Televisão

Vem aí a CordesFlix — a plataforma de streaming de Rui Sinel de Cordes

A NiT entrevistou o humorista sobre o novo projeto. Para o ano, vem aí outro espetáculo, uma espécie de “Blade Runner” em stand-up.
O humorista teve um ano bom, com muitas salas cheias.

Chama-se CordesFlix e o conceito é fácil de decifrar — é uma espécie de Netflix só com conteúdos de Rui Sinel de Cordes. Trata-se de uma plataforma de streaming que o humorista lançou no Dia de Natal, 25 de dezembro.

O site já está ativo e explica aquilo que vai ter. Vai poder assistir aos espetáculos “Duetos” e “Prisma” — cada um com oito episódios — antes de estrear “O Início”, a grande tour do ano, que teve muitas datas remarcadas por causa da pandemia. Assim, a continuação, “É O Fim”, ficou adiada para 2021. Mas ambos vão ficar disponíveis na CordesFlix a seu tempo.

A plataforma não tem uma subscrição mensal, mas sim três modalidades de pagamento — disponíveis por 10€, 14€ ou 16€. O plano mais caro inclui vários conteúdos exclusivos. A NiT falou com Rui Sinel de Cordes que nos explicou tudo sobre o CordesFlix e aquilo que está a preparar para o próximo ano.

Quando é que começou a pensar nesta ideia de criar uma plataforma de streaming? Já era um desejo antigo ou foi algo que começou a desenvolver só este ano?
Comecei a pensar nisto quando o “Memento Mori” passou na TVI, em agosto do ano passado. E massacrou-me ver um espetáculo meu na televisão, por causa dos intervalos. Achei que não era sítio, sentia-me embaraçado, achei que não devia estar ali, honestamente. E na altura achei que tínhamos de criar uma plataforma não só para pôr os meus solos depois de os fazer, para as pessoas os verem em formato digital… e atenção que não se falava assim muito, quer dizer, já se falava, mas esta nova realidade que chegou a Portugal — mais rápido do que eu estava à espera — de as pessoas pagarem por entretenimento, para o consumirem no seu telefone ou no computador ou onde quiserem, achei que ia demorar mais um bocado a chegar. E o que é que aconteceu? Este ano queria fazer as minhas duas tours, isso é que eu queria, mas não foi possível. Como a ideia era arrancar com isto para o ano… As alternativas de entretenimento que estavam a ser oferecidas às pessoas não me pareciam muito boas, honestamente. Não me parece que entrevistas à toa e lives por tudo e por nada em T3 em Mem-Martins sejam grande entretenimento. O que decidimos foi antecipar. Ou seja, antecipámos o que era para ser o projeto de 2021, que era montar isto. Passou “É O Fim” para 2021. Eu queria ter uma plataforma onde pudesse partilhar os meus solos e também fazer conteúdos originais e exclusivos diretamente para as pessoas. E perceber onde é que isto pode ir e qual é o interesse das pessoas em me darem 5€ ou 10€ por ano para eu fazer qualquer coisa.

É a altura para se fazer o “corte do middleman”, para usar a sua expressão?
Sim, sem dúvida nenhuma. Eu comecei a pensar nisso quando o Louis C.K. há uns anos vendeu um solo no site dele a cinco dólares. E na altura, com a maravilha do mercado americano, fez quatro milhões de dólares. Eu percebi que havia aí qualquer coisa para o futuro. Não achei que esse futuro se manifestasse tão depressa em Portugal. Mas o que é certo é que já muita ou alguma coisa foi lançada nos últimos 12 meses em Portugal em pay per view. Já há um hábito dos patronos, dos podcasts que as pessoas pagam para ouvir ou que ajudam de alguma forma.

