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“The Walking Dead”: “É agridoce acabarmos a série. Por outro lado, é entusiasmante”

A NiT entrevistou a showrunner e argumentista Angela Kang e a atriz Lauren Cohan, no mês em que a série faz 10 anos.
A série estreou em 2010.

“The Walking Dead” celebra este mês de outubro o décimo aniversário. A série que estreou em 2010 e que é uma adaptação de uma banda desenhada também já tem fim marcado — vai terminar com a 11.ª temporada, prevista para estrear em 2022.

Contudo, a 11.ª temporada vai ser bastante maior do que o normal, e, além disso, falta terminar a décima temporada — que teve de ser interrompida por causa da pandemia e que depois foi aumentada. Ou seja, ainda faltam 31 episódios para o final da história. O capítulo da décima temporada que era para ser o final, o 16.º, vai estrear de forma isolada na segunda-feira, 5 de outubro, no canal Fox, a partir das 22h30. 

Contudo, este universo pós-apocalítico não acaba por aqui. No mesmo 5 de outubro estreia a terceira série, “The Walking Dead: World Beyond” (sendo que “Fear the Walking Dead” também vai ter uma sexta temporada) mas o canal anunciou que vêm aí mais duas produções.

Vem aí “Tales of the Walking Dead”, uma série de antologia em que cada episódio poderá ter uma história com personagens diferentes (algumas das quais poderão ser familiares), mas todas passadas neste mundo. Além disso, o AMC aprovou um projeto que se vai centrar na história de Daryl e Carol depois de “The Walking Dead”. Este spinoff irá estrear em 2023.

A NiT entrevistou a showrunner e argumentista da série, Angela Kang, e a atriz Lauren Cohan, que interpreta Maggie na história — que saiu da série na nona temporada mas que agora vai regressar. 

Como está a ser trabalhar no final de “The Walking Dead”?
Angela — É agridoce pensar em acabar a série e é entusiasmante pensar que temos uma boa quantia de 30 episódios à nossa frente. E há planos para um spinoff. Mas é uma grande tarefa e levo isso muito a sério. Os argumentistas também. E sei que os atores estão mesmo envolvidos com a série. É muito importante que consigamos fazer isto bem para os fãs, que têm sido tão leais durante tantos anos. Sinto uma grande responsabilidade de querer fazer justiça a todas as pessoas incríveis que trabalharam na série. Mas temos tempo e temos muito pela frente por isso estou a tentar levar as coisas dia a dia [risos]. Agora estamos em pré-produção dos próximos seis episódios. Bloco após bloco, vamos construir esta casa.

Lauren — Acho que foi a Meryl Streep que disse isto: não é entusiasmante quando descobres qual é o teu próximo projeto? É entusiasmante por um segundo, e depois começas a trabalhar. E é um bocado assim aqui. Estamos a prever como nos vamos sentir quando a série chegar ao fim, mas não temos sequer capacidade para nos focarmos nalguma coisa que não seja no pensar isto minuto a minuto, como a Angela disse. Por isso, [o final] parece muito distante. É bastante distante ainda. Façam uma atualização emocional connosco daqui a 18 meses ou quando for [risos].

A série está no ar há dez anos. Qual foi o momento mais memorável neste percurso, até agora?
Lauren — Acho que o momento mais memorável foi quando fazíamos os jantares de morte, começaram por ser celebrações num restaurante mas depois começámos a ter de fazer as coisas de forma cada vez mais privada, para que ninguém descobrisse [quem tinha morrido]. E um dos últimos foi quando o Andy [Andrew Lincoln] estava de saída e essa foi uma enorme celebração na casa da Melissa [McBride]. Tínhamos escrito umas pequenas peças e fizemos alguma representação, foi celebrarmos uma personagem que criou a série e que estava a sair. E o exemplo que ele foi para nós. Foi muito divertido e esses momentos em que nos juntámos como um grupo — os argumentistas, os produtores, os atores todos — só para celebrar o facto de termos criado algo com o qual tantas pessoas se relacionam é… não há qualquer valor que possamos colocar nisso. E que a série possa ter esta duração… quase que me apetece dizer que são 15 temporadas, porque quando acabarmos a 11.ª vai ser tanto [risos]. Temos tanta sorte, isto é tão bom.

Angela — Eu também me lembro desse jantar com o Andy, teve tanto significado. E acho que me sinto de igual forma, é difícil escolher um momento, porque tem sido algo muito grande na minha vida. E tanto eu como a Lauren começámos na série na mesma temporada, tantas das minhas memórias da última década estão ligadas à série. Acho que algumas das coisas que tiveram muito significado para mim tiveram a ver com os fãs. Lembro-me de fazermos uma estreia no Madison Square Garden, voltei a ver os meus primos, que não tinha visto desde que eles eram crianças. Tínhamos perdido o contacto depois de a minha mãe morrer e foi lindo. Lembro-me de ir à Coreia do Sul participar num painel e as pessoas que eram fãs lá, e os familiares coreanos que tenho lá… eu entendo a língua mas já não a falo muito bem. E eles estavam tão felizes por me ver e por verem a série a ser falada na imprensa coreana. Isso teve muito significado a um nível pessoal. Lembro-me de o meu filho a imitar a Maggie e o Glenn, porque ele nasceu enquanto estávamos a fazer a série. As minhas melhores memórias estão realmente relacionadas com a série.

