Alimentação Saudável

Chegaram os nuggets de laboratório — a carne que os vegetarianos podem comer

Os criadores garantem que nenhum animal é morto ou sofre na criação deste novo tipo de carne.
Acredite: é mesmo frango

É um prato de encontrar na ementa de um luxuoso clube privado. Contudo, os nuggets de frango encontraram espaço na carta do requisitado 1880, em Singapura. Preço: 20 euros. É fácil de ver que estes não são uns nuggets comuns — e nem tudo neste valor é explicável pela confeção e acompanhamentos.

Se é uma opção compatível com dietas vegetarianas e veganas, não pode ser feito com carne, certo? Errado. Ao contrário das já muitas opções alternativas que tentam imitar carne, como é o caso dos Beyond Burger ou das criações da Impossible Foods, os nuggets da Eat Just contêm carne feita em laboratório.

Singapura é, por enquanto, o único país a dar a aprovação oficial à comercialização do produto criado pela empresa com sede em São Francisco, que está apostada em criar todo um novo mercado para a carne de laboratório. A promessa é tentadora.

A aposta parece ter convencido o dono do 1880, que descreveu os nuggets e a ciência que os torna possíveis como “um passo revolucionário para resolver o problema do aquecimento global” e uma “oportunidade para alimentar o mundo sem sobrecarregar o planeta”.

A entrada feita com os primeiros nuggets de laboratório

Apesar de serem vendidos não só como uma alternativa mais ecológica e ética à carne tradicional, a Eat Just tem também na mira os mercados vegetarianos e veganos. Afinal, se nenhum animal sofreu para a criação destes pedaços de frango, isso não significa que podem fazer parte das suas dietas?

A questão é um pouco mais complicada e o que pode ser visto como uma espécie de lacuna no código de ética, deu origem a toda uma discussão sobre a forma como são recolhidas as amostras que depois crescem em laboratório. As primeiras amostras exigem, claro, a existência de animais doadores. E também por isso a Just faz questão de promover o seu processo de recolha que é, segundo dizem, “livre de crueldade animal”.

“Para as primeiras células, era importante para nós como as obtínhamos (…) E tivemos a ideia de usar uma pena da melhor galinha que conseguíssemos encontrar”, explicam num vídeo onde relatam a forma como são recolhidas as células: através de uma simples pena, sem dor ou sofrimento. “Para sermos honestos, as pessoas vão sempre comer carne. E uma pena de uma das minhas galinhas poderia alimentar o mundo.”

A carne feita em laboratório é um conceito introduzido em 2013 e o pitch não podia ser mais sedutor, numa altura em que tanto se debate a necessidade de encontrar um equilíbrio com o planeta. Os números são esclarecedores: criar bovinos exige 28 vezes mais espaço e uma quantidade de água 11 vezes maior.

O processo de criação de carne em laboratório é relativamente simples. As células são recolhidas e as que compõem o tecido muscular são isoladas e colocadas num ambiente onde podem fazer aquilo que farão naturalmente: multiplicar-se na companhia de aminoácidos e hidratos de carbono.

São necessárias cerca de duas semanas até que a pequena célula chegue à etapa final: e dê origem ao que se assemelha a uma espécie de carne picada.

Tratado do processo, que descrevem como relativamente fácil, o mais difícil foi convencer as autoridades a darem a sua autorização. Em Singapura, a aprovação demorou cerca de dois anos. Agora, a grande dificuldade é a de concretizar o modelo de negócio de sucesso. Para isso, será preciso escalar e levar os nuggets a milhões de pessoas.

Ao que parece, isso não será um problema, até porque revelam ter recebido nos últimos meses mais de 400 milhões de euros de vários investidores, entre eles a Gate Ventures de Bill Gates. A avaliação está agora feita nos dois mil milhões de dólares.

A Eat Just investiu recentemente na criação deste tipo de produtos, mas não foi com a carne de laboratório que se tornou num unicórnio, isto é, uma empresa avaliada em mais de mil milhões. E tudo começou no maior cliché de sempre do mundo da tecnologia: numa garagem.