É uma questão de cultura ou hábito também.
É, mas surpreendeu-me. Nem uma pessoa, desde que comecei a dizer em maio que estava a gravar os “Duetos” para depois os lançar numa plataforma, ninguém me disse: “não te vou dar dinheiro para isso, estás é a roubar”. Aqueles comentários que se podiam ouvir há quatro ou cinco anos de “quem é que este gajo pensa que é?” Porque havia uma noção de que os conteúdos eram de graça e que as pessoas que os produziam não faziam mais do que a sua obrigação [risos]. E acho que hoje em dia as pessoas percebem. A oferta é muita, há muito lixo, e o prazer de ver uma coisa boa deixa qualquer coisa. Acho que as pessoas se habituaram definitivamente a que as melhores opções de entretenimento não estão de graça na televisão. Estão na Netflix ou na HBO ou num espetáculo que vais ver ao vivo. Ou o que seja. A proposta que as televisões trazem não é uma proposta pela qual fiquemos contentes. Quase que as televisões têm sido uma ótima ajuda com a sua péssima programação e as pessoas estão a fazer coisas diretamente para o público. Porque o público que estava habituado a ver televisão… a qualidade não é a melhor e procura alternativas e percebe que para ver Netflix, HBO ou Amazon Prime tem de pagar.

E pode-se ver o que se quer quando se quer ver.
Sim, e sem publicidade também. Mesmo quando puxo a box para trás, já tenho de levar com publicidade à mesma. Eu quase sempre — 95 por cento das vezes — puxo para trás, eu não vejo nada em tempo real porque é uma seca, não é? Mesmo futebol às vezes deixo passar um quarto de hora, para passar à frente quando os gajos se lesionam e o intervalo. Acho que as coisas estão a mudar e as pessoas estão preparadas para pagar. Tem que haver uma noção de se oferecer um preço justo às pessoas. Acho que estes pacotes que tenho aqui são extraordinariamente justos, duram um ano. Pelo menos até 31 de dezembro de 2021 o CordesFlix vai estar on e as pessoas vão poder ver. E também convém ter essa noção de que o dinheiro também custa às pessoas, 5€ ou 10€ é dinheiro. Mas não foi à toa que passei o verão, primeiro com uma equipa de escrita de quatro pessoas; depois com uma equipa de produção, de montagem e edição de vídeo, de umas 12 pessoas… Ou seja, é importante que as pessoas percebam que é bom dar qualidade, trabalhar para que não seja “ligo uma câmara no meu quarto e dá-me dinheiro porque existo”. A minha ideia é ser uma coisa de continuidade, não quero enganar ninguém e desaparecer com o dinheiro [risos]. É ficar com a plataforma onde todos os anos podemos fazer umas brincadeiras.

Rui Sinel de Cordes estreou este ano “Duetos”, com vários convidados.

E tendo em conta os conteúdos fazia sentido que fosse pay per view e não uma subscrição mensal porque exigia uma regularidade diferente?
Sim, tenho sempre muito medo quando subscrevo coisas mensais. Depois como é que é, para tirar, e se me arrependo? E será que é mesmo este valor? E também quis, como em fevereiro vai ser “O Início” no CordesFlix, que fosse uma plataforma de produtos independentes. Ou seja, quem não tem interesse nenhum no “Prisma” e nos “Duetos”, espera um bocadinho e tem “O Início”. E vice-versa. 

E que tipo de extras e conteúdos exclusivos vão estar incluídos no pacote mais alargado?
De cada episódio dos “Duetos” vou ter mais cinco ou dez minutos. Estes conteúdos extra não vão estar todos disponíveis no dia 25, só vão estar disponíveis a 15 de janeiro. Até porque não fazia sentido ter bloopers, o making-of do “Prisma” ou mostrar situações que não mostrei nos episódios dos “Duetos” antes de mostrar os espetáculos mesmo. Vamos esperar até dia 15, depois saem todos. Há também a minha atuação completa que fiz no Sá da Bandeira dos “Duetos”, porque ao longo dos episódios apareceu muito pouco dessa minha atuação. No total será mais uma hora ou hora e meia de footage. Quando sair “O Início” em fevereiro, à partida sairá também… não lhe chamaria documentário nem nada do género, mas diria que serão 30 minutos off stage. Gravamos sempre a chegada do público, ensaios, o camarim e vai ter isso. O que quero mesmo fazer é escrever “É O Fim” e fazê-lo. A partir de 16 de janeiro vou mergulhar nisso. Ainda me perguntaram se eu vou fazer mais “Duetos” ou “Prisma” se isto correr bem e a resposta é não. O CordesFlix pode ser o maior sucesso do mundo, mas nos próximos seis meses vou estar fechado a pesquisar e a escrever “É O Fim”. 

