Televisão

As vítimas de assédio sexual que estão a fazer explodir o MeToo em Portugal

Muitas são figuras públicas, atrizes e cantoras que denunciam as abordagens quando começaram a carreira. Algumas perderam os trabalhos.
As denúncias não páram

Terá chegado a altura das mulheres portuguesas finalmente serem ouvidas no que toca ao assédio sexual? A onda de revelações das últimas semanas parece indicar que, sim, a vaga do movimento MeToo terá chegado a Portugal. “Vou falar mesmo a sério agora. E não pensem que é moda, mas como agora toda a gente fala, há uma libertação geral. [O momento mais embaraçoso da minha vida] foi quando fui assediada sexualmente”, revelou Catarina Furtado, não esta semana, mas em abril de 2018.

A apresentadora não foi a única a ousar fazer a confissão numa altura em que poucas o faziam. Dias antes dessa revelação em entrevista à “Rádio Comercial”, também a atriz Dânia Neto havia revelado ter sido vítima de assédio sexual. Seguiu-se a vez de Raquel Henriques, atriz que terá ficado sem trabalho por causa da rejeição de avanços de alguém com poder na indústria.

A verdade é que o movimento MeToo nacional não foi muito além destas três vozes — e ficou adormecido durante três longos anos. Pelo menos até chegarmos ao momento que terá servido de gatilho a uma avalanche de confissões que prometem não se ficar por aqui.

Nas redes sociais ou em entrevistas, várias figuras públicas fizeram questão de dar também o seu contributo ao movimento que se acendeu após a entrevista de Sofia Arruda, a atriz de 32 anos que aproveitou a passagem pelo “Alta Definição” para contar a sua história.

O ambiente de apoio às vítimas parece reforçar cada vez mais o ambiente e propiciar o surgimento de novas denúncias, não só com origem em figuras públicas, mas também desconhecidas que, a dada altura, se viram encurraladas, sobretudo em ambientes laborais. Os nomes, esses também começam timidamente a ser revelados.

Sofia Arruda

Foi o seu caso que motivou a mais recente onda de revelações. A entrevista bombástica de 17 de abril, com Daniel Oliveira no “Alta Definição” da SIC, trouxe o tema do assédio sexual de novo para a praça pública. Sobretudo porque, revelou a atriz, a sua rejeição foi recebida com represálias.

“Deixei de ter trabalho. Foi uma situação muito delicada, sabia porque é que não estava a ser escolhida. Foi uma aproximação menos profissional da parte de uma pessoa com muito poder dentro de uma estação de televisão, uma produtora”, explicou a atriz que diz ter sido afastada durante vários anos, na sequência desse evento.

“Queria uma atenção que não era profissional. No início não percebi o que se estava a passar. […] Tentava manter a coisa o mais profissional possível.”

As abordagens do homem que não foi identificado rapidamente se tornaram incómodas. “Era um cumprimento que ficava num sitio que não era suposto, um beijo que deixa um bocado constrangido.” A situação piorou e começou a envolver convites para encontros a dois.

“Disse que se fosse realmente uma reunião de trabalho, um almoço ou jantar, a minha agente ia comigo e se não fosse essa a intenção então não haveria qualquer almoço e jantar. A pessoa disse-me ‘ok se é essa a tua decisão’.”

De forma insistente, o homem terá tentado continuar a pressionar a atriz a ceder. “Estava na cadeira de maquilhagem e a pessoa agarrou-me no braço e disse-me ao ouvido: ‘Essa é a tua ultima decisão?’ Disse ‘sim’ e ele respondeu-me: ‘Então tu nunca mais vais trabalhar aqui’.”

Catarina Furtado

“Quando as pessoas, mais homens até, me dizem: ‘Agora toda a gente fala e é moda, há montes de coisas que não são nada assim.’ Não é verdade. Agora as mulheres falam porque houve uma espécie de alívio”, recordava a apresentadora em 2018. De lá para cá, Furtado nunca escondeu o que aconteceu. E aproveitou a nova onda para voltar a dar a sua voz ao movimento.

“Uns fizeram-me convites insinuantes, óbvios, que não davam margem para eu ter dúvidas do que era pretendido, outros eram mais rebuscados”

Na passada sexta-feira, 30 de abril, voltou a descrever de que forma foi vítima de assédio. “Uns fizeram-me convites insinuantes, óbvios, que não davam margem para eu ter dúvidas do que era pretendido, outros eram mais rebuscados”, explicou ao “Expresso” sobre os casos que terão acontecido no início da sua carreira. Sem revelar nomes, confessou que terão sido pelo menos três homens diferentes, todos eles seus superiores hierárquicos.

Hoje, com 48 anos, tudo é bem diferente. Na altura, explica, só a “retaguarda familiar” lhe permitiu escapar ilesa, isto apesar de ter tentado “evitar uma relação de hostilidade e conflito” com os agressores.

“Apesar de sentir medo de perder alguma coisa que estava a conquistar por mérito próprio, tinha uma retaguarda familiar, sabia perfeitamente que tinha um porto seguro.” Sobre a viragem do foco para os agressores, Furtado prefere não revelar a identidade, isto para não fazer o tema resvalar para o “sensacionalismo”.

