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“Unorthodox”: 12 respostas às perguntas que fez ao ver o novo sucesso da Netflix

A minissérie conta a história real de uma mulher judia em fuga de uma misteriosa comunidade ultra-ortodoxa.
Esta é a minissérie que já devia ter visto

A história abre com um plano fechado de um arame solto preso a um poste. O que parece insignificante rapidamente se torna num obstáculo para Esther, uma jovem de 19 anos que tenta sair de forma apressada do prédio onde vive. À porta, um conjunto de mulheres com bebés avisa-a: a proteção está quebrada e não é possível sair com nada nas mãos.

“Unorthodox”, a minissérie da Netflix que estreou no final de março e já ocupa um lugar no top das mais vistas, leva-nos ao interior de uma comunidade fechada, misteriosa e extremamente religiosa. Para os judeus ultra-ortodoxos, a vida faz-se entre regras rigorosas que os isolam do mundo. Não estamos no meio de nenhures. Estamos no centro do mundo, em Williamsburg, um bairro de Brooklyn, Nova Iorque.

Décadas após o fim dos guetos de judeus na Europa, a maioria vive hoje adaptada ao mundo moderno. Não é o caso dos ultra-ortodoxos, que preferem manter-se isolados. Como é descrito na minissérie, sempre que viveram junto “dos outros”, Deus castigou-os.

Voltando à história, “Unorthodox” apresenta-nos Esther Shapiro (Shira Haas), uma jovem de 19 anos que decide escapar ao marido, a um casamento arranjado e à comunidade, a única que conheceu em toda a vida. É um relato dramático, particularmente por se inspirar na vida de Deborah Feldman, cuja autobiografia serviu de base à produção original da Netflix.

É à boleia do relato da sua fuga que os quatro episódios da minissérie revelam, às vezes de forma subtil, outras vezes nem tanto, os hábitos, tradições e regras dos judeus hassídicos — uma comunidade habitualmente envolta em polémica.

Atenção, este texto contém spoilers. Se ainda não viu, guarde este artigo para ler quando terminar “Unorthodox” — vai dar-lhe resposta a todas as perguntas que inevitavelmente vão surgir.

Quando Esty tenta fugir, é impedida de sair por causa de um cabo caído que quebrou a proteção. O que é essa “proteção”?
O dia de descanso judaico, chamado shabat, acarreta algumas regras rigorosas que têm que ser observadas. Uma delas é a proibição de transportar ou empurrar objetos em espaços públicos. A regra tornou-se difícil de aplicar nos dias de hoje e os rabinos resolveram contorná-la criando uma espécie de área delimitada onde essa regra pode ser quebrada: o eruv.

Este espaço é delimitado por arames presos a postes, que criam uma espécie de barreira. Dentro desse espaço, o transporte é permitido durante o shabat. Quando um desses fios se quebra, o espaço é violado e deixa de existir — e por isso Esty estava impedida de sair com a carteira e as mulheres de se deslocarem com os carrinhos de bebé.

O eruv de Manhattan é quase invisível

O eruv é uma tradição em algumas comunidades judaicas, particularmente as ortodoxas. O eruv de Williamsburg está longe de ser único ou o maior. Há alias um eruv em Manhattan que cobre a maior parte da área da ilha. Os quilómetros de fios são verificados todas as semanas por um rabino para garantir que o shabat decorre sem problemas e tem um custo de manutenção de mais de 90 mil euros por ano.

Em Portugal existe pelo menos um eruv, construído no final de 2019, na vila de Belmonte, conhecida pela sua enorme comunidade judaica.

O que é o pequeno adereço de madeira que está em todas as portas e onde todos tocam?
Está um pouco por todo o lado nas casas de Williamsburg, sempre afixado nas entradas das divisões e, claro, na entrada de cada casa. O objeto chama-se mezuzah e é uma caixa de madeira que contém um pergaminho com inscrições religiosas.

Há algumas regras na colocação da mezuzah: só deve ser colocada em portas que separam divisões, das quais se excluem as casas de banho. Diz a tradição judaica que quem entra na divisão deve tocar ou beijar a mezuzah.

