Televisão

Victoria Guerra: “Acredito que a série portuguesa da Netflix seja a primeira de muitas”

A atriz portuguesa integra o elenco de “Glória” e participa no filme “O Ano da Morte de Ricardo Reis”, que estreia quinta-feira.
A atriz tem vários projetos entre mãos.

Na última década, Victoria Guerra afirmou-se como um dos principais nomes do cinema em Portugal. Desde “A Herdade” a “Variações”, passando por “Linhas de Wellington” ou até “Refrigerantes e Canções de Amor”, a atriz de 31 anos tem feito um percurso que a tem colocado numa rota de cada vez maior destaque.

A televisão também continua a ser uma das áreas em que trabalha com regularidade e onde é reconhecida. Além das várias novelas, fez séries como “3 Mulheres”, “País Irmão” e “Auga Seca”. Nos últimos dias acabou de gravar uma nova produção para a SIC, “A Generala”, e está prestes a começar a rodagem da primeira série portuguesa para a Netflix.

“Glória” é um thriller de espionagem que vai ser realizado por Tiago Guedes, a partir de um argumento de Pedro Lopes, numa co-produção entre a SP Televisão e a RTP. Ainda não há data de estreia prevista.

“A série decorre nos anos 60, no auge da Guerra Fria, na pequena aldeia da Glória do Ribatejo, onde se situa a RARET, centro de transmissões americano que emite propaganda Ocidental para o Bloco de Leste. João Vidal, um engenheiro de famílias ligadas ao Estado Novo, mas recrutado pelo KGB, vai assumir várias missões de espionagem de alto risco que podem mudar o curso da história portuguesa e mundial”, descreve a sinopse do projeto.

Victoria Guerra foi convidada para fazer uma personagem específica da qual ainda nada pode revelar. Contudo, é no cinema que a vamos poder ver já esta semana. Na quinta-feira, 1 de outubro, estreia “O Ano da Morte de Ricardo Reis”, filme de João Botelho que adapta o livro de José Saramago sobre este famoso heterónimo de Fernando Pessoa.

Durante o verão, curiosamente, esteve a gravar outro filme inspirado na obra do poeta português. Victoria Guerra vai interpretar Ofélia Queiroz em “The Nothingness Club — Não Sou Nada”, obra de Edgar Pêra sobre os diversos heterónimos de Pessoa. Victoria Guerra tem agenda cheia, uma carreira pela frente e revela à NiT que um dia gostaria de trabalhar como realizadora. Leia a entrevista.

Apesar de este ser um ano tão atípico, tem tido muito trabalho recentemente. Como tem sido gravar e trabalhar nestas condições diferentes?
Não tem sido fácil. Na nossa área e em todas. Tem sido difícil. Íamos começar a gravar o filme do Edgar Pêra quando os primeiros casos começaram a aparecer em Portugal e parámos a rodagem. Nem sequer a tínhamos começado, o que até foi bom. E depois foi o primeiro projeto que fizemos pós-Covid. Acabámos por conseguir gravar em condições que para mim foram bastante boas. Arranjámos forma de nos isolarmos todos para podermos estar mais à vontade. Estávamos todos juntos, completamente isolados, e foi uma forma mais fácil de controlar. E fomos testados. Claro que foi chato não podermos ir a casa, não podermos ver os nossos familiares, mas no fundo estamos habituados a trabalhar nestas condições, muitas vezes trabalhamos fora e acabamos por não estar com a nossa família. É duro, mas foi uma forma de nos protegermos a todos. É complicado mas para toda a gente, em todas as áreas, em todo o mundo. Estamos todos a passar pelo mesmo.

No que é que se reflete no seu trabalho? É mais cansativo?
Claro que é mais cansativo, sair à rua hoje em dia é cansativo. O dia a dia de toda a gente neste momento é cansativo. A máscara… é tudo muito mais difícil. No nosso caso, na nossa área, trabalhamos com proximidade. Não só física mas emocional, tem que haver outro tipo… estamos constantemente em contacto e somos grupos muito grandes, há muitas produções adiadas por terem um número de atores ou de figuração muito grande. Logo aí o risco é muito grande. Nesse sentido é difícil e claro que demoramos muito mais tempo a filmar. É complicado e vai ser complicado durante muito tempo.

