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Como a vida real de Ricky Gervais inspirou “After Life”

A nova temporada da série da Netflix estreou em abril e trouxe mais gargalhadas regadas com lágrimas.
Tony regressa para mais dores e sorrisos

“Nunca gostaste de ouvir quão encantador és. Mas és. És encantador. Mas és um inútil do caraças. Por isso decidi deixar-te um guia para a vida sem mim.” Um Tony desmazelado e destruído assiste mais uma vez ao vídeo deixado por Lisa antes de morrer, vítima de cancro. É desta forma que, em “After Life”, Ricky Gervais nos apresenta a uma das suas mais atormentadas personagens. Quase todas são auto-biográficas, explica o comediante, mas Tony é a que está “mais próxima” de si. 

A série que estreou em 2019 tornou-se num êxito global, apesar de dispensar grandes efeitos ou estrelas no elenco. Tem apenas seis episódios e desde 24 de abril que tem mais seis, graças à estreia da segunda temporada.

“Porque é que não haveria de ser [um êxito]?”, questiona Gervais. “Nunca tive dúvidas de que uma comédia sobre um homem com tendências suicidas e uma mulher que morreu de cancro poderia ser outra coisa senão hilariante.”

Ao seu estilo, o comediante britânico opera um jogo perigoso entre momentos que encolhem estômagos e entrelaçam gargantas com gargalhadas inesperadas. É um drama pesado com a dose certa de angústia e temperado pelo negro sentido de humor de Gervais, que roubou muita da sua vida para a entregar a Tony.

Jane Fallon, a sua companheira da vida real, não morreu, embora tenha servido de gatilho para que Ricky começasse a escrever o guião de “After Life”.

“Não consigo imaginar [uma vida sem a Jane]. Não me imagino a fazer o que quer que seja sem ela”, revela, acrescentando que num mundo sem a companheira, poderia transformar-se em Tony.

“Uma vez [a Jane] foi visitar a mãe a Brighton e a caldeira avariou. Não sabia o que fazer, por isso enfiei-me no sofá com o gato, debaixo do cobertor durante duas noites a ouvir a rádio — porque não conseguia sequer pôr a televisão a funcionar. Da vez seguinte, deixou-me instruções. Fez um desenho dos comandos e de tudo o que faziam. Mesmo assim, tive que lhe ligar. Acho que desabaria emocionalmente sem ela. Não saberia como lidar com isso.”

Dessa visão apocalíptica, Gervais saltou para outra ideia: “Imagina que perdes tudo e não queres saber de nada. Podes fazer tudo o que te apetece.”

O amor que inspirou “After Life”

Por perder tudo, Gervais referia-se a uma pessoa. “A minha resposta é perderes a tua companheira de vida.” A companheira a que se refere é Jane Fallon, que o acompanha desde 1982, ano em que se conheceram, ainda estudantes, e começaram uma relação que permanece intacta.

Juntos desde os tempos de faculdade, passaram tempos difíceis num pequeno e apertado apartamento de Londres. De repente, aos 40 anos, Gervais deixou para trás uma carreira musical falhada (já lá vamos) e um trabalho de escritório para se tornar numa estrela mundial à boleia do enorme sucesso de “The Office”. Jane era uma produtora televisiva que se tornou numa romancista de sucesso.

Ricky e Jane estão juntos há 38 anos

Alguns dos momentos mais duros de “After Life” chegam em forma de flashbacks de Tony e da mulher Lisa, cenas roubadas ao dia a dia do casal que está junto há 38 anos. “A Jane e eu estávamos no sofá a beber e a disparatar e eu pensava ‘Posso pôr isto na série'”, revela da cena que, diz, acontece regularmente lá por casa.

Acerca da relação, o comediante cita a personagem de Penelope Wilton — uma viúva que debate recorrentemente a vida e a morte com Tony, em algumas das cenas mais impactantes da série —, que diz que preferia viver a sentir saudades do marido, do que se fosse ele a ter saudades dela. “É assim que eu me sinto. Mas eu também quero morrer primeiro — e isso é egoísta.” 

Ao som de Ricky

Comediante brilhante, argumentista dotado e excelente ator. O que poucos sabem é que a veia artística de Gervais também se estende à música. Em 1982, Ricky tinha menos 30 quilos e ostentava um guarda-roupa irreverente e um penteado à David Bowie. Era o vocalista de uma banda que foi um fenómeno efémero.