Apesar de ter sido um ano difícil para todos, e em particular para o setor dos espetáculos, fez bastantes atuações.
Fiz mais espetáculos do que noutros anos, por incrível que pareça [risos].

Mas envolve uma logística diferente e várias adaptações.
Sim, foi manhoso fazer assim. Tive algumas noites extraordinárias. As minhas expetativas estavam muito baixas, porque eu sabia que isto era diferente. Mas depois comecei a aperceber-me de uma série de defeitos, que não são bem defeitos… Quando pensamos que estou habituado a ter mil pessoas e que só vou ter 500, não é só isso. São espetáculos às oito da noite em que as pessoas vão diretas do trabalho, estão cansadas, não beberam um copo, não foram jantar, não estão com os amigos. É um espetáculo que já foi remarcado duas ou três vezes, as próprias pessoas já têm o bilhete na carteira, devem estar fartas. Os ares condicionados estão desligados, então é um frio enorme e as pessoas estão tapadas com casacos. Estão de máscara. Têm uma cadeira de intervalo, era mais fixe estarem ali packed, comentarem com a pessoa com quem foram. Ou seja, a vibe toda de ver um espetáculo passa dos 100 e cai para os 30 por cento. É o que sinto, pelo menos, eu que estou em palco, em relação ao retorno do público. Mas tive noites incríveis. Gravámos no Campo Pequeno e foi a melhor noite da minha vida em stand-up, penso eu, três mil pessoas no meio da pandemia [risos]. Bati o meu recorde, correu maravilhosamente bem.

E suponho que em março ou em abril não esperasse que conseguisse fazer coisas deste género.
Eu nem queria fazer. Depois começámos a ver o estado das coisas e comecei a pensar “espera aí, quanto tempo da minha vida é que vou ficar aqui com uma tour pendurada?” É menos grave estar agora pendurado porque não tenho um espetáculo a apodrecer na minha cabeça, compreendes? Ainda não escrevi “É O Fim”, vou fazê-lo agora, e é melhor assim do que n’”O Início”, quando ele começou a apodrecer. Passa um mês, depois passa outro e outro… E as palavras apodrecem, os sentimentos, as intenções. Quando avançámos foi numa de não quero que isto apodreça mais. Preciso de dizer isto até ao final do ano para partir para outra, e felizmente fez-se.

Sente que a pandemia lhe tem dado bastante material para escrever? Ou nem por isso?
Nem por isso. Acho que há mais o caso de o mundo estar a mudar muito rapidamente, a noção que as pessoas têm do mundo também está a mudar, em relação a questões grandes ou a outras que já se pensava que estavam meio extintas — como o racismo, os extremos na política cada vez com mais força e a subirem, mais a extrema-direita em Portugal, infelizmente. Estamos numa fase meio estranha. O que me fez foi quase ter vontade de não escrever para ver onde é que isto vai parar e poder finalmente tirar uma conclusão. Nós vivemos um ano de acontecimentos dramáticos, com uma velocidade e cadência fora do habitual. E eu estou a ver, a tirar notas e a ver quando é que me posso sentar e pensar sobre isto tudo. Se bem que o espetáculo do “É O Fim” é mais sobre o mundo daqui a 30, 40 ou 50 anos. É para onde é que nós vamos a sério: é essa a minha ideia. Isto vai ser assim e assim. Agora, vai ser impossível passar de “O Início” para o “É O Fim” sem analisar tudo o que se passou este ano, não só a pandemia, mas muito mais do que isso — mais a nível de natureza humana e das ilusões que se calhar não vale a pena ter em relação àquilo que somos e que sentimos. Nas primeiras semanas havia aquela vibe em muitas pessoas de “estamos a atravessar isto e vamos sair melhores pessoas”, zero, zero. Eu disse logo que não [risos], isto não vai melhorar a natureza humana. Se fez alguma coisa, piorou. Por isso é interessante abordar desse ponto de vista.