Raquel Henriques

Durante mais de 10 anos participou em diversas séries e telenovelas. Depois, desde 2009, os trabalhos foram desaparecendo. Nunca mais trabalhou na área. Regressou como guru de fitness e culturista. Em 2018, revelou finalmente o que aconteceu.

“Infelizmente [a televisão] foi um mundo que me foi esquecendo. Com muita pena minha, mas acontece. Nunca deixei de querer fazer televisão”, revelou numa entrevista à “N-TV”, na sequência da vinda a público de Catarina Furtado, onde confirmou que foi vítima de assédio sexual. Um não perentório terá motivado as represálias, que a terão afastado da indústria.

“Disse ‘não’ quando fui assediada. Sabia que podia ser prejudicada. E prejudicou. Tanto que não trabalhei mais.” “O assédio sexual existe muito neste meio”, confessou.”

Desde 2009 que Raquel Henriques não trabalha em televisão

Na sexta-feira, 30 de abril, voltou para juntar a sua história à nova onda de revelações. No programa “A Tarde é Sua”, em entrevista a Fátima Lopes”, a ex-atriz de 43 anos explicou que teve “problemas com pessoas que abusam do poder que têm.”

“Fui [vítima de assédio]. Não cedo a essas coisas, estou lá para trabalhar e não para oferecer outra coisa que não o meu trabalho.” Terá respondido negativamente a todos os convites, o que provocou reações indesejadas.

“Como é que eu reagia? Reagi como reage uma menina reguila, irrequieta, que quando diz não é não e di-lo de uma forma que desce um bocadinho do salto”, conta.

“Talvez hoje tivesse feito as coisas de uma forma diferente. Não aceitaria de todo [os convites], mas se talvez tivesse sabido dar a volta de outra forma… Fui tão dura quanto aquela pessoa foi vulgar comigo. Mas a outra pessoa tinha mais poder do que eu e portanto quem perdeu fui eu.

No final da conversa, deixou um recado. Talvez nada disso tivesse acontecido ou acontecesse com outras mulheres “se não houvesse outras pessoas que facilitam” as situações de abuso de poder.

Dânia Neto

O seu caso foi um dos primeiros a serem relatados em Portugal, na sequência da explosão do movimento MeToo nos Estados Unidos. Em janeiro de 2018, numa entrevista com Rui Unas, a atriz de “Morangos Com Açúcar” e outras grandes produções nacionais fazia a confissão.

“Foi há muitos anos, no início da carreira. Foi a única vez em que me senti desconfortável. Foi uma abordagem óbvia e isso é que é o mais assustador”, explicou. Acabou por não revelar mais pormenores e muito menos a identidade do autor do assédio. “Não sinto necessidade de denunciar, até porque essa pessoa já não trabalha no meio.”

A atriz de 38 anos acabaria por fazer um novo esclarecimento, depois da revelação ter sido amplificada pela comunicação social. “A minha resposta foi relativa a um episódio que me deixou desconfortável no passado, sem menção a qualquer entidade ou empresa, e que foi resolvido na data (…) Não tenho nada a apontar a nenhum canal com o qual trabalhei, bem pelo contrário.”

Marisa Liz

A cantora e apresentadora de 38 é um dos nomes mais sonantes a alistar-se ao rol de vozes que têm revelado os casos de assédio sexual, apesar de confessar nunca ter sido vítima em ambiente de trabalho. Em entrevista à revista “Sábado”, recorda um caso particular, numa altura em que estava no início de carreira.

“Tive uma situação muito estranha quando cantava no bar Templários. Ia lá um senhor que não falava com ninguém e ficava a olhar para mim. Um dia, quando tinha acabado de cantar,e ele disse-me: ‘Tu gostas de mim, mas ainda não sabes’.”

A vocalista dos Amor Electro é uma das vozes

A situação tornou-se mais preocupante quando mais tarde, à saída do bar, o mesmo homem lhe bateu no vidro do carro. Acabou por ser perseguida durante a madrugada, ate parar o carro em frente a uma esquadra da polícia.

“Desde cedo sente-se essa insegurança, esse medo. Todas as mulheres o sentem.”

Inês Simões

Foi outra das atrizes a revelar que os convites de trabalho na área desapareceram, assim que rejeitou os avanços de um superior hierárquico. “Foi há uns anos, cerca de sete (…) foi-me dito que teria ficado com um trabalho através de um casting”, começou por contar à revista “Sábado”.

À aparente vitória no casting seguiu-se um telefonema de “alguém muito influente no meio artístico” a fazer o convite para uma ida ao Algarve. Não se tratava de uma viagem conjunta com os atores. Era uma viagem a dois.

“Passei o fim de semana a pensar naquilo e em como era nojento. Na segunda-feira seguinte ligaram-me a dizer que o meu papel tinha sido dado a outra atriz.”

“Respondi de imediato que estava fora de questão. Passei o fim de semana a pensar naquilo e em como era nojento”, conta. “Na segunda-feira seguinte ligaram-me a dizer que o meu papel tinha sido dado a outra atriz.”

