Televisão

Vasco Palmeirim: “Eu era muito tímido, introvertido, não era o palhacinho da turma”

2020 tem sido um ano peculiar para o apresentador. Mas entre mudanças, há coisas que nunca se alteraram, como conta à NiT.
Ele já tinha saudades do "The Voice".

Entre a televisão e a rádio, Vasco Palmeirim continua a mil à hora. A pandemia até o abrandou mas nunca o travou. E os 41 anos por vezes até podem pesar mas não lhe roubaram nem um pouco do que gozo com que faz as coisas.

Num ano em que viveu esta outra aventura, que é a de ser pai pela segunda vez e em tempos de pandemia, o apresentador tem conquistado os domingos à noite na televisão portuguesa com o regresso de “The Voice Portugal”. Além disso, “Joker” tem sido um sucesso (também na RTP1) e continua a animar as manhãs de milhares e milhares de portugueses na Rádio Comercial.

No “The Voice Portugal”, há menos abraços mas está lá o mesmo Vasco Palmeirim, capaz de dar uma palavra amiga quando a voz vacila a um concorrente. Entre a sua agenda sempre acelerada, o apresentador falou com a NiT. A vida não para, nem em tempos de pandemia. O importante é saber dar o exemplo.

Estamos habituados a um Vasco Palmeirim em modo hiperativo. A pandemia obrigou-o a abrandar?
Obrigou, obrigou. Acima de tudo em termos físicos. Andava de um lado para o outro, rádio-“Joker”, “Joker”-rádio, e literalmente durante algum tempo tive que abrandar e ficar em casa. Foi uma novidade para mim. Fiquei aqui, no quarto do meu filho mais velho. Tive de lhe pedir autorização para usar as suas instalações [risos]. Tive de ficar naqueles primeiros tempos em confinamento. A partir do momento em que se pôde voltar a trabalhar voltei ao modo acelerado. É algo de que não me posso queixar. Continuar a trabalhar é muito importante.

Como foi trabalhar nestes tempos? Na rádio, por exemplo, houve uma altura em que muitos ouvintes andavam menos de carro.
Sim, aconteceu uma grande mudança: toda a gente estava a fazer e a ouvir rádio de forma diferente. A dada altura fizemos transmissão de rádio também para o Facebook, abríamos as portas da nossa casa às pessoas. Foi uma grande novidade, para nós e para as pessoas: estavam a ver rádio.

Foi difícil?
Tecnicamente foi muito complicado. Há sempre aquele delay de um ou dois segundos e nós somos cinco a fazer o programa. Ao início foi difícil, tivemos de arranjar uma espécie de esquema de dedo no ar para não nos atropelarmos uns aos outros. Em comédia também havia aquele atraso. Dizíamos uma piada mas não tínhamos a reação logo na altura. Será que ouviram? Foi diferente mas a coisa fez-se e acho que fizemos um bom trabalho. Depois desta loucura toda houve pessoas a agradecer haver um pouco de normalidade, e essa normalidade era a Rádio Comercial. Foi uma aventura.

Como é que está a ser este regresso do “The Voice Portugal”? Já tinha saudades?
Tinha, tinha. O grande mistério era como fazer isto em tempos de pandemia e era difícil imaginar um “The Voice” sem a festa das pessoas quando a cadeira vira. Tivemos de adaptar a esta realidade. É complicado, não há abraços ou beijinhos, há cotovelos. A festa é diferente mas os resultados e audiências que temos tido mostram que tem corrido bem. Gosto sempre de realçar que os mentores são muito importantes, a química, o cenário, mas o mais importante são as vozes dos concorrentes. Se as vozes não forem boas não temos programa. E estamos a ter mais uma edição espectacular.

Houve mudanças.
Sim, tivemos que mudar esta fase das batalhas, era uma fase em que havia um contacto muito próximo de dois concorrentes com o mentor. Tivemos que arranjar uma nova forma de o fazer, em que cada concorrente escolhia a canção e um adversário. Mas na sua essência o programa está lá todo. O “The Voice” continua a ser o “The Voice”.

Também mudou o seu papel. Além de apresentador no “The Voice” tem sempre um certo lado de psicólogo.
Sim. É um programa em que há lágrimas de alegria e tristeza e com esse lado de psicólogo. Às vezes vemos que o concorrente vai abaixo e a vontade é abraçar e lembrar que é só um programa de televisão, e que se há lágrimas é porque a música é o mais importante e vale a pena continuar a lutar. Às vezes há esse lado sem o abraço. Conversa todos temos mas aquele lado de quase pegar no queixo e levantar a cabeça, este ano não deu. Foi talvez o lado mais complicado para mim.

Era importante não parar.
Eu sou muito da opinião de que temos de dar o exemplo. A Rádio Comercial é a rádio número um do País, o “The Voice” chega a quase um milhão de pessoas. Temos que dar o exemplo, mesmo quando às vezes tememos que o programa possa não funcionar tão bem. Temos que dizer às pessoas que hoje em dia é assim a realidade. E continuar.

Aos 41 anos, mantém o ar de miúdo.

Onde é que se sente mais em casa, na televisão ou na rádio?
Sinto-me perfeitamente em casa nos dois. Na rádio estou há muitos anos com “O Programa da Manhã”, na televisão às vezes perguntam-me o que acho de certos programas e se não me vir a fazer, não faço. Só faço coisas onde me sinta bem e onde penso que posso ser uma mais-valia. Quando não me sentir bem digo que não. Se aceito é por isso: é porque me sinto em casa.