Falando de coisas mais animadoras, esta quinta-feira estreia “O Ano da Morte de Ricardo Reis”. É curioso porque no filme que gravou recentemente com Edgar Pêra também há essa ligação a Fernando Pessoa. Mas interpreta duas personagens muito diferentes, não é?
São completamente diferentes, sim. No filme do João Botelho, sou a Marcenda, que neste caso vem de uma adaptação da obra de José Saramago. Ele trabalha este universo pessoano de Ricardo Reis. É uma personagem onírica, quase fantasmagórica. E no filme do Edgar Pêra faço de Ofélia, uma das poucas conhecidas companheiras de Fernando Pessoa. Mas é muito curioso fazer os dois filmes e na verdade sinto-me privilegiada com este cruzamento do universo literário e cinematográfico. Tanto o João como o Edgar têm a própria linguagem e é um privilégio poder trabalhar sobre alguns dos maiores autores da literatura portuguesa.

Victoria Guerra é Marcenda em “O Ano da Morte de Ricardo Reis”.

O facto de haver esta base literária ajuda a construir as personagens?
Completamente. Por acaso tenho tido muita sorte nos últimos anos, tenho trabalhado muito em adaptações em cinema. A literatura permite um universo interior e uma descrição dos acontecimentos que o cinema não permite. Neste caso as obras literárias são fundamentais. No caso do filme do Edgar foi quase toda a obra do Fernando Pessoa. Mas no meu caso também nos focámos muito nas cartas entre a Ofélia e o Fernando Pessoa. Também tem um lado muito onírico, ele criou um universo físico sobre estes heterónimos. É um universo em que eles são de carne e osso e isso vai ser muito interessante de ver.

Eles cruzam-se entre si, é isso?
Depois as pessoas vão ter que ir ao cinema ver essa parte [risos]. O cinema do Pêra tem sempre muitas referências a Fernando Pessoa, aos heterónimos, e este projeto é a junção perfeita entre Edgar Pêra e Fernando Pessoa. Acho que ele fez um trabalho absolutamente fantástico. E tenho muita sorte por poder fazer parte destes dois projetos, com base nos dois maiores autores portugueses.

Para si é uma responsabilidade maior por isso mesmo?
Claro que sim. Por o público ter uma relação próxima com estes autores, há essa responsabilidade de ser o mais fiel possível. As pessoas têm no seu imaginário a Marcenda. Sendo que, apesar de tudo, são objetos muito livres e com linguagens muito próprias. É o olhar do realizador — cada um deles. E também há a responsabilidade de levar ao cinema e à tela as adaptações de grandes obras, de chamar novos públicos a reler e a ler estas obras que são de grande importância nacional.

Quais é que diria que foram os maiores desafios enquanto atriz para fazer estes papéis?
A nossa profissão é sempre desafiante. No caso do João Botelho, que tem um cinema muito próprio, clássico — diria eu —, com uma forma muito especial de filmar… O cinema do João é caracterizado por uma composição estética muito própria. E o trabalho tem de ser feito em função do tipo de cinema que ele faz. Da luz, dos enquadramentos e da montagem. Há um cuidado especial sobre a postura do ator em relação à câmara. No cinema do João é ele que conta a história através do seu olhar, através dos planos, do enquadramento. E nós somos objetos que fazemos parte desse enquadramento. O trabalho que nós fizemos foi mais ao nível da precisão da palavra, da transposição justa do texto de Saramago. Os diálogos não foram alterados, são iguais à obra. Foi um trabalho muito interessante: fugir do realismo. Que é algo que estou habituada a fazer na televisão, etc. No caso do Edgar Pêra é o oposto. Ou seja, também não há esse realismo, mas não há essa composição perfeita de quadros fixos. No entanto, também houve um cuidado especial com a palavra, sobre os textos de Fernando Pessoa. O maior desafio foi sermos o mais justos possíveis aos textos, trabalhar muito bem a precisão da palavra, a oralidade dentro do cinema, dentro do olhar de cada um deles.

