Alimentação Saudável

Comer carne é uma forma de racismo? Há quem diga que sim

Alguns dos grandes pensadores dos direitos dos animais sublinham que se trata de um tipo de discriminação. É um debate polémico.
A discussão faz-se há décadas

Sem cores, narradores, efeitos especiais ou outros artifícios, “Gunda” tem tanto de simples como de revolucionário. Quem o viu fala em “cinema puro” — elogio do insuspeito Paul Thomas Anderson —, embora o filme esconda um propósito mais desarmante: o de nos colocar, a nós humanos, no mesmo plano dos animais.

Foi esse conceito revolucionário (e aparentemente comovente) que fez Joaquin Phoenix saltar da cadeira assim que o viu e tornar-se num dos produtores executivos. Phoenix é, aliás, um conhecido vegano e ativista pelos direitos dos animais.

No final de 2019, tornou-se numa das principais caras da campanha da organização PETA (Pessoas pelo Tratamento Ético dos Animais) e o cartaz foi ironicamente instalado no topo do McDonald’s de Times Square, em Nova Iorque. “Somos todos animais. Fim ao especismo. Seja vegan.”

Especismo é um termo cunhado no início da década de 70 para descrever a discriminação entre espécies. Se o racismo reflete a discriminação entre raças, o especismo traduziria esses mesmos comportamentos cruéis perante os animais.

[O especismo] é como o racismo ou o sexismo — um preconceito assente em diferenças físicas moralmente irrelevantes. Desde Darwin que sabemos que somos animais humanos, ligados a outros animais pela evolução. Como, então, é que justificamos a nossa quase total opressão de todas as outras espécies?”, escreveu o autor, psicólogo e ativista britânico Richard Ryder, em 2005. 

A comparação é, na visão de Rita Silva, vegana, ativista e presidente da associação ANIMAL, um tema complexo. “Não devemos colocar as vítimas de opressão todas no mesmo saco, embora a opressão e o abuso de poder venham quase sempre do mesmo sítio”, explica à NiT.

Vegana há vinte anos e ativista há quase tanto tempo, explica que a visão do tema foi “amadurecendo” ao longo dos anos. É, hoje, menos incisiva do que no início da luta — e do que “muitas pessoas da causa gostariam” — e se quando jovem, tenderia a concordar com este tipo de comparações, a visão foi mudando.

“Quando falamos de discriminações estruturais como racismo, xenofobia, homofobia ou transfobia, estamos a falar de gente que se consegue representar a si própria, de formas de falar e de sentir completamente diferentes”. E acrescenta: “As causas devem apoiar-se, mas tendo o devido cuidado de terem as suas diferenças, embora lutem todas pela não discriminação.”

Uma espécie de racismo

O conceito foi cunhado pelo próprio Ryder, em 1970, quando fazia parte de um pequeno grupo de intelectuais de Oxford que protestava sobretudo pelo uso de animais em experiências laboratoriais. Sabia do que falava: também ele esteve envolvido em várias investigações que usavam animais como cobaias.

“Todas as espécies sentem dor e angústia. Os animais gritam e gemem em agonia; o sistema nervoso é semelhante ao nosso e contém os mesmos bioquímicos que sabemos estarem associados à experiência da dor nos humanos”, explica Ryder, que apontou à incoerência dos investigadores que defendiam as experiências em animais.

A questão que colocava era simples: como é que podem defender os resultados dessas experiências, alegando a semelhança entre humanos e animais, protegendo-se depois das críticas com o argumento de que existem diferenças entre as espécies?

Ryder vai mais longe nas comparações. Para o autor, princípios e ideais como a justiça e a liberdade são meros meios para atingir o derradeiro fim, a felicidade. E “a felicidade é mais fácil de atingir quando estamos livres de todos os tipos de dor e sofrimento”. Frisa que todos preferiríamos evitar uma hora de tortura do que ter direito a uma hora de pura felicidade. “A dor é o único e grande mal.” A dor é sempre dor, “seja qual for o recipiente”.

O especismo é comparado ao racismo e ao sexismo

“A verdade é que exploramos outros animais e causamos-lhes sofrimento, apenas porque somos mais fortes. Se extraterrestres aterrassem na Terra e fossem mais poderosos do que nós, deixaríamos que nos matassem por desporto? Que nos usassem como cobaias ou que nos reproduzissem em viveiros para nos transformarem em deliciosos hambúrgueres humanos? Aceitaríamos a sua explicação de que é perfeitamente moral fazerem-nos isso por não sermos da mesma espécie?”

As ideias de Ryder fizeram escola e convenceram o filósofo australiano Peter Singer a lançar um movimento de libertação animal. Inspirado nos pensamentos do britânico, em 1975, lançou “Animal Liberation”. O livro é um compêndio de argumentos, por vezes extremados, pela necessidade de revolucionarmos toda a nossa forma de pensar.

