Televisão

“The Voice Portugal”: Mariza Liz é uma pastilha de MDMA em forma de cantora

O cronista e humorista Miguel Lambertini analisa o mais recente episódio do programa musical da RTP1.
Os mentores são António Zambujo, Marisa Liz, Diogo Piçarra e Aurea.

Quis fazer uma pausa nas espetadas de fruta, nas pirâmides de camarões e gravatas de bradar aos céus, dos casamentos da SIC, para espreitar a oferta da RTP1 para os serões de domingo. “The Voice Portugal” tem sido um sucesso de audiências e eu quis tentar perceber a que é que isto se deve. Apercebi-me de que não há uma resposta apenas, mas sim um conjunto de fatores que fazem do programa uma companhia agradável para terminar o fim de semana.

Numa altura em que estamos todos a sentir o stress aumentar e com o astral um pouco em baixo, é bom poder assistir a um programa que tem boas vibrações, sem para isso ser necessário subscrever um daqueles canais de conteúdo maroto para adultos. Desde logo pela escolha na dupla de apresentadores que se repete há vários anos e que é uma aposta ganha. Por um lado, Catarina Furtado, que é — desde o primeiro dia em que apareceu num ecrã de televisão a apresentar o Top+ — absolutamente adorável, competente e carismática. Além disso, faz qualquer monge budista querer reencarnar naquela beauty mark do seu queixo.

E depois temos o Vasco Palmeirim, que, apesar de ter a mesma altura das pestanas da Catarina Furtado, é um apresentador com “A” grande. O Vasco é aquele amigo que conhecemos numa festa há cinco minutos e parece que já somos amigos há anos. É aquele tipo boa onda que, se ficarmos presos num elevador, ou mesmo se o nosso avião cair e ficarmos sozinhos numa ilha deserta, é ele quem gostávamos que fosse o nosso companheiro. Isto desde que houvesse comida, porque se for daquelas ilhas só com coqueiros se calhar não era o ideal para mim. Porque eu sou alto e o Vasco ia estar sempre a mandar-me pô-lo às minhas cavalitas para chegar aos cocos e depois usava a minha cabeça para os abrir, o que não só me ia dar cabo da tola, como das costas. “Mais rápido, força nessas pernas, quero comer o pequeno-almoço antes das nove! Vai seu lingrinhas!” Afinal, é má ideia, o Vasco Palmeirim ia fazer-me a vida negra numa ilha deserta. Mas pronto, como apresentador do “The Voice” está perfeito, era esse o meu ponto.

É que desde que a Maria Vieira fritou que eu tendo a desconfiar de pessoas de baixa estatura que aparentam ser amorosas. Cá em casa, quando os meus filhos dizem que eu sou o melhor pai do mundo, eu respondo, “‘tá bem ‘tá, dizes isso agora mas daqui a uns tempos estás a chamar-me esquerdalha com cara de lambisgoia, pensas que eu não sei? A mim não me enganas tu, meia leca”. E é por isso que depois eles vão para a escola dizer que o pai é maluco. 

Mas, se a Catarina e o Vasco são um elemento chave na dinâmica vencedora deste programa, esta não se resume à prestação dos apresentadores. Isto porque os quatro jurados barra mentores barra músicos também contribuem para o sucesso do formato. A começar por Marisa Liz, que parece uma pastilha de MDMA em forma de cantora. Para a vocalista dos Amor Electro é tudo lindo e está tudo espetacular e incrível. O que é ótimo, principalmente para aqueles concorrentes que acusam a pressão dos nervos. Eu acho que o governo devia clonar a Marisa e obrigar toda a gente a ter uma em casa, isso sim era uma boa medida neste tempo infeliz em que vivemos. Sempre que as pessoas se sentissem demasiado sós ou depressivas ouviam as palavras de conforto da cantora: “Ó pá, ouve, tu-és-in-cri-vel. Nunca deixes que te digam o contrário.” Mas Marisa, eu acabei de cuspir na tua sopa e apaguei um cigarro na tua testa. “Eu sei, Miguel, tu és maravilhoso, ouve o que eu te digo, tu és lindo, ok?” Se todos tivéssemos uma Marisa Liz em casa, acabava a pandemia em três tempos.

Outro dos mentores que Marisa também acha lindo e incrivel — como não podia deixar de ser — é António Zambujo. Este domingo, o cantautor fez um dueto com um dos concorrentes, acompanhando-o a cantar o seu êxito “Zorro”. No final, depois do elogio de Marisa — “este gajo canta tanto” — Zambujo agradeceu timidamente e ficou com aquela cara que ele faz como que a dizer “peço desculpa por ter esta voz única e excecional e por ter enchido o coliseu 150 vezes num ano. Não foi por mal…” Nós sabemos, António, foram elas que pediram.

Do quarteto maravilha fazem ainda parte Aurea e Diogo Piçarra, também ele vencedor de um talent show. O Diogo até pode vestir-se como um técnico de ar condicionado mas é só só para enganar, porque ele sabe fazer as suas escolhas e, pelo que vi, tem equipa para ganhar. Já a Aurea deu-me ideia de que é um bocado menos seletiva. A Aurea ouve duas notas e carrega no botão, não quer saber, é para arriscar é para arriscar, vive no perigo e eu gosto disso. Talvez não fosse a pessoa ideal para deixar sozinha na sala de controlo de uma base de mísseis termonucleares, mas para jurada do programa está excelente. 

O último ingrediente desta caldeirada de marisco que é o “The Voice Portugal” são, obviamente, os participantes. Todos eles à procura de realizar o sonho da sua vida e é esse shot de esperança que toda a gente gosta de ver. Quase toda a gente, porque os mentores parecem já estar um bocado fartos: “É engraçado a quantidade de malta que há para aí”, comenta António Zambujo. Diogo Piçarra concorda. “Do nada aparecem, donde é que vieram não é?” E Aurea acrescenta: “Eu não sei de onde é que eles vêm, parece que saem debaixo das pedras”. Tão bom, só faltou dizerem: “Olhem que é capaz de haver para aí uma infestação. Talvez não fosse má ideia a produção deitar um pouco de Dum Dum nas frestas, que se há coisa que me mete mesmo nojo são concorrentes.” Ao que Marisa Liz respondia: “Olha, eu adoro-os, pá, são tão lindos… e incríveis”. 

ÚLTIMOS ARTIGOS DA NiT

AGENDA NiT