Alimentação Saudável

A bizarra dieta de Lord Byron, o poeta britânico que se apaixonou por Sintra

Lorde, poeta e revolucionário. Lord Byron foi uma série de coisas, incluindo um dos primeiros ícones de dietas da moda.
Sintra.

Muito antes das redes sociais, da televisão ou sequer da rádio, já havia figuras que se destacavam no mundo da alimentação como autênticos ícones. Eram, à falta de melhor palavra no nosso tempo, influenciadores.

Entre estas figuras que se destacaram está um jovem que, a dada altura, passou por Portugal. Nem toda a sua experiência com os portugueses terá sido a melhor, mas Sintra foi paixão — um Éden, como escreveu no seu “Child Harold Pilgrimage”. Numa carta, cehgouu mesmo a descrever a vila portuguesa como a mais bela que já visitara.

Este ícone era George Gordon Byron, mais conhecido como Lord Byron, figura das letras e romantismo que eternizou Sintra em verso após uma curta passagem por Portugal, em julho de 1809. Tinha, na altura, 21 anos e viajava pela Europa do Sul, de Lisboa até à Grécia.

Hoje em dia Sintra ainda guarda na memória a passagem de Lord Byron, mas no Reino Unido o lorde ficou conhecido como um dos primeiros grandes exemplos de como nos preocupamos com a alimentação fora do comum de gente famosa.

À “BBC”, a historiadora Louise Foxcroft coloca mesmo Lord Byron como um dos primeiros ícones de dieta do mundo, alguém que ajudou a lançar esta nossa obsessão com a forma como gente famosa emagrece. O jovem Byron tinha uma propensão para ganhar peso que o próprio abordou ainda antes de se tornar um poeta conhecido do grande público britânico. A forma física era algo que o preocupava no seio de uma sociedade onde as aparências importavam.

Os dados que há daquela época dão conta de um jovem que, em 1806, pesaria cerca de 88 quilos. Cinco anos depois, em 1811, o peso tinha caído para cerca de 57 quilos. Uma impressionante quebra registada para a história na Berry Bros & Rudd, histórico negócio no Reino Unido de comerciantes de vinhos — naquele tempo ainda não havia balanças simples como as de hoje.

Os quilos perdidos dão conta de uma dieta eficaz para perder peso. Foi algo considerado revolucionário, mas também bizarro e perigoso. Falamos da dieta que ficou vulgarmente conhecida como “dieta do vinagre”, criação do próprio Byron que resultou da preocupação que o próprio manifestara com o corpo ao longo dos anos nos seus escritos.

Lord Byron bebia principalmente grandes quantidade de vinagre de maçã. A ideia era que este atuasse como um supressor de apetite. Mas o que impressionava não era apenas o que bebia. Era também o que não comia.

Lord Byron retratado por Richard Westall.

A “BBC” dá conta de alguns fragmentos da obsessão de Byron com o peso. Um deles remonta a uma célebre passagem, no verão de 1816, no Lago Genebra. Na altura, Byron ficou hospedado na famosa villa Diodati.

Byron escolhera a mansão bem longe do Reino Unido, para se afastar das repercussões públicas da sua separação da mulher (e de um alegado caso amoroso com a meia-irmã, Augusta Leigh). A dada altura daquele verão, Byron e os seus hóspedes viram-se fechados em casa devido ao mau tempo lá fora.

Na casa, entre outros, estavam o recente amigo que conhecera, o poeta Percy Bysshe Shelley, que viajava com a sua futura mulher Mary Godwin (mais tarde conhecida como Mary Shelley). Estava lá também o médico pessoal de Lord Byron, John William Polidori.

Nos três dias que se viram fechados na mansão, decidiram contar histórias de terror para se entreter. De um dos fragmentos de uma história contada por Lord Byron, nasceu o que viria a ser “The Vampyre”, história na génese das histórias de vampiros que hoje conhecemos. Numa daquelas noites nasceu também a história que Mary Shelley lançaria dois anos depois: “Frankenstein”. Mas a dieta de Lord Byron durante a estadia daquele verão tinha também o seu quê de terror.

Byron vivia com apenas uma fina fatia de pão e uma chávena de chá pela manhã. O dia era todo passado sem comer mais nada, até se saciar com um jantar leve de vegetais, acompanhado por uma ou duas garrafas de água com gás, aromatizadas com Vin de Grave. Em certas noites, bebia uma chávena de chá verde.

Para tentar enganar a inevitável sensação de fome, fumava charutos em abundância. Em 1822, devido às suas carências nutricionais. O seu estado de saúde piorou. O próprio parecia saber que o que comia (e não comia) era parte do problema.

A sua dieta podia ser apenas perigosa para si, mas dada a influência cultural de Lord Byron, houve quem o criticasse. George Beard, médico daquele tempo, chegou a culpar as restrições alimentares pela “delicadeza de espírito” que encontrava nos poetas românticos do seu tempo. Não foi, no entanto, a dieta do vinagre a sua causa de morte.

Em 1823, já após uma passagem pela Grécia, Byron envolveu-se na luta de movimentos independentistas, que combatiam o domínio do Império Otomano. Chegou a doar parte da sua fortuna à causa e preparava-se para ser um dos líderes de uma investida militar. O alvo era Lepanto , uma fortaleza militar sob domínio turco.

Antes da expedição militar, a 15 de fevereiro de 1924, adoeceu. Ainda recuperou mas em abril voltaria a adoecer. Uma violenta gripe foi agravada por um método terapêutico tão macabro quanto ineficaz que na altura era aceite: a sangria. Com recurso a cortes ou a sanguessugas, retiravam-se quantidades de sangue do paciente.

Acredita-se que Byron terá morrido de uma combinação do tratamento e de uma infeção grave causada pelo uso de instrumentos não esterilizados. Uma última e violenta febre custou-lhe a vida a 19 de abril de 1824, em. Missolonghi. Tinha 36 anos. Para a história ficava o seu génio de poeta, o seu lado revolucionário que os gregos não esqueceriam, uma passagem pela mágica Cintra, como se escrevia então, e a bizarra dieta que chegou a ser da moda.

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