Televisão

“The Voice Kids”: o que gosto mesmo de ver neste programa são as reações dos pais

O cronista e humorista Miguel Lambertini analisa a nova edição do programa da RTP.
Simão Oliveira esteve em destaque nesta edição.

“The Voice Kids” é o novo programa dos domingos à noite na RTP1, onde criancinhas seguem o seu amor pela música e o sonho de um dia poderem ganhar dinheiro usando um microfone — de preferência sem ser num call center. Programas de entretenimento com crianças são sempre uma aposta vencedora, se forem crianças com talento então ainda melhor.

Eu sou do tempo do “Sequim d’Ouro”, o primeiro concurso da televisão para pequenos cantores que era um clássico em todos os Natais, e ainda hoje, passados 40 anos, continuo a não saber o que é um sequim. Gravado em Itália e com o título original “Zecchino D’oro”, o programa catapultou para a fama, em 1980, a pequena Maria Armanda, uma criança portuguesa que ficou em primeiro lugar com a sua interpretação do tema “Eu vi um Sapo”. Nessa altura as crianças cantavam músicas sobre avistamentos de batráquios esfomeados, hoje cantam músicas sobre o show das poderosas. 

Às vezes também cantam músicas da autoria de um dos membros do júri e isso não só é horrível como devia ser proibido. Por um lado, porque faz uma pressão terrível sobre o jurado em causa, e por outro porque caso ele não vire a cadeira aumenta brutalmente a desilusão dos miúdos, que, coitadinhos, ficam a achar que o seu ídolo os odeia. 

Nesta versão kids, entre os membros do júri está a entusiasmante Marisa Liz — sobre quem já tive oportunidade de escrever numa crónica anterior — que mantém o seu lugar vinda da versão original do “The Voice”, a quem se juntam três novos membros. São eles Carolina Deslandes, que faz as delícias dos concorrentes mais novos por parecer uma versão real da boneca Nancy; o Fernando Daniel, ele próprio ex-vencedor de um concurso de talentos e portanto um género de Maria Armanda dos tempos modernos; e o Carlão, que é provavelmente o homem mais cool da história de Portugal, quase taco a taco com D. Afonso VII, o Bonacheirão.

O Carlão até no trânsito deve ser um tipo sereno. Eu, por exemplo, sou um gajo pacato também, mas assumo: sofro de road rage. Na verdade eu acho que o que se passa é que o meu carro tem o mesmo efeito que aquele elevador que havia no programa “Chuva de Estrelas”. Porque eu entro no carro como uma pessoa equilibrada, com princípios e educação, e quando ponho a primeira transformo-me numa peixeira do Bolhão psicótica que acena e diz um palavrão a cada dois segundos. Já o Carlão, imagino que mesmo que um taxista o ultrapasse pela direita e trave a fundo à sua frente, ele vai dizer: “Tranquilo, boy, queres passar, passa, chill, que a vida é curta” e depois assobia para o lado. É que até o nome é fixe, Carlão. Se eu começasse a apresentar-me como Miguelão as pessoas olhavam para mim e desatavam a rir, mas a ele assenta-lhe mesmo bem.

Independentemente do estilo e da maior ou menor capacidade de cada um, o problema neste programa da RTP são mesmo os pais. Por isso é que o que eu mais gosto de ver no “The Voice Kids” são as reações dos progenitores, principalmente daqueles cujos filhos têm sucesso. 

Sempre que vejo os pais em êxtase, com um sorriso rasgado e aquele brilho nos olhos de quem está a pensar “aquele é o meu menino, é perfeito, e fui eu que fiz!”, não consigo deixar de pensar se é uma reação genuína de orgulho pela felicidade do filho ou se é mais do género “opá, tu queres ver que me saiu o Euromilhões”, ao estilo dos pais do pequeno Saúl.

Há muito progenitor frustrado neste tipo de programas, que projeta os seus sonhos falhados no futuro dos filhos. Nada contra, acho que é perfeitamente normal. Eu próprio espero que algum dos meus filhos tenha queda para os pistões porque o meu sonho sempre foi ser mecânico e dá sempre jeito ter um na família. 

Os pais do Simão Oliveira, por exemplo, não me pareceram ser do tipo de quem está a contar viver à conta da prole. O concorrente que este domingo passou à próxima fase nas provas cegas tem 13 anos e, quando começou a cantar, a jurada Marisa perguntou: “é um senhor de 50 anos?”

Simão não é um senhor de 50 anos mas podia perfeitamente ser um senhor dos anos 50, porque tem na voz o timbre e a delicadeza de António Calvário. Simão canta músicas de artistas antigos porque a avó tem Alzheimer e é uma forma de “lhe tentar reavivar a memória”. Eu já não tenho avós, mas tenho um novo concorrente favorito. Os pais do Simão têm toda a razão para ter aquele brilho nos olhos de quem está a pensar “aquele é o meu menino, é perfeito, e fui eu que fiz!” .

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