Alimentação Saudável

As dietas (e hábitos de beleza bizarros) da icónica princesa Sissi

A sua elogiada beleza ecoou muito para lá do século XIX em que viveu. Mas este é um conto de fadas que não o era.
Retrato de Franz Xaver Winterhalter.

Os retratos e relatos da época falam numa beleza desarmante, nuns longos e avolumados cabelos. A isto juntamos o estatuto social, a fortuna, uma educação privilegiada. Parecia conto de fadas, a história de uma adolescente bárbara que se tornriaa a mulher mais icónica da Europa do seu tempo. Mas as aparências, já o sabemos, são só isso mesmo: aparências.

Foi na véspera de Natal de 1837 que nascia na Baviera Isabel, uma figura influente que marcaria o século XIX e cuja aura haveria de se prolongar até ao nosso tempo. Foi, aliás, já bem no século XX, em especial com uma trilogia chamada “Sissi”, lançada há mais de seis décadas, que se foi consagrando como o tal conto de fadas. No entanto, havia um lado bem mais duro, muitas vezes auto-imposto por obsessões, a marcar a vida de Sissi.

Dos salões nobres às ruas das cidades do seu império, a Imperatriz era conhecida como Sissi. O nome, no entanto, não era especialmente apreciado pela família, nem sequer entre os seus descendentes. Foi a própria arquiduquesa Catalina de Habsburgo, sobrinha-neta da mítica Imperatriz, que deu conta disso mesmo.

Na biografia “Sissi”, lançada já há mais de uma década (e que ainda encontra em livrarias portuguesas), Catalina revelava a vida atormentada de Sissi, em especial nos últimos anos. Foi um tempo conturbado, no corpo e no espírito, marcado por momentos trágicos, como o suicídio do seu filho, em 1889, então herdeiro da coroa imperial, o arquiduque Rodolfo. Mas também problemas de saúde e conjugais.

Mas muito antes havia, já desde nova, uma inquietude que se prolongava, sendo que nalguns casos ajudaram a cimentá-la como um ícone. Na verdade, há quem a descreva como uma espécie de influencer original, com a sua fama, fortuna e beleza a serem determinantes para atrair invejas e marcar tendências na corte. Mas bem ao jeito das vidas de ilusão que hoje vemos nas redes sociais e que por vezes escondem algo, havia também esta outra Sissi, mais atormentada do que figura romântica.

Aos 23 anos, relatava a descendente na biografia, Isabel era já uma mulher que sofria de vertigens, náuseas e uma fadiga que a perseguia. “Ela procurava um controlo absoluto sobre o corpo e a mente. Não comia dias seguidos e depois ia cavalgar horas a fio”, chegou a relatar na altura Catalina, citada pelo “Público”.

Entre exercício físicos e dietas violentas, havia um número que a obcecava: 50 centímetros de cintura. Era o valor máximo que aceitava. Chegou a ser menor, ainda jovem, à força de espartilhos. Parecia disposta a tudo pelo tal número. Jejuava, fazia caminhadas, ginástica, andava a cavalo. Terá mantido durante a maior parte da sua vida os mesmos 50 quilos de peso (e 1,72m de altura).

Por vezes, este seu lado acompanhava outras tragédias. Quando Sofia, a sua primogénita, morreu, Sissi terá passado vários dias sem comer. Foi apenas um primeiro de diferentes períodos ao longo da vida, onde o jejum se fazia acompanhar de uma violenta melancolia.

Os seus cabelos eram tema de crónicas. Prolongavam-se quase até às pernas e implicavam, todos os dias, três horas de cuidados. Terão também contribuído em certos momentos para dores de cabeça mas não deixavam de ser símbolo de orgulho para a monarca.

Os cuidados no rosto incluíam o uso de morangos esmagados e até carnes vermelhas. Era também adepta de autênticos choques térmicos, algo que faria também preocupada com o peso. Tomava banhos de água a ferver seguidos de banhos de água fria. A isto tudo, juntava as horas que dedicava a exercícios físicos.

Nos últimos anos a sua dieta consistiria em leite retirado diretamente da vaca, laranjas e ovos. No museu Sissi, em Viena, estão ainda expostos os espremedores que usava nas fases em que evitava tocar em alimentos sólidos. Entre as cartas do imperador Francisco José, há mensagens em que o marido alertava a mulher, preocupado que esta não tivesse a seguir os conselhos do médico.

Romy Schneider no papel de Sissi.

Uma vida pública e atormentada

A história do seu casamento é bem diferente da tal trilogia “Sissi”, com Romy Schneider no papel principal. Curiosamente, apesar do desfecho infeliz, até terá começado como paixão. Antes de lhe contarmos esta parte, convém lembrar que aquele era um mundo diferente do de hoje.

Conta o “Deutsche Welle” que a Francisco José I tinha sido prometida Helena, então com 18 anos, a irmã três anos mais velha de Isabel. Mas, durante a apresentação formal de Helena, o imperador ter-se-á apaixonado por Sissi, exigindo a mudança de planos.

Francisco e Isabel casariam em abril de 1854, numa cerimónia no palácio imperial de Viena que durou uma semana. Foi o inicio de uma vida pública, com muitos percalços. Sissi tinha apenas 16 anos. A partir daquele momento era a imperatriz do que viria a ser o Império Austro-Húngaro.

A vida atormentada chegaria ao fim de forma abrupta. A 10 de setembro de 1898, numa viagem na Suíça, foi reconhecida pelo anarquista italiano Luigi Lucheni. Como símbolo icónico da monarquia, Sissi tornou-se um alvo. A agitação política na Europa era notória e em muitos casos isso terminava com a morte de figuras da monarquia. Aos 60 anos, Sissi acabou esfaqueada mortalmente.

Mais de um século depois ainda vai sendo desmistificada a vida de conto de fadas de Sissi que a ficção foi construindo. As dietas e cuidados de beleza que seguiu hoje andariam apenas entre a tortura autoinfligida e a simples fraude. Ainda assim, o tal lado icónico prolongou-se até aos nossos dias.

Hoje em dia a trilogia protagonizada por Romy Schneider continua a caber na Alemanha e na Áustria na categoria de filme natalício, aquelas obras que quase todos os anos, por altura do Natal, voltam ao ecrã. A própria Netflix planeia uma adaptação da vida da imperatriz austríaca, com a atriz alemã Devrim Lingnau no papel principal. Veremos que Sissi nos espera agora no ecrã. Mas é de prever que este seu lado atormentado ganhe o destaque (e a justiça histórica) que lhe faltou no passado.

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