Televisão

A única (e triste) lição que aprendi ao ver “Hell’s Kitchen” pela primeira vez

Entre calinadas matemáticas e xixis nervosos, o programa mostra-nos tudo. Só não nos mostra a comida.
Foi uma desilusão

Ao quarto domingo, a prova tinha que ser feita. Conseguiria um fã de “MasterChef” encontrar prazer na montanha-russa que é “Hell´s Kitchen”? O espectador mais desatento pode encolher os ombros. “Afinal, são dois programas de cozinha. Não é mais do mesmo?”

Não é segredo que a versão australiana do “MasterChef” é um pequeno guilty pleasure — expliquei-o aqui, sobretudo no que toca a edição australiana —, partilhado por todos os que, sem serem chefs ou especialistas, vivem para comer e cozinhar. A verdade é que “Hell’s Kitchen” é todo um outro monstro. 

Apanhar o comboio em andamento nunca é fácil. Ao quarto episódio, os concorrentes estavam já mais do que apresentados. Felizmente, o formato é conhecido: um restaurante fictício gerido por um chef de paciência curta e temperamento explosivo, que inferniza a vida dos cozinheiros.

O que me esperava era ligeiramente diferente, apesar de prometedor: seria uma prova de molhos, tão essenciais quanto traiçoeiros. Tinha tudo para ser uma daquelas boas experiências em que o espectador não só se diverte como aprende um ou outro truque. Puro engano.

Dos molhos, pouco vimos. O que vimos foi uma espécie de cocktail com uma pitada de “Big Brother”, “Jogos Sem Fronteiras” e programa da tarde ao fim de semana, com uma playlist enjoativamente pimba. Entre planos da “resting bitch face” de Lucas e da prova de tratores, ficámos sem saber como evitar fazer um béchamel tipo argamassa ou um béarnaise demasiado líquido. “Eu não vou provar esta merda”, atirou Stanisic. Finalmente, concordávamos com alguma coisa.

Afinal, havia ainda mais uma hora de programa pela frente, numa exaustiva maratona de uma hora e meia — duas horas se contarmos com os intervalos para publicidade. Para termo de comparação, o original com Gordon Ramsay no comando — recordemos que os norte-americanos são os reis e senhores do formato reality — tinha apenas 42 minutos de tempo total.

“Está uma merda.” Não espere críticas mais construtivas do que esta

É verdade que “Hell’s Kitchen” cumpre o que promete e mantém-se fiel ao tornado que Ramsay ajudou a criar em 2005. Mas como vimos em “MasterChef”, as versões podem desviar-se da versão original. Não foi esse o caso.

Ninguém nos explica que ervas leva o piso, a mistura que acompanhava o prato de raia. Mas fazem questão de nos mostrar que um dos concorrentes sofre de “xixi nervoso”. O que é um “xixi nervoso”? “É quando tenho vontade de mijar por causa dos nervos”, explica um dos concorrentes à colega, juntos fechados na despensa.

O “Hell’s Kitchen” é o que é: um reality show assente nos ambientes tensos e explosivos das cozinhas. A comida, o restaurante, esses são apenas acessórios. O que se quer explorar aqui são as mesmas e repetidas coisas que todos os outros reality shows fazem: os feitios, as personalidades difíceis, as relações que ora azedam, ora fortalecem.

Lá não se comete nenhum crime televisivo. Os reality shows têm, aliás, uma fórmula apurada — sabem precisamente quais são os guilty pleasures que nos afagam a alma. E é por isso que não conseguimos deixar de soltar um pequeno ronco de riso quando um cozinheiro, já agastado e no limiar de uma crise nervosa por ter que cortar batatas milimetricamente perfeitas, desabafa que “dois centímetros é quatro milímetros”.

É por isso que os serviços funcionam: são a encarnação da fúria da cozinha; dão-nos os momentos mais excitantes do programa; as explosões de raiva de Stanisic que explode com um simples “já vai”. É nisso que “Hell’s Kitchen” é bom, quando o comboio vai a 200 km/h e atropela impiedosamente cada um dos cozinheiros mais moles. Ali não há tempo para subtilezas.

O problema está na outra hora do programa, quando o ritmo abranda e “Hell’s Kitchen” prefere dar-nos cinco minutos de cozinha e 30 minutos de gente a aprender a soletrar “bruschetta”.

É um reality show que acontece numa cozinha — e isso não faz dele, de todo, um programa de cozinha para quem gosta de cozinhar. Um programa de televisão que se ficou pela fase da puberdade, onde se ri dos desastres, das zangas e das discussões.

Falta-lhe tudo o que encontrámos em verdadeiros programas de cozinha como “MasterChef”: as lições, os truques, os segredos, os ensinamentos. E tudo isso sem abdicar daquilo que é, um programa televisivo que, ao fim do dia, tem que ser puro entretenimento. A derradeira lição é precisamente essa: “Hell’s Kitchen” não é isso. Nem nunca vai ser.

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