Televisão

A vilã de “Wild Wild Country” está de volta no novo documentário da Netflix

Ma Anand Sheela é a estrela de “Searching For Sheela”, que revela a nova vida da comandante maquiavélica dos Rajneesh.
30 anos depois, onde pára Sheela?

Acharya Rajneesh, guru indiano, liderava o movimento Rajneesh, culto que fez nascer nos anos 60 e que angariou seguidores em todo o mundo. Conflitos com o governo levaram o culto a ponderar uma estratégia inusitada: Bhagwan, como era conhecido o líder, comprou um rancho numa zona remota do estado norte-americano do Oregon. Seria nesse local que o grupo espiritualista, aparentemente pacífico, estabeleceria uma comunidade.

Era a sua Terra Prometida. O culto decidiu criar, ali mesmo, no meio da América rural e conservadora, um paraíso: uma comunidade que construiu as suas próprias casas e vivia a vida sem pudores. A população local, claro, não gostou.

O choque entre comunidades era inevitável. A receção hostil obrigou os Rasjneesh a defenderem-se. E no centro de toda a polémica, sobressaiu uma figura: o braço direito de Bhagwhan, uma jovem indiana de nome Ma Anand Sheela. O sonho da Terra Prometida acabaria em tragédia.

A história tornou-se numa das mais faladas em 2018, ano em que a Netflix lançou o documentário “Wild Wild Country” — a antecâmara que explica tudo o que irá ser revelado num novo documentário que estreou esta quinta-feira, 22 de abril.

Três anos depois, “Searching for Sheela” revisita a polémica e encontra Ma Anand Sheela com 71 anos, a viver na Suíça e a preparar-se para o regresso à sua Índia, 34 anos depois do exílio.

A personagem magnética — e eventualmente perversa — de Sheela, que foi um dos destaques de “Wild Wild Country”, é explorada enquanto a indiana procura explorar a herança que deixou entre os indianos. Seria tratada como um ícone ou como uma criminosa?

O documentário de uma hora precisa, no entanto, de um contexto. Isto é tudo o que tem que saber sobre os Rajneesh e Ma Anand Sheela antes de mergulhar nesta história louca de religião, traição e crime.

Um culto pacifista

Deu nas vistas a criticar o socialismo e as religiões mais ortodoxas. Chandra Mohan Jain haveria de se rebatizar como Bhagwan Rajneesh, antes de se tornar líder de um culto nos anos 60.

Pouco a pouco, acumulou seguidores, os neo-sannyasins, que usavam vestes coloridas e se deixavam encantar pelas sessões de meditação, pela celebração do amor e da paz. Curiosa era também a visão aberta da sexualidade, que lhe valeu a alcunha de “guru do sexo”. O culto foi um sucesso.

A ideologia atraiu não só indianos mas também muitos ocidentais, que viajavam até à Índia para se juntarem aos restantes sannyasins no tempo em Pune, construído com muitas e volumosas contribuições monetárias.

Visto como um autêntico Deus pelos seguidores, a lavagem cerebral começava desde cedo. Foi o que aconteceu com a jovem Sheela Ambalal Patel, cujos pais apresentaram a Bhagwan apenas com 16 anos no seu apartamento.

“Foi nesse momento que percebi que se a morte chegasse, eu a aceitaria. A minha vida estava completa”, revelou mais tarde Sheela sobre o momento em que viu pela primeira vez o líder do culto.

O confronto na América

No final dos anos 70, os Rajneesh começavam a criar alguma fricção com o governo indiano, que decidiu pôr um travão no seu crescimento. A exigência de milhões em impostos levaram a que Bhagwan encontrasse uma solução para continuar a aumentar o número de seguidores.

O indiano, que vivia na opulência — e tinha uma enorme coleção de Rolls Royce — reuniu o dinheiro e comprou uma das maiores quintas nos Estados Unidos, numa zona rural do Oregon. Milhares de seguidores fizeram as malas e partiram para a Terra Prometida.