Ele esta por todo o lado

Que língua é esta e porque é que parece alemão?
Iídiche ou yiddish é uma língua germânica que inclui elementos de hebraico, aramaico e de outras línguas eslavas. Era falada pela maioria dos judeus antes do holocausto e hoje é maioritariamente usada pelas comunidades hassídicas como a de Williamsburg.

Esty foi obrigada a rapar o cabelo depois do casamento. Porquê?
As leis religiosas consideram que existem partes do corpo das mulheres que são impróprias por serem potencialmente atraentes do ponto de vista sexual — e que por isso devem ficar longe da vista. A tradição de rapar o cabelo às recém-casadas não é sequer transversal a todas as comunidades hassídicas — umas fazem-no, outras não. O mesmo acontece com as perucas, mas isso leva-nos a outra questão.

O cabelo deve estar sempre coberto

Se elas têm cabelo, porque é que usam perucas e turbantes?
Tido como parte imprópria, o cabelo deve então ficar escondido, seja através de um turbante ou de uma peruca. Trata-se de uma tradição que remonta a milhares de anos, mas que foi mudando com os tempos: com o surgimento das perucas, também as mulheres perceberam que poderiam contornar as regras. Uma prática que provocou um aceso debate religioso.

E as tranças dos homens, têm alguma justificação?
É um mitzvah, isto é, um dos comandos de Deus e uma obrigação bíblica que diz expressamente que os homens não podem remover o cabelo entre a zona da orelha e da têmpora. A maioria dos judeus hassídicos preferem mantê-lo longo, muitas vezes com vários centímetros e impecavelmente encaracolado.

Os restantes ortodoxos também cumprem a regra, embora optem por interpretar a regra de forma menos estrita — desde que os pelos dessa zona não sejam rapados, não há qualquer violação da lei religiosa.

E os chapeús peludos?
Chamam-se shtreimels e são uma das peças mais caras da tradicional vestimenta dos ultra-ortodoxos. Tal como as mulheres, também os homens devem cobrir a cabeça, seja através de um chapéu normal ou, em casos especiais, destes exemplares mais elaborados.

São peças normalmente feitas de pelo de animal — de zibelinas ou de raposas — e podem custar entre mil a seis mil euros. Normalmente usadas pelos homens depois do casamento, são habitualmente tiradas do armário em ocasiões especiais como o shabat.

O chapéu não serve só para proteger do frio

Porque é que se vestem todos de igual?
Blazer e calças escuras, camisa branca e um longo sobretudo. É este o uniforme de todos os homens da comunidade e objetivo é o mesmo do uso do shtreimel e do peiot: são um símbolo da sua religião e que devem ostentar com orgulho.

Vamos falar sobre as cozinhas cobertas com papel de alumínio?
É uma das visões mais estranhas da série. Balcões, mesas, fornos e microondas, todos cobertos. A justificação é simples, embora curiosa. O hábito que não é exclusivo dos ulta-ortodoxos tem lugar na Páscoa judaica, ou pessach, e é uma medida preventiva para evitar comidas feitas com levedantes como o fermento.

Pista: não é por causa do coronavírus

Para que serve o banho de purificação que Esty tem que tomar?
Antes do casamento, toda uma série de regras sobre menstruação são explicadas a Esty, que acaba por ir aquilo a que os judeus chamam de mikveh. Trata-se de uma pequena piscina interior que tem como objetivo purificar quem mergulha. No caso das mulheres, isso deve acontecer uma vez por mês, sete dias após o fim do ciclo menstrual. No caso dos homens, o mergulho pode ser feito após uma ejaculação. A mikveh é também usada em conversões ao judaísmo.

O que são as caixas que usam na cabeça quando rezam?
Fazem parte do ritual de reza que deve acontecer três vezes por dia. Chamam-se tefillin e são pequenas caixas de pele que guardam pergaminhos com inscrições religiosas. São usadas aos pares, uma na cabeça e outra no braço, sempre acompanhadas de uma fita negra.

É verdade que não usam tecnologia?
Não. Os judeus ultra-ortodoxos, na sua maioria, podem usar livremente telemóveis, carros ou outro tipo de tecnologia. Ainda assim, o uso é restrito, já que não podem ver televisão ou consultar a Internet, tidas como formas de acesso a conteúdos que podem desviá-los do caminho religioso. E sim, a pornografia está absolutamente proibida.

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