Para si o mais interessante é trabalhar com estes cineastas diferentes, com as suas identidades diversas?
Completamente. Tão diferentes e tão iguais, atenção. Podem ter linguagens cinematográficas muito diferentes, mas há semelhanças. Porque existe cinema dentro dos filmes deles. Cinema clássico, as referências dos dois são as mesmas, e isso é muito bonito de ver.

A diversidade nos projetos em que participa é muito importante para si?
Acima de tudo é um grande privilégio. 

Além disso, foi confirmado que vai participar na primeira série portuguesa da Netflix, “Glória”. Que personagem é que vai interpretar?
Eu não posso contar nada [risos]. Não, é uma história de espionagem, no final dos anos 60, em plena Guerra Fria. É um orgulho poder fazer parte deste projeto. Poder trabalhar outra vez com a SPi e o Tiago Guedes, estou muito entusiasmada. Ainda não comecei a rodagem, mas já sei que eles começaram.

Já tinha ideia deste centro americano no Ribatejo, do lado mais verídico que dá origem à história da série?
Eu não conhecia a fundo, não, mas fico muito contente que estejam a contar esta história. Porque a nossa história é infinita. Podíamos fazer milhares de séries — e havemos de fazer — sobre a história de Portugal. Eu sabia que Portugal era uma ponte de espionagem entre os Estados Unidos e o resto da Europa, e esta história está muito, muito bem escrita. Estes pormenores todos eu não conhecia.

Mas o tema pareceu-lhe logo interessante?
Super, claro. A história portuguesa é riquíssima. Mesmo dentro do universo de espionagem, há muitas outras histórias. Eu não sabia da existência deste centro em específico, não fazia ideia e acho que o público vai ficar impressionado. 

E, como estava a dizer, reconhece a importância de ser a primeira série em Portugal feita pela Netflix.
Claro que sim. Nós temos profissionais — atores e técnicos — fabulosos. Já não era sem tempo. É uma grande responsabilidade, não vamos mentir, mas acho que temos tudo para que isto corra muito bem e que seja o primeiro de muitos. Espero que a Netflix, a HBO e todas estas plataformas apostem cada vez mais em talento nacional. Sei que foi um trabalho de muitos anos. Ou seja, estão há muito tempo a escrever esta história, a tentar vendê-la à Netflix e fico mesmo muito contente que finalmente esteja a acontecer porque acho que vai ser mesmo a primeira de muitas. É uma forma de chegarmos ao resto do mundo, porque efetivamente temos um talento enorme. O cinema português está presente em todos os festivais, todos os anos. Só falta a televisão, só falta as séries também chegarem além fronteiras. Acho que com esta série podemos abrir essa porta. E pode ser que a Netflix veja a capacidade que temos em criar bom produto e tão bom como nos EUA, como em Espanha, em França ou em Itália. Acredito mesmo que isso seja possível. Defendo isto há muitos anos e acredito mesmo que seja a primeira de muitas. Mas também cabe aos governos e às entidades apoiarem.

Sobre a outra série que tem estado a fazer, “A Generala”, na SIC, o que pode adiantar?
Já filmámos tudo, é uma história ficcionada, a partir de a Generala — uma mulher que no início dos anos 90 foi julgada por burla. Viveu a vida toda como homem, muito pouco se sabe sobre ela, apenas que foi julgada e que burlou imensa gente, e é uma adaptação livre e ficcionada da realidade. Porque há muita coisa que não se sabe sobre ela. É uma história muito importante de contar hoje em dia. É uma mulher que não se sentia bem no seu corpo, que lutava para ser independente, que não queria ser uma mulher no início da vida adulta, não se sentia confortável no papel de mulher, não só fisicamente como emocional e profissionalmente. Então acabou por fugir e viver como homem. E é a luta dela para viver como homem, e hoje fala-se cada vez mais de identidade de género, liberdade, e ao mesmo tempo que o mundo parece avançar no caminho certo, parece que retrocedemos não sei quantos anos. Portanto, fico mesmo contente que a SIC queira contar esta história. 