Tinha 22 anos quando se juntou ao amigo Bill Macrae e formou os Seona Dancing, que tocavam um puro som dos 80 com muitos sintetizadores, gel e brilhantes. Dali resultaram apenas dois singles, algumas aparições na televisão e um rótulo de imitadores de Bowie.

A aventura durou apenas dois anos, mas ainda foi a tempo de tornar “More To Lose” num êxito nas Filipinas.

“Os singles falharam e foi o fim da coisa. Agora que sou famoso numa área diferente, as pessoas estão sempre a encontrar imagens minhas em que estou magro e jovem. É terrível, não é? Tinha maxilares e um encantador cabelo denso”, revelou ao “Entertainment Inquirer”. “Estou quase feliz que isso não tenha dado certo. Por esta altura estaria morto.”

À exceção de uma curta passagem pela indústria como agente de uns Suede em início de carreira, Gervais nunca mais atuou profissionalmente, mas a paixão pela música permanece. Os temas que compõem a banda sonora de “After Life” são outro dos pequenos tesouros escondidos da série — e todos eles saíram da coleção privada do comediante, que pela primeira vez conseguiu montar a playlist que sempre quis.

“Nunca tive um orçamento como este [para a banda sonora], por isso cometi loucuras”, revela. “Normalmente, o orçamento faz-se com o que sobra, especialmente em televisão, e acabamos por usar músicas genéricas. Desta vez escolhi os maiores artistas e as minhas canções favoritas. Já tentei fazer isto, mas nunca consigo ter dinheiro para tudo.”

A possibilidade de selecionar os temas um por um, significaram que cada cena tem a balada e as letras certas. “Até coloquei tudo no guião, por isso as montagens combinam com as músicas e são temas realmente comoventes. Dão vida às cenas. Há muito pouca coisa que bata a música. É como fazer download de emoções.”

Não surpreende, portanto, que a ação seja pintada com temas dos artistas que compõem o seu top de álbuns preferidos. E, sim, vai poder ouvir “Life on Mars”, de David Bowie, ou “Heart of Gold”, de Neil Young, entre muitas outras pérolas.

A morte, a dor e o riso

Contrariamente à história, Ricky não perdeu a mulher, embora tenha tido que enfrentar a morte dos pais no espaço de dois anos. O pai faleceu em 2002, dois anos depois da mãe, que foi vítima de um cancro, tal como Lisa na série.

Embora confesse que nunca entrou num estado depressivo e suicida — e muito menos recorreu a drogas —, teve uma relação muito próxima com aquele que é, possivelmente, o tema que paira sobre toda a série: o luto.

Em 2011, o comediante recordava a mãe e essa luta com a dor através da memória, muitas vezes um dom, ocasionalmente uma espécie de maldição. “Estarei a comer e a beber demasiado entre amigos e família, a celebrar a vida e a recordar aqueles que também o fizeram mas que já não o podem fazer. (…) Uma delas fez, de forma altruísta, o seu melhor por mim durante toda uma vida”.

O pai de Tony não reconhece o filho

Muita dessa dor foi transportada para a série, mas como Gervais nunca gosta de se levar demasiado a sério, tudo é equilibrado com a dose certa de humor no timing perfeito. Não é para todos, compreende o humorista que explica que “muitas pessoas não estão habituadas a ver este tipo de história na televisão”.

O cancro da mãe serviu de ferramenta para dar origem ao debate de “After Life”, até porque espelha um dos maiores medos do criador. “Não é estar morto, porque não faço ideia o que isso é. (…) O meu maior medo é que me digam: ‘Restam-te seis meses e vão ser os piores seis meses da tua vida.’ Que inferno”.

Se na obra de Gervais não há lágrima sem o devido comic relief, não seria diferente na sua própria vida. “Lembro-me do funeral do meu pai, estávamos todos a disparatar e a rir, ao ponto de termos que ir ter com o padre: ‘Desculpe lá isto. O pai tinha 83, se tivesse 50 estaríamos a rir-nos muito menos”, recorda.

Nem o funeral da mãe terminou sem que houvesse espaço para uma troca de nomes, um engano ao padre e uma gargalhada geral. “Estava lá eu, a minha irmã Marcia e os meus irmãos Bob e Larry. Mas o Bob preparou uma partida. De repente, o padre diz: ‘A Eva deixa para trás quatro filhos queridos: Ricky, Bob, Marcia e Barry. O Larry virou-se imediatamente para nós, que estávamos a chorar de riso — e o padre a achar que estávamos todos loucos.”

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