Primeiro, nasceu o ovo

“Tinha menos de três mil euros na conta bancária e uma ideia: criar uma empresa alimentar que retirasse o animal, o animal vivo, da equação”, explica o CEO da Eat Just, Josh Tetrick. “Decidimos que devíamos começar por tentar criar um ovo, um ovo de galinha, através de uma planta. Tudo o que sabia na altura é que existiam mais de 375 mil espécies de plantas por todo o mundo. E apostava que uma delas poderia ser mexida como um ovo.”

A aposta estava certa. Tetrick, que começou a carreira a trabalhar com organizações sem fins lucrativos em África, queria encontrar um negócio e também uma forma de ajudar a resolver o problema da sustentabilidade alimentar.

Dá mesmo para fazer omeletes sem ovos

Ao lado do co-fundador e amigo de infância Josh Balk, a empresa começou por chamar-se Beyond Eggs e, mais tarde, Hamtpon Creek. Os primeiros anos foram duros: a investigação levou à criação de uma gigantesca base de dados de plantas, avaliadas pelo seu potencial de uso, num processo que foi patenteado em 2016. O segredo, dizem, está na proteína, o elemento mágico que poderia dar início à tal revolução.

Os falhanços foram muitos. “Falhámos tanto. Numa das vezes, um dos nossos investigadores juntou toda a gente e disse que tinha encontrado a proteína perfeita para replicar a do ovo”, revelou à “Forbes” Chris Jones, vice-presidente do departamento de desenvolvimento de produto.

Foi ao som da banda sonora de “Rocky” que o chef/investigador tentou fazer os ovos mexidos. “Deitou tudo na firigdeira, e começou a borbulhar. E ali estávamos nos a ver aquilo borbulhar e a diminuir. A diminuir. Até que se evaporou.”

Eventualmente, encontraram o seu ouro no feijão mungo, um humilde ingrediente popular na cozinha asiática. A proteína semelhante à dos ovos, permitiu criar o Just Egg, um produto que permite recriar ovos e ser usado para fazer ovos mexidos. Anos antes, já tinham agitado o mercado com um substituto de maionese e com um produto de ovos para pastelaria.

Inimigos por todos os lados

Quem não achou grande piada a esta história de substituir ovos de galinhas por plantas foi a American Egg Board, a organização dos produtores de ovos que promove o seu consumo. A Eat Just era um alvo a abater. A luta fez-se nos meios de comunicação, onde a AEB lançou uma campanha que alertava os americanos para que não aceitassem substitutos.

Em 2015, o escândalo: vários emails trocados entre membros da AEB revelaram que a campanha era muito mais agressiva. Além de terem contratado uma empresa de comunicação com o único propósito de manchar a reputação pública da Eat Just — então ainda sob o nome de Hampton Creek —, também incentivaram a gigante Unilever a agir legalmente contra a startup. Pelo meio, alguém brincava que deveriam contratar um assassino para matar o CEO da empresa rival. O presidente da AEB demitiu-se de imediato.

O que realmente incomodou a Unilever foi a Just Mayo, a maionese feita sem ovos. A multinacional explicava que o produto poderia induzir em erro os consumidores, que poderiam acreditar que se trata de uma maionese tradicional, feita com ovos. A ação em tribunal foi retirada, depois da pressão feita por uma petição assinada por mais de 100 mil pessoas que pedia o fim deste “bullying”.

Os ataques também vieram de dentro. Em 2015, vários ex-funcionários acusaram a Eat Just de “más práticas científicas” ou, no pior cenário, “de não usar qualquer ciência”. Alegavam que muitas das alegações da empresa eram falsas, começando pela manipulação dos rótulos, omitindo ingredientes. Tetrick recusou sempre comentar as acusações.

O futuro

Por enquanto, os desafios ainda são mais do que muitos. Além do problema da aprovação em cada um dos restantes países do planeta — sem a qual o desenvolvimento e crescimento do negócio não pode acontecer —, existe também um problema de custo.

Em 2019, a produção de cada um destes nuggets custava perto de 90€. O cenário continua a ser negativo: a Eat Just perde dinheiro a cada nugget vendido em Singapura. Ainda assim, os custos de produção estão a cair. O mais caro continua a ser obter os materiais usados para alimentar as células, para que estas possam crescer.

“Este negócio não é para os fracos. Exige mesmo muito investimento antecipado antes de podermos obter lucros”, frisa Tetrick.

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