Televisão

Vítima de bullying, Gwendoline Christie passou a aceitar o corpo e tornou-se uma estrela

Nunca seria atriz, disseram-lhe. Brilhou em “A Guerra dos Tronos” como Brienne, entrou em “Star Wars” e agora em “The Sandman”.
Foi Brienne em "A Guerra dos tronos".

As coisas nunca foram fáceis para Gwendoline Christie. Porém, quando teve oportunidade de se destacar — brilhou em “A Guerra dos Tronos” ao interpretar Brienne de Tarth — tornou-se uma estrela. Juntou-se ao universo de “Star Wars”, trabalhou com Jane Campion e agora participa na nova série da Netflix “The Sandman”. A produção estreou na plataforma de streaming na sexta-feira, 5 de agosto, e rapidamente se tornou numa das mais vistas: neste momento lidera o ranking das tendências do catálogo.

Natural de West Sussex, na costa sudeste de Inglaterra, sempre se sentiu diferente. Tinha uma pele extremamente pálida, mas o seu maior problema tinha a ver com a estatura: tem um metro e 90 centímetros de altura. A mãe era doméstica, o pai trabalhava na área comercial de uma empresa. Gwendoline Christie nasceu em 1978 e recebeu uma educação rígida — e os sítios onde mais se libertava, apesar de também terem imensas regras, eram o ballet e a ginástica rítmica.

Aos 11 anos, uma lesão nas costas obrigou-a a parar. Rapidamente canalizou a sua energia para outra área artística: decidiu ser atriz. Os pais incentivaram-na, foi estudar para o The London Drama Centre, mas sempre lhe foi dito que teria muitas dificuldades em obter papéis — graças ao seu aspeto incomum e por ser muito alta.

“Estava numa brilhante escola de representação e faziam questão de frisar que provavelmente nunca trabalharia na área porque não era parecida com a maioria dos atores”, disse numa entrevista ao portal australiano “News”. 

Gwendoline Christie já tinha sofrido bullying na escola, mas isto era diferente — acabava por ter um impacto maior. “Foi a primeira vez que tive noção do meu tamanho e das conotações negativas. Antes disso tinha experienciado bullying e essas coisas todas, mas não tens noção de que a forma como nasceste e como te pareces pode impedir que alcances oportunidades ou sonhos que ambicionas”, disse à “Stylist”.

Em 2002, a sua altura atraiu a atenção da fotógrafa Polly Borland, que fez uma série de trabalhos com Gwendoline Christie intitulados “Bunny” — que se prolongaram até 2008. Aparecia nua em muitas das fotografias. A atriz acreditava que a podiam ajudar a aceitar o próprio corpo, e até a questionar as convenções associadas à feminilidade. Acabou por se arrepender. “Só em retrospetiva é que fico chocada por ter feito aquilo. Foi dar demasiado de mim e hoje em dia não iria querer fazer aquilo”, comentou com a revista “Stylist”.

Brienne foi uma personagem adorada pelos fãs.

Nessa altura trabalhava sobretudo em teatro. Quando explicou ao seu agente que queria passar para o cinema e para a televisão, nem ele acreditou em Gwendoline Christie. “Ele disse: bem, boa sorte com isso”, contou a atriz à “News”. 

Christie tinha uma referência específica. Durante os anos 90, quando se determinou a tornar-se atriz, assistiu a um filme que a marcou particularmente. “Orlando”, uma adaptação do romance de Virginia Woolf, tinha Tilda Swinton como protagonista. Gwendoline Christie identificou-se de imediato com a aparência distinta da sua compatriota. 

“Vi esta mulher incrível que era tão pálida e diferente dos atores de Hollywood que estava habituada a ver. Lembro-me de pensar: bem, ela está num filme, parece de outro mundo, e é definitivamente fora da caixa. Pensei que talvez também houvesse espaço para mim.”

Conseguiu o papel de Brienne em “A Guerra dos Tronos” dez meses depois de o seu agente não demonstrar qualquer confiança em si. Só tinha participado nalgumas curtas-metragens ou como figurante. O diretor de casting havia visto uma peça sua e não demorou muito a convencê-lo. Ainda assim, Gwendoline Christie esforçou-se ativamente para ficar com o papel: começou a treinar arduamente, cortou o longo cabelo loiro e adotou um visual mais andrógino.

Brienne era uma mulher máscula, uma cavaleira leal e determinada, que rapidamente se tornou numa das personagens mais carismáticas da série. Muito graças à sua dinâmica com Jaime Lannister. Tal como Gwendoline, era olhada de lado pela sua aparência e características naturais. E tanto na série como na vida real isso acabou por lhe dar força. Tornou-se um ícone.

“Tendo em conta que sempre me senti um bocado sem género por causa do meu tamanho, interessa-me desafiar as ideias de preconceito e feminilidade e do que é ser uma mulher”, disse à “Stylist”. “Não consigo encontrar um grande propósito para mim sem ser estar ao serviço de uma ideia que é maior do que eu. Estou interessada em promover a igualdade e as mulheres. Combinar isso com o meu trabalho justifica a minha existência. É aquilo com que os atores sonham, encontrar um papel onde te encaixes que nem uma luva, com que te identifiques completamente.”

A partir daí, a sua carreira estava lançada. Trabalhou com Terry Gilliam em “O Teorema Zero” em 2013. Dois anos depois entrou na sequela de “The Hunger Games” e estreou-se no universo de “Star Wars” enquanto Capitã Phasma — papel a que regressaria em 2017, em “Star Wars: Episódio VIII – Os Últimos Jedi”. Em 2018 colaborou com Robert Zemeckis em “Bem-vindos a Marwen”. E antes disso teve a oportunidade de entrar numa série de uma das suas maiores referências, Jane Campion.

“Sou fã do trabalho da Jane desde que, aos 11 anos, a minha mãe me mostrou ‘Um Anjo à Minha Mesa’. Depois vi ‘O Piano’, que teve um impacto profundo em mim”, contou ao portal australiano. “Quando vi a primeira temporada de ‘Margens do Paraíso’, disse-me muito — fiquei mesmo tocada com aquilo. Senti que era diferente do que se costumava ver numa série de televisão. Então escrevi uma carta à Jane a dizer o quanto apreciava o trabalho dela.”

Quatro meses depois, Jane Campion telefonou-lhe. “Tenho estado a sonhar contigo! Escrevi-te uma personagem na continuação da saga. Espero que a possas fazer.” Gwendoline Christie ficou rendida. “Foi a concretização de um sonho. Tenho de admitir que fiquei assoberbada.” 

Acima de tudo, foi o papel de Brienne que a tornou uma estrela e que permitiu que também se auto-validasse de alguma forma. Quando questionada pela “Stylist” se é muito reconhecida na rua, Gwendoline Christie não esconde que sim. “Mas isso é porque tenho um metro e 90 e uso saltos altos. As pessoas sempre vieram ter comigo para me perguntarem o quão alta sou. Desde que tenho 14 anos. Agora perguntam-me se fiz parte de ‘A Guerra dos Tronos’. Foi o que sempre quis — ser reconhecida como atriz e não apenas como uma pessoa com uma altura acima da média.” Carregue na galeria para conhecer outras séries novas que pode ver, além de “The Sandman”.

ÚLTIMOS ARTIGOS DA NiT

AGENDA NiT