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Vi o programa que põe crianças a fazerem recados sozinhas — e sinto-me um falhanço como pai

“Já Somos Crescidos” é um fenómeno no Japão e chegou agora a Portugal. O choque com a nossa realidade não podia ser maior.
Estes putos são incríveis

Miúdos a fazerem recados sozinhos. O conceito parece ser o de mais um reality show levado ao limite do absurdo. Depois de nos aproveitarmos do ridículo dos estranhos dispostos a ficarem fechados em casas recheadas de câmaras, virámo-nos para as crianças.

A verdade é que os japoneses andavam a lançar miúdos à rua sozinhos muito antes da febre destes espetáculos degradantes tomarem conta das nossas televisões. Trinta anos depois, o ocidente descobre as maravilhas de “Já Somos Crescidos”, cujos episódios acabam de aterrar na Netflix neste final do mês de maio.

O conceito é simples: a cada episódio, um miúdo entre os dois e os cinco anos recebe uma tarefa da mãe. Terá que a fazer sozinho, indo a pé de casa até ao destino, e depois regressar. Pelo caminho, é acompanhado de membros da produção, equipados com câmaras ocultas para não distraírem os protagonistas.

Aventurei-me no primeiro episódio com a certeza de que aqueles pais só poderiam estar loucos. Ao meu lado estava a minha filha, numa das suas cada vez mais habituais birras — à falta de melhores adjetivos, digamos que gravada em filme, se assemelharia a uma das sessões de exorcismo d’”O Exorcista”.

Com dois anos e oito meses bem contados, hesita em sair da porta de casa. Raramente se afasta um par de metros na rua. Emudece perto de estranhos. A nível de independência, está a um aquário de ser um pequeno peixe doméstico.

No ecrã, é-nos apresentado Hiroki, um menino japonês com precisamente dois anos e nove meses. Sentado ao lado da mãe, aprende como usar uma bandeira amarela com algo escrito em japonês — descobrimos, mais tarde, que a tradução é “pare” e serve para assinalar, mesmo na passadeira, que pretende atravessar a rua.

Equipado com uma bandeira e uma pequena carteira pendurada ao pescoço, Hiroki ouve atentamente o recado e a lista de compras. Um ramo de flores, uma embalagem de caril doce e outra de bolinhos de peixe. Fiz uma aposta que, acredito, qualquer pai português faria. “O raio do miúdo não há de cruzar a esquina sem derramar uma lágrima.” Pois.

Não só não chorou como não olhou para trás. Hiroki estava também convicto em bater o recorde: a completar o percurso de dois quilómetros de ida e volta, completaria a maior distância percorrida no programa por um rapaz tão novo. Ao meu lado, a minha filha continuava aos berros, sozinha num canto da mesa, presa à cadeirinha. “Não quero comer.”

Algures no Japão, este rapazito tinha mais com que se preocupar. Caminhava cuidadosamente no pequeno passeio ao largo de uma estrada movimentada. De um lado, um enorme muro. Do outro, a um metro, enormes autocarros.

É um verdadeiro teste de nervos para qualquer pai que ousa assistir a “Já Somos Crescidos”. E de repente, Hiroki já estava no supermercado, a fazer o que por vezes até eu, um adulto barbudo de 36 anos tem dificuldades: encontrar o caminho certo, pelos corredores labirínticos dos supermercados, até ao que temos que comprar.

Agarrou na caixa de bolinhos, pediu ajuda para dar com as flores, pagou e pôs-se ao caminho. Já na rua, lembrou-se: tinha-se esquecido do caril. Quem nunca?

Voltou, completou o recado e lá foi para casa, de ranho no nariz e arrastar as flores pelo chão. Chegou com o troco certo, o recibo e com todos os membros intactos. Na minha contabilidade, isso é uma vitória para o Desportivo de Chaves, sem espinhas, na final da Champions. Absolutamente impensável.

“Este rapazito é um fenómeno”, pensarão quase todos. O mais curioso veio depois. No episódio seguinte, um miúdo de quatro anos deixa os pais na apanha da tangerina para ir até casa e, sozinho, fazer uma caneca de sumo espremido na hora, com direito a gelo, açúcar e um toque de sumo de limão.

Mais: outro episódio, mais uma ventura de uma pequena rapariga que se aventura pelo supermercado para comprar peixe fresco, peixe em tempura e um pacote de massa. Contabilidade feita, três recados cumpridos, zero ossos partidos, zero arranhões, um par de lágrimas e um nariz ranhoso. Parece-me, a mim, um verdadeiro sucesso.

O tempo que levou a que estes três miúdos completassem as tarefas foi mais ou menos o tempo que durou a birra da minha filha para comer um iogurte. Qual é o segredo dos japoneses? Será genético? Será das papas?

É muito fácil atirar as culpas para o resto do mundo. É certo que nem todos terão, aos dois anos, a capacidade de Hiroki, mas qual é a desculpa dos que têm quatro e cinco anos? A culpa pode muito bem ser apenas e só nossa, dos pais. Contra mim falo: esta bolha criada para os proteger de qualquer arranhão é contraproducente no que toca à independência.

No fundo, gostávamos todos de ser corajosos como estes pais japoneses. “Consegues ir ao supermercado sem ser atropelada?”, questiona uma das mães, com aquela descontração de quem tem como mantra a expressão “qual é a pior coisa que pode acontecer?”.

O problema é que, na nossa cabeça, não há nenhum cenário que não seja o pior cenário possível. “Já Somos Crescidos” é muito giro, sim senhor, mas é com os filhos dos outros.

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