Alimentação Saudável

Nem dietas, nem superalimentos: este livro quer destruir as “ilusões da comida saudável”

A professora universitária e autora, Conceição Calhau, deixa a regra de ouro: "Comer metade, mexer o dobro e rir o triplo".

Dietas de grelhados. Pratos cheios de superalimentos. Dicas de um lado, dicas do outro. As preocupações com a alimentação são, por estes dias, muitas — e diga-se, mais do que justificadas. Só que quem navega pelas redes sociais depara-se inevitavelmente com uma torrente imparável de dicas, truques e segredos. Serão verdade? Ou poderão até ser perigosos? Para Conceição Calhau, professora de Bioquímica Nutricional do curso de Medicina na Nova Medical School, em Lisboa, a grande maioria do que se encontra nas redes não passa de desinformação. Ou melhor, de tretas.

É esse o tema do novo livro, “Deixemo-nos de Tretas — A Ilusão da Comida Saudável”, que chegou a 18 de abril às livrarias e já vai na segunda edição. A autora, que tem dedicado a sua vida à academia e à publicação de artigos científicos, decidiu estrear-se no formato. “Estou muito feliz com o resultado, primeiro porque o meu nome era um total desconhecido neste mundo e segundo porque o feedback tem sido muito recompensador. As pessoas abordam-me na rua e dizem que se identificam muito com o que escrevi, há uma grande proximidade de relações”, começa por contar à NiT.

É através de uma escrita com um toque de humor corrosivo que a professora desfaz muitas das teorias que atualmente correm as redes e que versam sobre alimentação saudável e dietas milagrosas. “Numa altura em que somos constantemente bombardeados com conselhos vindos de todo o lado — muitos deles sem qualquer base científica que os sustente e, por vezes, até perigosos —, este livro é o antídoto perfeito para que, em termos de nutrição, nos deixemos de ilusões e de tretas”, pode ler-se no resumo da obra.

A autora nunca teve nem tem redes sociais, à exceção do Linkedin, mas o facto de existirem cada vez mais pessoas à procura de informação e de consciencialização no que toca à alimentação, fez com que sentisse a necessidade de sair da bolha e partilhar conhecimento. “Torna-se muito confuso e é difícil fazer a distinção das fontes credíveis daquelas que apenas têm muitos seguidores. Se antigamente o provérbio dizia que de médico e louco todos temos um pouco, hoje em dia podia dizer que de nutricionista e louco todos temos bastante. Como toda a gente come, toda a gente acha que sabe. Esta é a minha tentativa de dar ferramentas reais.”

Para a autora, é importante que se perceba que a alimentação é importante, mas que a saúde não poder estar apenas ligada a ela. O estilo de vida, o sono, o exercício físico, todas as rotinas são essenciais. “A regra é comer metade, mexer o dobro e rir o triplo. As pessoas só procuram profissionais por vezes quando já é tarde demais. Primeiro tentam a dieta que a amiga fez, depois outra que viram na internet. Quando chegam ao meu consultório eu pergunto sempre quantas vezes já tentaram emagrecer com dietas diferentes e a resposta é normalmente a mesma, que é muitas. Isto faz com que o metabolismo esteja completamente alterado, uma vez que teve de se ir adaptando a tantas mudanças que foi sofrendo.”

O grande objetivo do livro é o de descomplicar a mensagem que atualmente é passada sobre a alimentação saudável, um termo que acredita estar hoje a ser totalmente deturpado. “Hoje em dia faz mais sentido alimentação adequada, porque é sempre isso em função de cada indivíduo, das suas circunstâncias e do seu ambiente.”

A dieta considerada mais adequada é a mediterrânica, que mais de 80 por cento da população portuguesa já não cumpre, por não comer leguminosas, sopas e hortícolas. Este panorama tem colocado o nosso País como sendo um dos que tem mais excesso de peso e obesidade, o que ressalva ainda mais a necessidade de ter um profissional capacitado para acompanhar cada pessoa. “Com a globalização, que também tem coisas boas, fomos perdendo os hábitos que tínhamos e precisávamos, está tudo diferente, se formos comparar com os anos 60 ou 70. Devemos comer alimentos sazonais e locais, mas com toda a movimentação que existe isto tornou-se quase impossível. Temos acesso a várias opções de todo o mundo, o que faz com que deixe logo de existir o fator sazonalização.”

O truque é nunca comer nada que a sua avó não reconhecesse como alimento, brinca Conceição Calhau. Outro dos mitos que desfaz é o de uma alimentação apenas à base de grelhados. Num prato de arroz com bife de peru “faltam muitos outros nutrientes”, que podem ser acrescentados através de brócolos e feijão-preto, por exemplo.

O livro termina com uma citação de Paracelso: “Na alimentação como em tudo, o que faz o veneno é a dose”. As pessoas acreditam que se comer algo uma vez faz bem, comer três ou quatro fazem ainda melhor, o que é mentira. Conceição crê que a solução para a proliferação de informação errada depende dos profissionais que fazem o exercício do contraditório — e afirma que brevemente terá de ser criada uma regulamentação que balize o que hoje em dia é escrito.

A novidade editada pela Contraponto já está disponível nas livrarias e online e custa 15,93.

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