Também pode ter influenciado algumas noções que já queria explorar no “É O Fim”.
Sim, já mudei de ideias sobre tanta coisa. Mas depois passam dois meses e já não acredito naquilo. Por isso ainda bem que estou quieto. Estou a ver e a perceber como é que posso tirar conclusões. Mas acima de tudo serão conclusões mais à frente, a ver com tecnologia, como será realmente o mundo. Vou tentar fazer um exercício meio “Blade Runner” em stand-up comedy. Vou tentar apresentar uma sociedade daqui a 30 ou 40 anos, acho que é mais isso. 

A plataforma vai ter conteúdos esporádicos.

Há alguma coisa que já possa desvendar?
Quando as pessoas falam do futuro, fala-se muito de inteligência artificial e da utilização que ela vai ter — ou como é que vamos impedir que ela se sobreponha a nós. Também tem muito a ver com isso, com saúde, transportes, movimento. Mas na minha opinião há outros ângulos interessantes, como, por exemplo, a religião do futuro. Na história de tantos filmes e séries a inteligência artificial desenvolve-se demais e vira-se contra nós… Isso parece-me uma evidência. Agora, está pouco explorado essa inteligência artificial a fazer outras coisas além de virar-se contra nós. Eu falo de como é que essa inteligência artificial vai encarar a religião. Como é que vai encarar o universo e o facto de existirem mais planetas e vida extraterrestre? Ou seja, se uma inteligência artificial pode crescer ao ponto de nos dominar, ela não vai questionar Deus? Não vai criar uma religião artificial para si própria? Já que nós também criámos a nossa. Há muitas questões interessantes, passava horas aqui a dissertar [risos]. Estou a ler coisas e à espera para formar opiniões.

Tem lido mais ciência ou ficção?
Muita ficção. Eu não sou muito de novels — aquilo a que se chama romances, que nem são bem romances — mas comprei dois agora do William Gibson, um guru da escrita de futuro e da tecnologia e estou a ler agora. Mas acima de tudo leio muitos livros sobre economia, política e tenho lido muito sobre inteligência artificial e coisas viradas para a organização de sociedades no futuro. Quer livros que sejam propostas de soluções como outros que são mais “isto vai ser assim”. E há muitas teorias diferentes. Tenho que escolher uma para mim ou inventar uma, que é o bom deste espetáculo, porque não tenho que me cingir ao que é real — porque o outro tinha uma base real que as pessoas conheciam e este não. Este é totalmente livre.

De tudo aquilo que tem lido, tem ficado assustado, ou nem por isso, porque é algo ainda distante?
Li um livro que foi o “Factfulness” que me deu o efeito contrário. Fiquei mais descansado com o que nos espera. É um livro que através de dados, gráficos e alguns testes rápidos que fazes enquanto lês apercebes-te rapidamente de que a situação do mundo não é tão grave como tu pensavas. Há mais eletricidade, mais água potável, mais crianças com escolaridade e começou a mudar um bocado a minha opinião do futuro disto tudo. O que é certo é que este ano voltou a puxar-me para trás e eu já não sei se os factos que estão naquele livro, dada a Covid e as restantes convulsões que atravessamos, se aquilo ainda é real, se faz sentido. 

E ainda não existe uma previsão para a estreia de “É O Fim” porque depende muito de como a situação evoluir?
Eu à partida vou evitar fazer isto com as salas a meia capacidade. Vou esperar uma novidade melhor para todos nós, porque também é difícil para o público. As pessoas gostam e a melhor parte das pessoas agradece por o termos feito, mas eu sei que é difícil estares 1h30 de máscara, em horários manhosos. Os espetáculos ao vivo foram feitos para outro tipo de vibe, de situação, para te estares a divertir. É tudo contra natura. E sofre o público e quem está em palco. É impossível dares o mesmo. Vamos ver se é possível para julho ou setembro. Vamos esperar pelas vacinas e ver o que será possível.

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