“Os racistas violam o princípio da igualdade, dando mais relevo aos interesses dos membros da sua própria raça (…) Os sexistas violam o mesmo princípio favorecendo pessoas do mesmo sexo. Similarmente, os especistas permitem que os interesses da sua própria espécie anulem os interesses de membros de outra espécie. O padrão é idêntico em qualquer um dos casos“, escreve na obra de 1975. 

Singer opta por uma abordagem ligeiramente diferente, embora frise que os animais devem ver os seus direitos reconhecidos não porque são inteligentes, mas porque têm capacidade de sofrer dor.

“Se possuir um nível superior de inteligência não dá direito a um humano de usar outro para os seus próprios fins, poderá dar-lhe o direito de explorar não-humanos com o mesmo propósito?”, questiona.

Até porque, explica o autor, o fator da inteligência pode originar casos absurdos. Como o de um exemplo que dá em “Animal Liberation”, e que compara a repulsa humana se alguém matasse “um bebé com danos cerebrais graves e irreparáveis”, mas que não hesitariam em matar animais com “maior capacidade de serem independentes e auto-conscientes” do que essa mesma criança.

Um vegano de longa data, já na década de 70, Singer apontava para a dieta como a forma ideal de resolver esta discriminação entre espécies. “A carne mancha as nossas refeições. Podemos escondê-lo como quisermos, mas o facto é que a peça central do nosso jantar vem de um matadouro, ainda a pingar sangue.”

A sociedade carnista

Melanie Joy estudava psicologia em Harvard quando um hambúrguer estragado a levou ao hospital. O trauma ficou e acabaria por começar a afastá-la do consumo de carne, rumo a uma dieta vegana.

“A experiência fez-me jurar nunca mais comer carne, tornou-me mais aberta a ler sobre agricultura animal — informação que sempre esteve ao meu alcance, mas que não queria ver porque estava agarrada ao meu modo de vida. E conforme fui descobrindo a verdade da criação de carne, ovos e laticínios, senti-me confusa e desesperada, como um barco sem leme, perdido num mar de insanidade coletiva. Nada tinha mudado, mas tudo era agora diferente”, revelou ao “The Statesman”. 

“Como o sexismo e o racismo, o carnismo é um sistema global, embora se manifeste de forma diferente em cada sociedade”

A psicóloga acabaria por se desviar do tema inicial dos estudos, focados na violência e discriminação, para derivar para a psicologia que envolve o consumo da carne. Mas traria consigo a experiência da discriminação, que viria a aplicar ao novo foco dos seus trabalhos. Em 2001, num artigo científico, viria a lançar um tema novo: carnismo.

Neste novo conceito, Joy segue os passos e os ensinamentos de Ryder e Singer. “Como o sexismo e o racismo, o carnismo é um sistema global, embora se manifeste de forma diferente em cada sociedade — e, como todos os outros sistemas opressivos, o carnismo usa mecanismos psicológicos de defesa que fazem com que pessoas bondosas e solidárias incorram em práticas irracionais e nocivas sem que se apercebam”, explica. 

Apesar de marcante no debate moderno do tema, a presidente da ANIMAL considera a expressão “desnecessária” e que pode até ter efeitos perversos na luta pelos direitos dos animais. “Pode ter um efeito dissuasor usar uma expressão para denominar pessoas que comem e vestem animais. Lembro-me de falarem de nós como os comedores de alfaces, não é simpático. Sectorizar assim as pessoas parece coisa de seita.”

Para Joy, é preciso ajudar a sociedade a retirar as viseiras, para que finalmente nos seja possível perceber que vivemos num “sistema opressivo”. “Sem consciência e conhecimento não há uma escolha livre. Vivemos em piloto automático, tudo parece uma escolha livre quando crescemos num sistema coercivo (…) Se estás ciente do carnismo, és mais livre para escolher.”

Afinal, o que é o carnismo? É, na conceção de Joy, uma ideologia presente na sociedade e que serve de argumento aos que defendem o uso e consumo de produtos animais. Assenta naquilo a que a autora chama de três N, os três argumentos usados pelos carnistas para justificar o consumo de carne: é natural, é normal e é necessário.

Esta tese conduziu ao que ficou conhecido como o Paradoxo da Carne: o conflito de valores morais existente naqueles que defendem e protegem os direitos de uns animais, enquanto se alimentam de outros.

O conceito é facilmente resumido pela psicóloga Julia Shaw, que o descreve como “o conflito psicológico entre as preferências dietárias pela carne e a resposta moral ao sofrimento animal”. Quando isto acontece, dizem os peritos, estamos perante uma dissonância cognitiva

Explica a investigadora que esses são argumentos semelhantes, usados para defender práticas tão aberrantes como a escravatura, tida então como normal e necessária — e hoje banida da sociedade moderna. Para Joy, o consumo de carne é algo semelhante, sobretudo na forma como estes três argumentos são reforçados pela religião ou pela tradição.

