Quando tinha 19 anos, Hugo Falcão viveu um episódio que mudou por completo a forma como vivia. “Fiquei fechado num elevador durante três horas e meia, desmaiei e aquilo criou em mim um pânico enorme”, conta à NiT. Acabou por desenvolver claustrofobia e uma depressão. “Comecei a isolar-me, deixei de conviver tanto com os meus amigos e passei a estar muito mais em casa.”
O trauma influenciou vários aspetos da rotina. O isolamento tornou-se cada vez mais frequente e a comida passou a assumir um papel de refúgio. “O meu dia era comer e sentar-me ao computador para trabalhar. Não fazia desporto nenhum”, recorda. Durante anos, a alimentação foi marcada pela conveniência e não pela preocupação com a saúde. “Basicamente só comia fast food porque era mais prático”. Sem se aperceber, chegou aos 125 quilos.
A história é ainda mais surpreendente porque Hugo nunca teve problemas de peso durante a infância e juventude. Cresceu em Santa Cruz do Bispo e era um miúdo ativo, que passava boa parte do tempo a jogar futsal na equipa da freguesia. Quando entrou para a função pública, há cerca de 25 anos, pesava apenas 63 quilos. Contudo, à medida que a vida se foi tornando mais sedentária, os números na balança começaram a aumentar.
Atualmente com 47 anos, trabalha durante o dia na Junta de Freguesia da Senhora da Hora e à noite faz reposição na Makro. Na altura em que atingiu o peso máximo, os dias eram passados quase sempre sentado, primeiro no trabalho e depois em casa. Sem atividade física regular e sem grandes cuidados com a alimentação, foi engordando.
A mudança aconteceu a 16 de fevereiro de 2018. Nessa altura, um acontecimento inesperado levou-o a olhar para a própria saúde de outra forma. Um vizinho dos pais, que também tinha excesso de peso, morreu vítima de um AVC e a notícia funcionou como um gatilho.
Foi então que criou o projeto Obesidade Zero. A ideia inicial era simples: registar a própria evolução e provar que era possível emagrecer sem recorrer a cirurgias ou medicamentos. “Queria mostrar às pessoas que era possível perder peso sem esses atalhos. Tem muito a ver com o clique que se dá em nós”, explica.
A partir desse momento começou a planear as refeições e a introduzir atividade física de forma consistente na rotina. O processo não foi fácil — pelo contrário. Os primeiros dias continuam a ser aqueles de que mais se lembra quando pensa no percurso que fez.
“O difícil foi perceber a que ponto tinha chegado”, admite. Ainda hoje há momentos em que a emoção toma conta dele. “Às vezes estou no ginásio a fazer um determinado exercício e caem-me lágrimas porque penso como é que cheguei àquele estado, como é que cheguei àquele ponto depois de ter sido sempre magro”.
Apesar das dificuldades, nunca abandonou o objetivo. Aos poucos, o exercício deixou de ser uma obrigação. Atualmente treina todos os dias. Durante a semana aproveita a hora de almoço para ir ao ginásio, onde faz cerca de 50 minutos de cardio, divididos entre passadeira, remo, elíptica e bicicleta. Também é presença habitual nas aulas de cycling.
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Quando termina um dos dois trabalhos, ainda encontra energia para fazer caminhadas ou corridas ao final do dia, normalmente entre seis e 12 quilómetros, aproveitando a proximidade do corredor verde de Leça da Palmeira. Aos fins de semana mantém-se ativo, embora opte por percursos mais tranquilos.
A relação com o exercício evoluiu de tal forma que decidiu desafiar-se logo nos primeiros meses da transformação. Em setembro de 2018 participou numa corrida de 10 quilómetros para perceber até onde era capaz de chegar. Conseguiu completar a prova e ganhou confiança para continuar. No ano seguinte alcançou outro objetivo que parecia impossível quando pesava 125 quilos: terminou a Maratona do Porto.
A alimentação também mudou, embora sem radicalismos. Atualmente tenta equilibrar os pratos entre legumes, hidratos de carbono e proteína, privilegiando peixe, frango e peru. Há, no entanto, um hábito que nunca abandonou. “Nunca abdiquei do meu pão com manteiga. Como um por dia”, revela.
Ao longo do processo, encontrou na família a principal fonte de motivação. Foram eles que o ajudaram a manter o foco nos momentos mais difíceis. “As minhas duas filhas são o motivo para eu lutar para perder peso”, sublinha.
Quando chegou aos 80 quilos, menos 45 do que em 2018, percebeu que as maiores diferenças não se veem ao espelho. Sentem-se, sim, nos gestos mais simples do dia a dia. Baixar-se para apertar os atacadores, por exemplo, deixou de ser um esforço. O mesmo acontece com as escadas, que antes o deixavam sem fôlego.
“Quem nunca teve excesso de peso não percebe estas dificuldades. Antes sentia o peso em cima da barriga, faltava-me o ar e era muito desagradável. Agora é uma qualidade de vida completamente diferente”, afirma Hugo.
A transformação pessoal acabou por dar origem a outro projeto. Depois de anos a partilhar a sua evolução, Hugo decidiu reunir toda a experiência no livro “Obesidade Zero”, lançado a 18 de maio na Amazon. A obra funciona como uma espécie de manual para quem pretende iniciar uma jornada semelhante, reunindo os erros, as dificuldades, os objetivos que foi criando e as estratégias que utilizou ao longo do percurso.
“O objetivo é alertar as pessoas para o facto de a obesidade ser uma doença, mas também mostrar que existem ferramentas para mudar. Quero que as pessoas peguem nelas e transformem as suas próprias vidas”, conclui.
Carregue nas fotografias para conhecer a mudança de Hugo Falcão.