Quando é que descobriu que gostava deste lado de comunicador?
Desde cedo, quando pensava no que queria fazer, percebi que tinha a ver com comunicação. Entrei em Comunicação Social sem saber muito bem o que fazer mas sabendo que era aquele o caminho. Podia ser ‘n’ coisas. Entrei à espera de que me aparecesse a luz e essa surge com a cadeira de rádio. Percebi que era aquilo. Era um desafio, tinha um lado de escrita, de produção, podia ter um lado mais humorístico ou informativo, tudo dependia do texto e da minha voz. E tive a sorte de ter sido convidado para estagiar numa rádio quando acabei o curso. Quando perdi a minha timidez na escola e percebi que tinha até um certo à vontade em fazer conversa com desconhecidos, percebi que aquilo podia dar para mim. Felizmente bateu tudo certo. Hoje em dia olho para os meus 41 anos, estou a fazer rádio desde 2002, televisão desde 2009, estou muito contente com tudo o que já fiz.

Como é que era em miúdo? Conseguia estar quieto nas aulas?
Eu era muito tímido. Era aquele rapaz super introvertido, só queria estar com os meus amigos a jogar à bola. Nas aulas tinha atenção, não era o palhacinho da turma. No nono ou décimo ano, quando comecei a ganhar um pouco de mais à vontade, sabia distinguir: não era espalhafatoso nas aulas. Depois lá fui ficando mais extrovertido. Lembro-me de que não me metia com as miúdas, se havia alguma rapariga a quem achasse mais graça ficava calado que nem um rato. Mas lá fui ficando mais solto, o que ajudou a perceber o que queria.

Não tinha aquela coisa de querer estar em palco.
Os meus pais eram ligados às artes, a minha mãe bailarina e o meu pai maestro. Lembro-me perfeitamente de ser muito miúdo e o meu pai dar um concerto no Convento do Carmo, ali no Chiado, e no final a minha mãe dá-me um ramo de flores para ir dar ao meu pai em palco. E eu “não, não quero subir ao palco”. E foi um primo meu a ir dar as flores ao meu pai. Eu nem para isso tinha coragem.

Foi preciso trabalhar esse lado extrovertido?
Tudo se trabalha. Uma coisa é teres aquela naturalidade espontânea, outra é perceber que dentro da tua área a espontaneidade tem regras e técnicas. Tudo isso se treina. A primeira parte é perceber se o teu à vontade te permite estar em frente a uma câmara ou ao microfone. É teres 40 segundos para encher chouriços, passe a expressão, e perceber se consegues pegar no microfone e falar. Depois há coisas mais técnicas, na televisão tens de saber onde está a luz, a câmara, tudo isso se aprende. Há quem goste do lado da rádio porque é um pouco mais escondido, há alguma privacidade para quem não gosta tanto das câmaras. Mas eu gosto muito dos dois lados.

Está com 41 anos mas continua com aquela cara e energia de miúdo.
Oh, meu querido, são os meus genes [risos]. O meu pai não me deu barba, continuo com meia dúzia de pêlos na cara e este ar de puto.

Não se sente quarentão?
Não sei. Sinto-me o mesmo Vasco que sempre fui. Obviamente que há coisinhas que hoje em dia já custam um pouco mais.

Como, por exemplo?
Olha, lembro-me de já estar a fazer o programa de rádio e haver um Super Bock Super Rock em Lisboa, ainda antes de o festival ir para o Meco. Era um cartaz com tudo o que eu ouvia na altura: Bloc Party, LCD Soundsystem, Arcade Fire. Foi o festival dos meus sonhos. E todos os dias eu saía de lá às três da manhã, ia a casa dormir uma horinha ou duas e às sete da manhã estava fresquíssimo para fazer o programa. Hoje em dia é impossível, se não dormir as minhas cinco, seis horinhas, já não dá. Mas continuo a adorar o que faço como quando comecei. Quando comecei a fazer os diretos do “The Voice” aos domingos à noite, a segunda-feira seguinte não custava. Agora custa um pouco. A recuperação já não é tão fácil, mas o amor e a vontade de fazer as coisas não mudou. Nem digo que não a nada pelos 40 anos.

Quem é que se costuma meter mais consigo na rua, pessoas mais novas ou mais velhas?
As duas, tanto recebo mensagens de “Oh Vasco, tira aí uma fotografia que o meu filho de 7 anos é teu fã” como “Oh Vasco, faz aí um vídeo para a minha avó, que tem 80 anos e te adora”. Costumo dizer na brincadeira que vou aos miúdos e aos mais velhos, os do meio não gostam de mim [risos]. Os miúdos tanto me apanham na rádio, adoram as músicas de Natal, como no “Joker”. E também sou aquele netinho que as senhoras mais velhas adoram. E fico muito feliz por isso. O que quero é que o meu trabalho seja bem recebido. Com os mais novos é ótimo, que são um público difícil de chegar, e os mais velhos é muito bom porque em certos casos veem televisão até como companhia.

Foi pai pela segunda vez este ano, não foi? Entre a pandemia e uma novidade destas, calculo que 2020 esteja a ser um ano peculiar.
Sim, sim, tivemos um covid baby. Nasceu em maio, em plena altura de confinamento, e já está habituado a ver toda a gente de máscara. Já não estranha. O nascimento do mais novo foi bastante diferente. Felizmente pude assistir ao parto. Fiz o teste umas 48 horas antes e pude assistir ao parto mas depois não saí do quarto de hospital durante uns quatro dias. Mas consegui o mais importante, que era estar lá. E agora é desfrutar do miúdo, mesmo dentro desta pandemia. Felizmente é um miúdo super saudável, está sempre a rir e tenho uma reação espetacular sempre que chego a casa. Desta vez não tivemos aquelas festas para a família e amigos, conhecem-no mais por fotografias e videochamadas. Mas há que respeitar as regras. Quando tudo isto passar, vamos ver quando, mas a vida tem de continuar e é assim que tem de ser. A pandemia está aí mas a nossa vida continua.

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