“As pessoas que nos amam cresceram a pensar que comer carne é natural. Serão os meus pais uns monstros? Não, eles estão apenas sob a influência do carnismo e não se apercebem”, frisa Joy, que faz uma comparação cinematográfica da sociedade atual a uma espécie de “Matrix Carnistica”. A rede fictícia da qual teremos que nos libertar.

Para muitos, é apenas uma tradição

Confessa admiradora do trabalho de Joy, Rita Silva opta por uma visão menos drástica. “Não quero pôr paninhos quentes, mas parece que deste lado dos veganos, por vezes nos esquecemos que não nascemos veganos — não nascemos a saber o que sabemos agora. Porque é que não temos o mesmo nível de compreensão para com as outras pessoas, que gostaríamos que tivessem connosco?”

Contudo e à semelhança de Joy, Rita Silva avança com o mesmo exemplo. Serão os seus pais uns monstros porque comem carne — apesar de serem contra as touradas e o uso de peles? “Não são piores do que eu só porque eu sou vegana”.

“É uma questão enraizada na sociedade. Não se podem comparar essas pessoas com outras que batem palmas enquanto estraçalham um bovino numa arena. A maioria das pessoas, se falarmos com elas, não querem saber como são tratados os animais que comem, a maioria delas são empáticas, sente pena, fica desconfortável. Mas diz-se que ‘sempre foi assim’, que é a pior coisa que se pode dizer. E isso cria dificuldades em ultrapassar esta barreira”

A luta pela igualdade de espécies

Ryder, Singer e Joy fizeram escola e o movimento de libertação animal cresceu. Hoje, explica a investigadora Yamini Narayanan, da Universidade de Deakin, em Melbourne, a corrente tornou-se “num movimento típico de justiça civil”. “A discussão passou do bem-estar animal propriamente dito para um novo veganismo, mais prático e ativo, que deve ser visto como vemos o feminismo, o antirracismo e outros movimentos semelhantes de luta contra uma política de opressão”, diz à “BBC“. 

O veganismo é, desta forma, a principal alternativa e a mais poderosa arma na luta contra o sistema. “O veganismo é tão antigo quanto é novo. É a primeira dieta da humanidade, mas também assume novas e renovadas possibilidades, agora que goza de novos adeptos dispostos a defendê-lo por outras questões mais amplas, como a da perspetiva do bem-estar animal e de uma busca por maior igualdade entre espécies.”

José Alves, investigador especialista em demografia, é da mesma opinião. “O termo especismo começou a ser usado frequentemente e hoje de maneira mais ampla, para ser combatido como se combate o sexismo e o racismo.”

A forma de o combater, essa é menos clara, mas o brasileiro não retira da equação a criminalização. “Ainda falta muito para que possamos reconhecer especismo como crime, é claro, mas há legislações bastante avançadas (da Europa a países como a Nova Zelândia) em direção ao bem-estar animal, reconhecendo legalmente as demais espécies como seres capazes de sofrer ou sentir prazer ou felicidade (…) Para o mundo ser um local mais justo e harmonioso, não basta ser antissexista e antirracista é preciso ser antiespecista”, declarou à “BBC”.

Tal como na luta contra o racismo, este caminho faz-se através de pequenas mudanças, quase invisíveis, mas que, a longo prazo, poderão das frutos. É o caso da linguagem. “Eu nunca uso a palavra carne”, explica Rita. “Digo sempre que não como animais, não visto animais. A expressão vai entrando na cabeça das pessoas.”

Alguns miúdos acreditam que não comem animais

Relembra, como exemplo, o facto de usarmos a linguagem para nos livrarmos da culpa, de preferirmos dizer que vamos comer um pão com fiambre e não um “pão com porco”. “Deixa de ser um animal para ser uma coisa. Isto também é parte do problema, fugimos e evitamos caracterizar as coisas como elas são.”

Nas suas palestras nas escolas, acabava sempre por ser questionada pelas crianças sobre a sua dieta. “És vegetariana?” A resposta era sempre a mesma: “Não como animais, sim”. E para espanto da ativista, muitas das crianças respondiam que também não o faziam — embora o fizessem.

“Se lhes dissermos que vamos comer um porco, a Peppa Pig, iriam ficar chocadíssimas, embora seja verdade. Por isso, dizemos que vamos antes comer um bife, damos nomes às coisas para que não seja maléfico.”

Entre todas estas discussões filosóficas, Rita Silva sublinha a necessidade e o cuidado que é preciso ter para não cair na armadilha do paternalismo e da condescendência. “Acho que é tempo de nos colocarmos mais no lado de quem ouve.”

E conclui: “Todas as formas de opressão são igualmente condenáveis. Não acho que a luta pelos direitos humanos seja mais importante do que a luta pelos direitos dos animais, são diferentes, embora desemboquem na mesma questão, a da justiça.”

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