É um tema relevante hoje em dia.
É um tema relevante, é um tema português que muito pouca gente conhece, as pessoas que conhecem só se lembram do escândalo que foi nos anos 90 das burlas e de ela ter sido presa — e ela não esteve na prisão, ficou em liberdade condicional durante alguns anos. Mas muito pouca gente conhece a história dela. E é realmente impressionante, porque ela teve de fingir ser general para conseguir viver num corpo de homem, para ser levada a sério como homem. Se isso não é uma crítica à sociedade portuguesa da altura… acho que é muito curioso. E esta é a altura perfeita para a contar. É uma boa forma de refletirmos sobre o mundo e a sociedade em que vivemos, e sobre a igualdade de género, sobre a transsexualidade e a homossexualidade, sobre uma série de questões que são cada vez mais relevantes. 

Qual é o seu papel nesta história?
Eu faço de Beatriz, sou a sobrinha da Jacinta, que era a companheira de vida do general. E a Beatriz é a sobrinha que vai viver com eles no fim, numa altura em que a polícia já anda atrás dela. Não posso revelar mais porque se não estrago a história [risos].

E que tipo de pessoa é a Beatriz?
É uma mulher muito à frente, sem qualquer tipo de preconceito, não tem preconceito nenhum. Isto na história que estamos a contar. Ela existiu na vida real, mas não havia muita coisa sobre ela. Não deu para fazer uma pesquisa aprofundada e também não era isso que se queria. Na série vivia em Londres e volta a Portugal. É uma mulher livre, confortável e aberta. E gostei muito de fazer esta personagem numa altura em que havia mais preconceito do que há hoje em dia. Quer dizer, havia, mas olhando para o panorama mundial neste momento… parece que existe mais hoje em dia. Se calhar é porque há muito mais plataformas para as pessoas se poderem manifestar. Poderá ser isso, mas parece que estamos a retroceder, é o que sinto. Por isso gostava muito de contar a história desta mulher e mostrar que é tão mais simples não ser preconceituoso e que o amor é a única coisa importante e que é a única forma de haver progresso e que haja um mundo bom. O amor é a única coisa que faz o mundo andar para a frente. É a única forma de crescermos e evoluirmos enquanto espécie.

De todas as histórias possíveis de contar em Portugal, há alguma que adorasse fazer mas que ainda não tenha acontecido?
Estou muito contente por fazer parte da série da Netflix, porque sempre ouvimos falar muito de espionagem. Em princípio vamos fazer a segunda temporada de “3 Mulheres”, que é uma coisa que me alegra muito. Este foi um projeto que me interessou muito, falar sobre estas três mulheres e como é que elas revolucionaram Portugal durante a ditadura. Muitas vezes contamos as histórias através do olhar dos homens. E para mim foi um projeto bastante ambicioso contar através do olhar destas três mulheres o que é que elas fizeram sem medo. Também tinham um lugar de destaque e um certo poder nesta altura — a Natália Correia por ser uma grande poetisa, mas apesar de tudo tinha a polícia atrás dela; a Snu vinha de outro mundo e chegou a um Portugal atrasado, acabou por assumir como missão mudar Portugal e abriu a sua editora —, mas optaram por ser revolucionárias. Através do olhar de mulheres contar histórias tão importantes. E há muitas mulheres com histórias por contar. Como aquela que está agora no cinema, o “Ordem Moral”, sobre a antiga dona do “Diário de Notícias”. Mas tenho a certeza que vamos contar essas histórias todas, a RTP faz cada vez mais séries e a HBO, por exemplo, adquire muitas séries portuguesas, que a mim me agrada imenso. É super importante apostarem em produto nacional. Porque muitas vezes as pessoas não conseguem apanhar no cinema ou não veem na televisão, e nas plataformas há uma maior proximidade com o público. E gostava de falar sobre o Algarve.

A sua região?
A minha região, sim. Acho que ainda é retratado através do olhar de pessoas de fora, de pessoas que veem o Algarve como uma estância balnear. Apesar de o ser, existe um mundo, existe uma cultura e um universo, acho que é mesmo um mundo à parte. Como grande parte das regiões fora de Lisboa e Porto. Mas, obviamente, por ser algarvia, tenho esta vontade. Não como atriz, mas se calhar como argumentista, não sei se como realizadora. Não sei se tenho essa capacidade [risos].

Mas era algo que gostaria de explorar um dia?
É algo que gostava muito de explorar um dia, mesmo muito.

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