Desde esse momento que os convites quase que desapareceram e a atriz virou-se para a área da assessoria. “Desde aí, nunca mais fiz nada de importante em televisão.”

Deixou também uma mensagem de apoio a Sofia Arruda, na sequência da sua revelação. “Sei bem o que é isso porque também me aconteceu. Acredito que aconteça ainda com frequência com muitas atrizes e atores. Efetivamente nunca mais trabalhei em TV mas criei outros projetos e mantive a minha dignidade e consciência tranquila.”

Barbara Norton de Matos

O cenário é quase o mesmo e envolve uma jovem atriz no início de carreira e um superior hierárquico. Foi também assim que Bárbara Norton de Matos viveu o episódio que a marcou e que recordou nos últimos dias.

“Tinha entre 21 a 26 anos e aconteceu-me mais do que uma vez. Sei que não acontece só na minha profissão. Felizmente, esses seres já não trabalham em televisão. A vida encarregou-se de os excluir”, revelou numa publicação nas redes sociais.

Entre apelos a mais denúncias, a atriz de 41 anos falou sobre os efeitos que as situações provocam nas vítimas: “Exaspera, irrita, cansa; gera ansiedade, pânico, depressão, esgotamento.”

Apesar de ter dito que não aos avanços do superior e do receio de ficar sem trabalhar, isso não terá acontecido. “Por acaso, não fiquei sem trabalhar, mas podia ter ficado. Eu era muito mais nova, estava no princípio, por isso, é uma situação muito delicada, muito complicada”, revelou à “Nova Gente”. Deixa, no entanto, um conselho: “Há sempre a opção de dizer que não e resolver as coisas de outra maneira.

No Instagram, deixou ainda um apelo a todas as mulheres: “Se nos unirmos pode ser que estes #%^*+¥$> não abusem do poder que têm e que se limitem a ser profissionais sérios. Não tenham vergonha de denunciar, são eles que devem ter vergonha na cara.”

Carolina Deslandes

A cantora de 29 anos foi outra das denunciantes mais recentes, num caso que, confessa, não divulgou à época por “vergonha”. Tudo terá acontecido depois de um concerto.

Já no hotel, um dos promotores do espetáculo terá mesmo tentado entrar à força no seu quarto. “Não disse nada por vergonha, pensei que não queria levantar problemas. Imaginei que ele tivesse mulher e filhos, não queria causar desconforto à família”, revelou à “Sábado”.

“Uns anos depois, ele teve um problema com uma menor. Só pensei: ‘porque é que eu não disse?.”

Rita Pereira

Foram “dezenas” de situações de assédio, as que a atriz de 39 anos recorda, sobretudo vividas entre os 13 e os 21 anos. Rita Pereira usou as redes sociais para aproveitar o momento e apelar a todas as mulheres que “não tenham vergonha de afastar alguém que não conhecem e vos esteja a incomodar”. “Não pensem que é normal um homem abordar-vos sem autorização.”

Sobre os casos com que teve que lidar pessoalmente, Rita Pereira confessa que era demasiado nova para, em muitos casos, perceber que aquilo não deveria acontecer. “Ria-me, pedia-lhes que se afastassem em paz, fugia da situação. Achava que era normal homens abordarem-me, agarrarem-me o braço para me perguntarem o nome e encostarem-se a mim no meio da rua. Era inocente, não queria chamar a atenção e não queria envergonhar ninguém.”

Joana Emídio Marques

Embora não seja uma figura pública, a jornalista Joana Emídio Marques foi uma das primeiras mulheres a dar nome ao abusador: o escritor e editor português que, durante vários anos, chefiou a Porto Editora.

A revelação foi feita no Facebook, onde a jornalista de cultura relatou a história que terá terminado com um indesejado avanço sexual no interior de um carro. Joana Marques terá iniciado contacto através de mensagens, à procura da confirmação de um facto para uma reportagem.

“Ele deu a entender que me confirmaria o rumor da iminente compra da chancela Assírio & Alvim pelo conglomerado Porto Editora e  eu fui atrás da notícia”, escreveu posteriormente na “Sábado”.

“Quando parou o carro e ia dar-lhe os tradicionais dois beijos de despedida, o Manuel Alberto Valente ainda achou por bem começar a tentar beijar-me na boca”

O jantar acabou por ser tudo menos de trabalho. A história não foi confirmada e, entre alguns comentários menos próprios, a refeição terminou.

“Ele ofereceu-se para me dar boleia até lá. Aceitei. Erro meu. Quando parou o carro e ia dar-lhe os tradicionais 2 beijos de despedida, o Manuel Alberto Valente ainda achou por bem começar a tentar beijar-me na boca, com uma descontração que mostrava que ele deve ter feito isto centenas de vezes. Eu afastei-me e sai do carro. Em silêncio chamei-o de velho porco, em silêncio humilhado chorei até Setúbal.”

A jornalista terá revelado a situação ao assessor de imprensa da editora, que, diz, “reconheceu ‘haver esse problema'”. Manuel Valente reagiu, nega tudo e classifica as acusações como “extremamente graves e, acima de tudo, falsas”.

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