O que nos podem dizer sobre os seis episódios extra que a décima temporada vai ter?
Angela — Há algumas coisas que vão acontecer no final da décima temporada que já estavam previstas — e iremos abordar alguns desses mistérios que deixámos para trás. Como a Maggie a regressar. Temos um grupo que encontramos no final do 16.º episódio e há coisas a descobrir sobre isso. Estes episódios aconteceram por causa da pandemia e tínhamo-nos preparado para um dos nossos típicos e grandes episódios que tem centenas de zombies em pequenos espaços e não parecia que isso seria exequível ou seguro ou responsável nesta altura. Por isso o estúdio pediu-nos para fazermos estes outros episódios que, criativamente, seriam muito como “The Walking Dead”, de um ponto de vista emocional, mas que são mais possíveis de fazer tendo em conta a perspetiva da produção. Por isso tem sido um grande desafio criativo. Poder mergulhar de forma tão profunda nalgumas destas personagens, com reviravoltas e sustos e lágrimas… foi uma decisão pragmática sobre o que é que podíamos filmar nesta altura, de uma forma que fosse seguro. Mas tudo fluiu bem em relação àquilo que estamos a planear para a 11.ª temporada. É tudo ao serviço da história. Esperemos que isto nos leve aos últimos episódios e que nos possamos divertir ao longo do caminho.

O que acharam sobre o 16.ª episódio da décima temporada? O que nos podem dizer?
Lauren — Acho que foi um episódio muito satisfatório, acho que as pessoas vão ver muitos pedaços da história resolvidos — coisas por que estávamos à espera. E a introdução de duas grandes coisas, que nos vão levar a este novo capítulo, são ótimas. Definitivamente levou-me numa viagem emocional. É tudo aquilo que se pode esperar que seja, é surpreendente. Há coisas lindas e inesperadas que acontecem entre personagens e todas as vezes eu estou só: outra vez? Outra vez? Foi assim que foi para mim, enquanto espectadora, e poder estar de volta… não há realmente palavras para isso.

Angela — Eu sinto-me sempre estranha enquanto argumentista e showrunner a dar-me a mim própria palmadas nas costas [risos]. O que posso dizer é que toda a gente que trabalhou no episódio fez um trabalho incrível. Tenho tanta fé nos nossos atores e na nossa equipa, a série foi um grande desafio em termos de produção. Foi adiado porque não conseguíamos terminar a pós-produção quando as restrições por causa da pandemia começaram nos EUA. Temos pessoas na Europa que terminaram este episódio na parte dos efeitos especiais. Foi um esforço muito grande de tantas pessoas do qual estou muito orgulhosa, espero que a história seja satisfatória para todos os que estão à espera deste embate épico com os Whisperers. Estou feliz por o poder partilhar, depois de todos estes meses. Gravámos isto em novembro do ano passado. 

Como é que se torna uma história destas fresca e envolvente ao longo de tantos anos?
Angela — Acho que me senti tão atraída para este mundo enquanto fã da banda desenhada e da primeira temporada, e claro que os zombies são uma parte da série, mas no centro sempre estiveram estes sobreviventes. E os humanos são infinitamente interessantes e há tantas histórias que podes contar, diferentes tipos de pessoas, diferentes tipos de líderes ou estruturas governamentais, enquanto eles vagueiam por este apocalipse e tentam descobrir como construir algo que dure. Dá-nos tantas possibilidades e também temos uma grande dívida para com o Robert Kirkman, que criou a banda desenhada. Porque uma história sobre um homem e a sua família cresce e torna-se numa história com todos estes grupos, de diferentes comunidades e filosofias. Nós falamos muito na sala dos argumentistas sobre história, psicologia, princípios filosóficos… Pensamos muito na condição humana e esta pandemia global continua a dar-nos questões sobre o que significa tentar seguir em frente e sobreviver na cara do trauma e do luto. E acho que sobre isso há algo que em última instância é esperançoso, que é o que no fundo é apelativo, no meio da morte e da destruição. Que as pessoas tenham algo dentro delas que as faça querer continuar seguir em frente.

A forma como a Maggie saiu de “The Walking Dead” sempre deu espaço para que ela pudesse voltar. Mas sempre foi a sua intenção?
Lauren — Nós não sabíamos que espaço teríamos para o fazer, eu estava noutra série na altura e nós esperávamos pelo menos ter um bocadinho de tempo para continuarmos a história. E depois, no fim, conseguimos este bocado de tempo — que é muito maior. Nós sabíamos, só não sabíamos exatamente como. O que sempre gostei, na verdade, porque te obriga a viver o momento. E entre restrições há sempre uma enorme criatividade. 

Porque é que foi decidido terminar a série com a 11.ª temporada?
Angela — Há muitas coisas que pesam na decisão de terminar uma série. Do lado criativo, temos muito mais história para contar, são decisões que acontecem ao nível dos estúdios e estão acima do meu salário [risos]. Mas estamos entusiasmados porque temos uma boa quantidade de possibilidades criativas para concluir a série de uma forma que esperemos que seja respeitosa e satisfatória. É nisso que nos estamos a focar do nosso lado. Como é que conseguimos contar grandes histórias no tempo que nos resta? E é uma benção saber com grande antecedência o que podemos fazer. Porque há tantas séries que são terminadas de repente. 

Leia ainda a entrevista que a NiT fez ao ator Norman Reedus, que interpreta Daryl em “The Walking Dead”.

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