocarros próprios, por exemplo. O objetivo é que toda vida seja feita dentro da comunidade, sem interferências do mundo exterior a que chamam de “secular”.

Por isso mesmo, quando alguém que cresce naquele mundo decide que quer sair, enfrenta enormes dificuldades. Toda aquela população estuda apenas em escolas judaicas, não tem grandes habilidades profissionais nem diferentes perspetivas sobre o mundo aliás, o acesso à Internet ou a livros de uma biblioteca “secular” é totalmente proibido.

Neste filme são apresentados três casos, com filmagens em várias fases do percurso, de pessoas diferentes que abandonaram a comunidade. Um deles é Ari, um adolescente cujo desejo para descobrir mais se torna rapidamente num conflito com as restrições religiosas.

Explica que foi abusado sexualmente no passado por um monitor, sem que ninguém na comunidade tenha feito nada. Vai a encontros cristãos simplesmente por curiosidade e adorou as maravilhas que a Internet lhe trouxe, quando a pôde descobrir. “A Wikipédia foi uma dádiva de deus”, diz. 

Luzer é outro dos visados. É mais velho e parece o único que conseguiu abandonar com algum sucesso os judeus ultra-ortodoxos. Vive parcialmente em Los Angeles, conseguiu alguns papéis como ator e foi precisamente através dos filmes (que via às escondidas, no carro) que inicialmente construiu a sua perceção do mundo exterior. No entanto, teve de abandonar a mulher e os filhos para conseguir sair da comunidade.

O caso mais complicado é o de Etty, uma mulher nos seus 30 anos, com sete filhos, que procura um divórcio (totalmente proibido nesta comunidade) de um marido abusivo que até foi retirado da sua casa pela polícia.

Diz-se que apenas dois por cento dos hassídicos abandonam a comunidade, tal é a repressão. Muitos dos que saem viram-se para o crime e acabam na prisão, outros cometem suicídio ou tornam-se toxicodependentes porque não conhecem ninguém no mundo exterior e perdem todo o contacto com a família e as pessoas que sempre conheceram.

“Ninguém sai a não ser que esteja disposto a pagar o preço”, diz a certa altura Chani Getter, da associação Footsteps, que tem como objetivo ajudar ex-hassídicos a prosseguirem com as suas vidas — mesmo que muitos deles permaneçam crentes e religiosos.

Como o documentário mostra no caso de Etty, a comunidade uniu-se para pagar a poderosos (e muito caros) advogados para disputar a custódia dos seus filhos em tribunal. Queriam que ela nunca mais os pudesse ver. Durante meses, Etty alega que foi seguida, ameaçada e até atropelada uma vez, quando andava de bicicleta no seu bairro, por hassídicos ao serviço dos rabinos, que diz controlarem a comunidade.

Etty é uma das pessoas que se encontram na Footsteps para falarem sobre os seus problemas e dificuldades que funciona quase como um grupo de apoio para vítimas em recuperação (e nalguns casos ainda a sofrer consequências e represálias graves). Os três explicam que pessoas que sempre conheceram deixaram de lhes falar, que quase todos os que os conheciam (inclusive familiares muito próximos) lhe viraram as costas.

“Um de Nós” tem várias entrevistas ao longo dos anos com estes três protagonistas, e alguns depoimentos extra, como uma conversa existencial (e bastante aberta tendo em conta as circunstâncias) entre Ari e um membro hassídico da comunidade.

Tem um tom dramático e bastante mais sério do que “Unorthodox” que, embora mostre as regras rígidas impostas pelos judeus ultra-ortodoxos, acaba por ter uma perspetiva mais leve e ao mesmo tempo contribui para humanizar esta comunidade. A produção tem 1h35 de duração e mostra o lado mais obscuro dos hassídicos.

Leia também o artigo da NiT sobre 12 perguntas com que provavelmente ficou depois de ter visto “Unorthodox”. Depois, carregue na galeria para conhecer as principais novidades da televisão (e do streaming) para o mês de maio.

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