Cinema

Novo filme de Woody Allen é a ode de amor a Manhattan que a América não vai ver

O realizador voltou à sua cidade e aos clássicos instantâneos, num filme quase sem história sobre um dia chuvoso que tudo muda.
Os protagonistas.
72

Há um diálogo em “Um dia de Chuva em Nova Iorque” que tem um valor simbólico incrível. “O tempo voa”, diz um personagem.”Sim, infelizmente ele voa em classe económica”, responde Gatsby Welles, o protagonista. “O que queres dizer com isso?”, pergunta a interlocutora. “Que nem sempre é uma viagem confortável”.

Um Dia de Chuva em Nova Iorque” é a 50.ª obra de Woody Allen como realizador e argumentista, e chega às salas de cinema portuguesas esta quinta-feira, 24 de outubro. A nova produção do realizador norte-americano é um filme divertido, com diálogos inteligentes, piadas irónicas e existencialistas, sem ter propriamente uma história condutora a não ser uma enorme embrulhada, como tantas vezes é a vida — só que neste caso, a embrulhada desenrola-se praticamente toda num dia. 

O personagem principal é novamente uma réplica de Allen na forma neurótica e atabalhoada de pensar e de falar e a critica política e social misturam-se com referências culturais e económicas de forma subtil e em segundos, num mesmo diálogo. A nostalgia é constante, a chuva é sempre melhor do que o sol, o amor é o ponto central e para ele há sempre esperança, porque ele chegará — mesmo que por caminhos sinuosos.

A história tem um narrador que relata os eventos sempre com música jazz como pano no fundo. E Nova Iorque é a melhor cidade do mundo, que ninguém duvide disso. Em tudo, este é assim um clássico instantâneo de Woody Allen: não uma obra prima sua, não o seu filme mais profundo, inesperado ou inspirado, não um top cinco de Allen — mas o top cinco do realizador é quase impossível de bater, até pelo próprio. Mas é um clássico instantâneo, e quem admira o seu estilo único, certamente gostará.

O filme conta a história de um jovem casal universitário, Gatsby Welles (Timothée Chalamet) e Ashleigh Enright (Elle Fanning), que planeiam um fim de semana em Nova Iorque com intensidades absolutamente diferentes, tal como o são os personagens.

Gatsby é analítico, tem tudo organizado, mal pode esperar pela viagem, até porque é apaixonado por Manhattan, a sua terra natal. Só espera que chova, tem de chover para que a namorada veja a cidade exatamente como ele quer. Já sabe onde vão dormir, jantar e ouvir música e planeia pagar tudo porque, além de ser filho de pais com posses, tem um óbvio vício pelo jogo que lhe corre sempre bem e lhe dá maços de notas, como se o dinheiro caísse do céu — tudo na sua vida parece acontecer assim. Veste-se como um personagem dos anos 50: não tira um casaco de tweed praticamente o filme todo, fala e comporta-se como alguém parado no tempo, mas com o ar jovial de Chalamet a combinação é meio surreal.

Ashleigh (uma Elle Fanning maravilhosa), é tímida, sonhadora, a típica rapariga de família de bancários do Arizona, sem grandes problemas ou desafios na vida até agora, uma beleza perfeita da qual ainda não se apercebeu. Sonha em entrevistar um realizador famoso de cinema, que admira profundamente apesar de não entender os seus filmes, e quando consegue ser destacada pelo jornal universitário de Yardley para o fazer em Nova Iorque, o plano do fim de semana romântico do casal começa a tomar forma.

Apesar do calculismo e tentativas constantes e compulsivas de controlar a situação por parte de Gatsby, tudo descamba e começa a fugir do seu controlo assim que chegam à cidade: e os namorados acabam por passar o fim de semana quase sempre separados, cada um vivendo as suas aventuras, cada um descobrindo mais sobre si, o seu passado, o que querem da vida e, no limite, a sua relação.

Chalamet com Selena Gomez.