Entre eles estavam engenheiros, arquitetos, médicos. A comunidade foi construída com as mãos de todos estes homens e mulheres e o terreno inabitável tornou-se numa pequena cidade com eletricidade, água corrente, casas, centros de meditação e até um aeroporto. Seria o paraíso dos neo-sannyasins.

Criaram a Terra Prometida nos Estados Unidos

Ma Anand Sheela já não era a jovem de 16 anos. Tinha crescido dentro da organização e era, então, a secretária de Bhagwan, o seu braço direito e mulher forte dos Rajneesh.

A adaptação deste grupo de místicos pacifistas que organizavam orgias à América rural foi tudo menos fácil. E em “Wild Wild Country”, é fácil que o espectador dê por si enraivecido contra o preconceito evidente demonstrado pelos habitantes locais.

A população sentia-se encurralada, à medida que os Rajneesh compravam cada vez mais terrenos e habitações. Na pequena localidade de Antelope, a visão dos homens e mulheres de vestes laranjas começou a tornar-se incómoda.

Através da assembleia local, começaram a boicotar os projetos de expansão. As táticas pacíficas dos Rajneesh começaram a tornar-se mais beligerantes: começaram a ocupar casas locais e, rapidamente, tinham a maioria dos votos para bloquear a vontade dos locais.

Em junho de 1983, o confronto tornou-se sangrento. Uma bomba explodiu num hotel dos Rajneesh, na cidade de Portland. Foi também o momento em que Ma Anand Sheela agarrou nas rédeas da liderança da comunidade e decidiu que teriam que se defender.

“Se um de nós for sequer ferido, terei 15 das suas cabeças. Estou a falar a sério”, chegou a dizer à imprensa durante o conflito.

Os seguidores pacifistas foram armados, receberam treinos de pontaria. Os confrontos com os locais aumentaram e era apenas uma questão de tempo até que este barril de pólvora explodisse.

O terror à solta

Numa tentativa de aumentar o número de seguidores, os Rajneesh começaram a acolher todos os sem-abrigo espalhados pelo país — uma estratégia que teve efeitos nefastos na comunidade, quando perceberam que muitos ex-toxicodependentes e criminosos não estariam dispostos a partilhar o mesmo espírito pacifista.

Dentro da organização, a tentativa de controlar a comunidade tornou-se cada vez mais obsessiva. Escutas, castigos corporais, tudo era aceitável sob a liderança implacável de Ma Anand Sheela.

Entre os conflitos violentos com os habitantes locais e a tentativa de controlar uma comunidade já em descontrolo, Sheela teve que se envolver na política local, para defender os Rajneesh.

Nas eleições locais de 1984, como forma de garantir que os seus candidatos venceriam, Sheela mandou espalhar salmonela nas saladas de dez restaurantes. Um crime de bioterrorismo — um dos mais graves na história do país — que contaminou mais de 750 pessoas

O exílio

Sheela acabaria por se revelar a mente por detrás de todos os crimes. Acusada pelas autoridades e pelo próprio Bhagwan de roubo, escutas ilegais, tentativa de homicídio e envenenamento em massa, fugiu para a Europa em 1985. Acabaria detida na Alemanha em 1986 e extraditada para os Estados Unidos, onde foi condenada a 20 anos de prisão. Ao fim de dois anos, saía em liberdade.

Acabou por assentar na Suíça, onde casou com um seguidor do culto. Nem aí se livrou de problemas com as autoridades. Uma nova acusação — por atos preparatórios para assassinar um procurador norte-americano — iria levá-la novamente a tribunal, onde foi considerada culpada. Nos anos seguintes, comprou dois lares de terceira idade, que ainda hoje gere.

Nunca fugiu a entrevistas e agora, trinta anos depois, regressa ao sítio onde tudo começou. E é também este o ponto de partida para “Searching for Sheela”.

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