O elenco é feito de estrelas, que além de Timothée Chalamet e Elle Fanning inclui nomes como Selena Gomez, Jude Law, Diego Luna, Rebecca Hall e Liev Schreiber. Mas uma das estrelas maiores está nos bastidores: o galardoado Director de Fotografia Vittorio Storaro (vencedor de três Óscares de Melhor Fotografia por “Apocalypse Now”, “Reds” e “O Último Imperador”), filma uma Nova Iorque de sonho, com uma luz (e chuva) perfeitas, ao ponto de sairmos da sala a querer marcar viagem para os Estados Unidos.

Por estas semanas, o filme estará a estrear em todo o mundo, da Europa ao Brasil e Ásia: menos na sua terra natal, EUA. É por isso praticamente impossível falar sobre “Um Dia de Chuva em Nova Iorque”, sem referir a polémica que envolveu o realizador recentemente, no âmbito do movimento #MeToo; e isto porque, devido ao caso, a mais recente declaração de amor de Woody Allen a Nova Iorque nunca irá, provavelmente, passar nas salas de cinema dos Estados Unidos.

A história é complexa mas pode-se resumir: pouco depois das filmagens desta produção feita em 2017, a 50ª da carreira do realizador, submergiram acusações antigas da filha adotiva de Woody com Mia Farrow (sua ex-companheira), Dylan Farrow, por um alegado episódio de abuso quando ela tinha sete anos. O cineasta sempre negou os fatos, não há acusações de outras pessoas, a justiça encerrou o processo após duas investigações e toda a história é invulgar mas a dúvida ficou e dela Allen já nunca se livrará.

Nos Estados Unidos, tudo isto foi vivido mais intensamente, em tempos conturbados: e entre o reavivar destas acusações antigas e a duvida implícita; o facto de a personagem universitária de Elle Fanning ser, no filme, alvo de vários flirts de homens mais velhos (o que caiu mal no auge do #MeToo); e uns comentários públicos mais acesos de Allen sobre tudo isto, no ano passado a Amazon colocou subitamente “A Rainy Day” em pausa, e decidiu não o pôr nas salas. 

Woody e a plataforma de streaming tinham acabado de assinar uma parceria para quatro filmes no total, e quando conheceu esta decisão o realizador processou a empresa, mantendo-se ainda a disputa legal que impede a exibição do filme na América — apesar de a permitir no resto do mundo. No meio disto, os atores de “Rainy Day” Timothy Chalamet, Selena Gomez e Rebecca Hall ainda doaram os seus salários do filme para instituições de caridade como a Time’s Up.

Com a produção a não ser lançada como e quando previsto, 2018 foi a primeira vez, desde 1981, que as salas de cinema não viram um filme de Woody Allen, que sempre trabalhou ininterruptamente. Além disso, as primeiras criticas, sobretudo as de meios americanos depois da passagem em festivais, foram pouco positivas, arrasando tudo o que antes era visto como bom: as personagens inconsistentes, o tipo de humor, o politicamente incorreto, as diferenças de géneros, o tempo a parecer desajustado do mundo real. As europeias têm sido bem melhores e as de espetadores geralmente boas: no IMDB tem 6,9, no Google 83 por cento. Ainda assim, poderia parecer o principio do fim da carreira de Woody, que sempre jurou fazer um filme por ano.

Mas não. O realizador de 83 anos já reafirmou que tenciona fazer filmes até morrer, ou pelo menos até deixar de ter saúde: sejam eles produzidos ou não, passem ou não nas salas. Em entrevistas recentes reafirma o antigo pessimismo, na sua vida e nas obras, mas o irónico é que consegue contrariá-lo em “Um Dia de Chuva” — está lá a mordacidade, o existencialismo e o espírito derrotista e neurótico, como sempre, mas não é o seu filme mais pessimista. Há também a ternura, a nostalgia, o romance e a esperança. E há o seu estilo único, narradores com música jazz por fundo, cultura, economia e história numa piada, personagens com casacos tweet — um dia de chuva num mundo de cinema maioritariamente feito de sol, blockbusters e filmes da Pixar (nada contra).

Quanto ao diálogo do tempo voar em classe económica, foi ironicamente escrito antes de toda esta turbulência mas nem por isso perde o simbolismo: em económica ou não, o importante é viajar.

ÚLTIMOS ARTIGOS DA NiT

NiTfm
Novos talentos

AGENDA NiT